sábado, 21 de julho de 2018

Donald Trump - racional ou irracional? - análise

«SOBRE TRUMP



A PROPÓSITO DA CIMEIRA DE HELSÍNQUIA
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Acabei de ouvir os comentadores da Quadratura do Círculo falar sobre Trump a propósito da cimeira de Helsínquia. E estou muito longe de partilhar a ideia, por eles unanimemente defendida, de que o actual Presidente dos Estados Unidos é um louco, que actua erraticamente, sem qualquer estratégia, lançando o caos nas relações internacionais, nomeadamente entre os seus tradicionais aliados.

Apesar de já estar no poder há cerca de ano e meio não é tão fácil como habitualmente interpretar a estratégia do Presidente norte-americano. E não é, porque Trump, não sendo um homem do establishment, tem tido muita dificuldade em impor aquilo a que se poderia chamar a sua linha política. Errou, do ponto de vista dele, na formação do Governo e da composição da Casa Branca. Por isso, teve de fazer alterações, por vezes bruscas, outras de difícil compreensão, tudo isto em consequência das cedências e recuos que se viu obrigado a fazer. Daí um certo comportamento errático, absolutamente inabitual num político saído de dentro do sistema.

Por outro lado, Trump é pouco elaborado intelectualmente, mais parecendo um “popular” que embora tenha uma ideia do que quer fazer e acredite nela, a expõe quase sempre com desconcertante simplismo e ainda menor eloquência. Como é sensível à reacção dos que o escutam, tanto dos que se situam no seu campo, como daqueles cuja força da opinião lhe pode causar dano, não tem qualquer dificuldade em dar a entender que mudou de posição, fazendo-o com a mesma leveza com que deturpa a verdade, mas sempre com vista manter o essencial do que considera importante para sua acção política.

Este tipo de comportamento, próprio do empresário para quem o objectivo primordial é o lucro, influencia decisivamente a sua acção política.


Trump foi eleito, como se sabe, com os votos dos desempregados, das vítimas da globalização, em suma, de todos daqueles que têm dificuldade em compreender que sendo a América tão forte, tão poderosa, teoricamente presente nos quatro cantos do mundo, tem tanta gente dentro das suas fronteiras não apenas vivendo tão mal, mas, pior do que isso, tendo perdido completamente a esperança de poder vir a viver melhor.

Daí que, no pano interno, os seus inimigos sejam aqueles que conduziram a América a esta situação e os que, vindos de fora, estão a prejudicar os verdadeiros americanos, ou seja, aqueles que durante mais de meio século constituíram a classe média americana, oriunda das classes trabalhadoras.

Para combater esses inimigos é preciso cerrar as portas à imigração, desde logo à gigantesca imigração ilegal na sua esmagadora maioria proveniente da América Latina, e é preciso também onerar aqueles que estão a arruinar a América vendendo-lhe produtos que deixaram de ser produzidos nos Estados Unidos, exportando-lhe com eles desemprego e desolação.

No contexto desta perspectiva, Trump vê a América como uma empresa, uma empresa sem outra ideologia que não seja o lucro. As empresas não têm por função segregar ideologia ou fazer a defesa de “valores” que desempenhem um papel fundamental no plano ideológico.

Nunca ninguém até hoje ouviu Trump falar na defesa dos “valores” americanos, da “democracia”, enfim, de toda essa ladainha com que os americanos desde há quase um século têm cimentado a sua hegemonia política.

Trump está fora desse mundo. Trump vê o mundo como um campo de acção concorrencial, onde o mais forte tenta esmagar o mais fraco, retirando-o do mercado ou limitando-lhe o mercado. Mas como qualquer empresário Trump também percebe que, sendo esse o objectivo, dificilmente o poderá alcançar por inteiro. Daí que tenha que negociar com a concorrência e aceitar a sua presença no mercado se ela for suficientemente forte para não sucumbir às suas arremetidas.

É neste contexto que ganham sentido e racionalidade as suas relações com a Rússia, com a União Europeia, com a Ásia, principalmente com a China.


Para Trump a Rússia não só não é concorrente perigoso como até lhe pode ser útil na luta contra os seus verdadeiros inimigos. Como empresário, Trump sabe do que fala. Sabe que a Rússia não ameaça a sua “America First”. Essa ameaça vem de outras paragens. Desde logo dos seus vizinhos do Norte e do Sul em consequência dos tratados negociados por políticos americanos que “desgraçaram” a América e cujas vantagens ideológicas, que deles pretendiam obter, em nada interessam a América, porque não a engrandecem, apenas a empobrecem. Depois vem a União Europeia, um inimigo de peso, um inimigo que vive à custa da América, que lhe custeia quase integralmente os custos de defesa militar e lhe “dá” como contrapartida uma balança comercial fortemente deficitária, o que é na mundividência de Trump é algo de absolutamente inaceitável. Daí que Trump tudo tenha feito para desarticular a UE e, se bem se reparar, quando admite que alguém na Europa o possa ajudar nesses objectivo (como chegou a supor que poderia acontecer com o Reino Unido depois do Brexit) o que lhe oferece como recompensa não é um tratado de defesa ou um reforço da sua capacidade militar, mas …um vantajoso tratado de comércio!

Finalmente, a Ásia, principalmente a China, à qual, depois de ter declarado guerra comercial, enfraquecendo-a, procura igualmente roubar aliados. E é nesse contexto que tem de ser interpretadas as “negociações” com a Coreia do Norte, muito difíceis de levar a cabo por se depararem com a feroz oposição do establishment americano que tudo, mas tudo, fará para as boicotar. Trump está mais interessado em “roubar” este aliado à China do que em manter na península coreana uma pujante base militar que, para a sua “guerra”, de pouco lhe serve.

Os actos políticos de Trump mais difíceis de explicar são o abandono do tratado nuclear com o Irão e a mudança da embaixada americana de Telavive para Jerusalém Embora muitos vejam no petróleo a motivação fundamental destas suas decisões bem como a consequente importância estratégica do Médio Oriente para os Estados Unidos, a verdade é que não sendo estes os pressupostos que têm orientado a política de Trump, seja mais fácil explica-los em função da influência israelita na política americana a que Trump não consegue escapar. Mas serão actos que, embora simbolicamente importantes, terão menos relevância do que se supõe. De facto, a Rússia já se encarregou de desarmadilhar parte da sua importância política, reiterando defender a segurança de Israel com múltiplas cumplicidades militares à mistura, não obstante manter uma relação privilegiada com Teerão.

Quem sofre mais com tudo isto e quem tem mais dificuldade em compreender o actual Presidente americano são os aliados tradicionais da América que, tendo ficado ideologicamente órfãos, vão passar um mau bocado para se recompor. Tanto pior quanto maior for a incerteza acerca da duração desta política.

Concluindo: será Trump um perigo para a humanidade, como amiúde se ouve dizer e se teme? Trump, antes de poder ser um perigo para a humanidade, é um perigo para si próprio. Não é de pôr de parte a hipótese de Trump ser um alvo a abater se persistir em levar à prática as suas ideias. Mas acaba também por ser um perigo para a humanidade por estar sujeito ao cerco feroz do establishment americano, o que numa personalidade como a sua, alicerçada num populismo que não pode admitir fraquezas, sob pena de se desmoronar, a pode levar à prática de actos de grande exibicionismo político, de funestas consequências, para manter intacta a ideia de que não sucumbe à acção dos concorrentes.

Esta é uma tentava de explicação, politicamente incorrecta, da acção política de Trump.»

[J M Correia Pinto in blog Politeia]

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