terça-feira, 5 de junho de 2018

E se os italianos mandassem na Itália?

A Itália perdeu a guerra, perdeu a II Guerra Mundial e ficou, até hoje, debaixo de ocupação estrangeira, debaixo da ocupação dos Estados Unidos. A Itália é como que um armazém de bombas atómicas estadunidenses.

A criação da moeda euro pelos franceses com normas alemãs criou o império dos vencidos, o império dos alemães. 

A Itália perdeu duas guerras, a II Guerra Mundial contra os Estados Unidos, e a guerra do euro contra a Alemanha. Os italianos querem mandar na Itália mas não os deixam, nem os Estados Unidos que fazem da Itália um armazém de bombas radioactivas e um porta-aviões para as guerras imperiais dos norte-americanos, nem os alemães contra os quais os italianos perderam a guerra do euro. 

Mas, se os italianos quiserem mesmo mandar na Itália o poder dos norte-americanos sobre a Itália desmorona-se e o poder dos alemães  sobre a Itália também se desmorona.


«Crise política em Itália: o fim anunciado do euro?




«Nas últimas duas semanas quase pareceu um regresso ao passado – à crise do euro de 2010-2012 – com as taxas de juro da dívida pública de Itália a subir abruptamente na sequência do processo de nomeação do novo governo italiano. O BCE deve ter ’ajudado à missa’ ao não intervir nos mercados em defesa da Itália e também Vítor Constâncio deu o seu ’contributo’, numa boa entrevista à Spiegel (em que abordou também outros questões importantes), ao relembrar a Itália as regras do programa OMT (“Outright Monetary Transactions”, ou compras permanentes de dívida pública de países membros) que permite, em teoria, resgates do BCE a países em crise, desde que acompanhados por programas de ajustamento (i.e., austeridade), mensagem certamente muito bem recebida na Alemanha.» Lembraram aos italianos que a Itália não é um país independente, mas uma colónia que tem que se sujeitar a todas as selvajarias do colonialismo.
«Em Outubro de 2015, Cavaco Silva recusou-se inicialmente a aceitar a proposta de António Costa de constituição de um governo socialista com o apoio parlamentar do PCP-Verdes-BE e empossou o XX Governo Constitucional, liderado por Passos Coelho. Só após a proposta de governo minoritário PSD-CDS ter sido rejeitada por uma maioria de deputados da Assembleia da República, a 10 de Novembro de 2015, o então Presidente da República deu posse a 26 de Novembro de 2015 ao XXI Governo Constitucional e a António Costa como primeiro-ministro. O compasso de espera até à nomeação do governo socialista durou quase dois meses numa altura em que o acesso de Portugal ao financiamento do Eurosistema estava dependente da avaliação de apenas uma agência de rating. E o novo Governo foi imediatamente confrontado com decisões importantes em relação à banca. De facto, a corrida aos depósitos no Banif após notícia da TVI a 13 de Dezembro de 2015 da sua iminente resolução, a resolução deste banco e a passagem retroactiva de dívida sénior do Novo Banco para o BES ocorrem entre 14 e 29 de Dezembro de 2015, menos de um mês depois da tomada de posse do Governo. Tivemos sorte, mas é evidente que nessa altura um desfecho desfavorável não era desejado pelas autoridades europeias, nomeadamente pelo BCE. Também é claro que António Costa tinha assegurado aos parceiros europeus que o seu governo iria cumprir as regras europeias.
Em Itália, o Presidente da República, Sergio Mattarella, que não é eleito por sufrágio universal ao contrário do que ocorre em Portugal, parece ter feito pior ao recusar dar posse a um governo porque o ministro das finanças proposto, Paolo Savona, antigo ministro da “indústria, comércio e artesanato” de Itália em 1993-94 e figura do ‘establishment’ com inúmeras funções públicas e institucionais no seu curriculum, era manifestamente anti-euro, tendo sido, em 2015, co-autor de uma apresentação de 80 slides em que propunha um ‘plano B’ que implicaria a saída da Itália da zona euro.
Daniel Gros numa análise muito crítica dos pontos chave desse ‘plano B’ de Savona argumenta que o objectivo do ‘plano B’ é servir como instrumento dissuasor para as negociações com os parceiros europeias. A dívida pública seria redenominada numa ‘nova lira’, que inicialmente teria paridade de 1-para-1 com o euro, mas que se depreciaria posteriormente entre 15% e 25%. A dívida pública seria reestruturada de forma a que o peso da dívida pública caísse dos actuais 132% do PIB para 60% a 80%, mas para Gros a proposta é omissa e inconsistente em vários detalhes importantes e não explicita como seria feita a reestruturação de dívida. Ainda segundo Gros, parece que se pretendia com o ‘plano B’ impor perdas a não residentes, preservando o património dos italianos mais ricos mas, por via de uma enorme desvalorização, prejudicando a classe trabalhadora. Contudo, é evidente que o plano teria também um impacto muito negativo no património dos italianos mais ricos por via do seu efeito tanto no valor dos depósitos bancários como no valor da dívida pública.»
[Ricardo Cabral cit in blog Entre as brumas da memória] 

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