terça-feira, 22 de maio de 2018

O Maio de 68 - análise crítica e crítica à crítica

O Maio de 68 começou por ser uma revolta universitária anarquista contra a moral puritana, típica do conservadorismo dito vitoriano e do fascismo português e italiano, moral puritana em vigor na França, em que o Estado ousava mandar na vida privada das pessoas, tradição herdada da Inquisição Católica. Como noutro post mostrei, a Inquisição Católica em Portugal prendeu um homem casado católico, sem provas, por, alegadamente, ter sodomizado a esposa.

A repressão policial sobre os estudantes conduziu a protestos que culminaram numa greve geral em França, convocada pelas centrais sindicais que paralisou o país, que foi a maior greve operária do século XX, em toda a Europa.
O presidente da República De Gaulle chegou a fugir para a Alemanha, lembrando-se, provavelmente, do rei Luís XVI.
Uma revolta sem um programa político alternativo acaba por se enquadrar no regime e no curto prazo a Direita venceu. De Gaulle dissolveu o Parlamento e convocou eleições gerais em que a Direita obteve maioria absoluta.
No entanto, um ano depois, De Gaulle demitiu-se. O Maio de 68 modificou a Esquerda e a Direita francesa, no campo dos direitos sociais e na definição da vida sexual fora do puritanismo que era imposto pelo Estado.


«SOBRE A GERAÇÃO DE 60 e o MAIO 68


SOBRE UMA ANÁLISE DE TONY JUDT

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Tendo em conta a comemoração dos 50 anos do Maio 68, acho que terá interesse ler esta análise de Tony Judt da geração de 60, que faz parte do livro publicado entre nós pelas Edições 70 com o título: “Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos”, 2010, com o título original em inglês,” Ill fares the Land”, do mesmo ano.

Embora a geração de 60 se não tenha deparado com os mesmos problemas em todo o mundo ocidental e o contexto em que viveu tivesse assinaláveis diferenças de país para pais, como é, por exemplo, o caso português, nem por isso este retrato deixa de corresponder, no essencial, ao que dela ficou para o futuro. No caso português, por um lado, o facto de essa geração ter sido contemporânea de uma guerra colonial que condicionava o seu futuro, e, por outro, o facto de em Portugal existir um uma ditadura fascizante, fez com que valores e princípios das gerações do pós guerra continuassem a ter muita influência na sua formação. Daí a matriz do 25 de Abril e do movimento revolucionário que se lhe seguiu, que nada tem a ver com o Maio de 68, nem com os princípios individualistas que acima de tudo o marcaram.

O que não significa, não obstante o muito que entre nós ficou do 25 de Abril, principalmente por o movimento revolucionário ter operado um verdadeiro desmantelamento do Estado fascista, que a herança daquele movimento e os princípios sob cuja égide a geração de 60 se formou nos países capitalistas do Ocidente não tenham projectado a sua influência na construção das sociedades em que hoje vivemos.

A análise que a seguir se transcreve é apenas uma pequena parte – O legado dos anos 60 - do livro acima citado e apesar de estarmos substancialmente de acordo com o que nela se diz, isso não significa que a análise específica do Maio 68 não exija outros desenvolvimentos. Todavia, o que interessa é sublinhar o carácter individualista do movimento e ter consciência de que foi essa herança aliada (objectivamente) à Escola de Viena dos anos trinta, renascida em Chicago vários decénios depois, e o movimento neoconservador, inspirado no trotskismo americano dos anos trinta, que “construíram” a matriz das sociedades capitalista em que hoje vivemos.
Tony Judt:

“ (…) Acima de tudo, a nova esquerda – e o seu eleitorado, na sua maioria jovem – rejeitava o colectivismo herdado dos seus antecessores. Para uma geração anterior de reformadores, de Washington a Estocolmo, fora evidente que a “justiça”, a “igualdade de oportunidades” ou a “segurança económica” eram objectivos comuns que só podiam ser alcançados pela acção conjunta. Quaisquer limites da regulamentação e controlo excessivamente intrusivos e vindos de cima eram o preço da justiça social – e um preço que valia a pena.

Um grupo mais jovem via as coisas de modo muito diferente. A justiça social já não preocupava os radicais. O que unia a geração dos anos 60 não era o interesse geral, mas as necessidades e direitos de cada um. O “individualismo” – a afirmação da exigência de cada pessoa da máxima liberdade privada e da liberdade irrestrita para a expressão de direitos autónomos, e de vê-los respeitados e institucionalizados pela sociedade em geral – tornou-se a divisa da esquerda. Fazer “o que se entender”, “não se reprimir”, “fazer amor, não a guerra”: não são metas desprovidas de atracção intrínseca mas na sua essência são objectivos privados, e não bens públicos. Não admira que conduzissem à afirmação muito difundida de que o “pessoal é político”.

A política dos anos sessenta evoluiu assim para um conjunto de reivindicações individuais perante a sociedade e o Estado. A “identidade” começou a apoderar-se do discurso político: identidade privada, identidade sexual, identidade cultural. Daqui foi um pequeno passo para a fragmentação da política radical, a sua metamorfose no multiculturalismo. Curiosamente a nova esquerda manteve-se extremamente sensível aos atributos colectivos das pessoas de terras distantes, onde pudessem ser reunidas em categorias sociais anónimas como “camponês”, “pós-colonial”, “subalterno” e afins. Mas internamente reinava, incontestado, o indivíduo.

Por muito legítimas que sejam as reivindicações dos indivíduos e a importância dos seus direitos, sublinhá-los acarreta um preço inevitável: o declínio de um propósito de vida partilhado. Outrora procurava-se na sociedade – ou classe ou comunidade – o vocabulário normativo individual: o que era bom para todos era por definição bom para qualquer um. O inverso, porém, não é válido. O que é bom para uma pessoa pode ter ou não ter valor ou interesse para outra. Os filósofos conservadores de uma época anterior compreendiam isso bem, razão pela qual recorriam à linguagem e imagética religiosas para justificar a autoridade tradicional e as suas exigências sobre cada indivíduo.

Mas o individualismo da nova esquerda não respeitava nem o propósito colectivo nem a autoridade tradicional: ele era, no fim de contas, novo e de esquerda.

O que lhe restava era o subjectivismo do interesse e desejo privados – e medidos em privado. Isso, por sua vez, favorecia o recurso ao relativismo estético e moral: se algo é bom para mim não me cabe averiguar se é bom para mais alguém – e muito menos impô-lo (“faz o que entenderes”).

É verdade que muitos radicais dos anos 60 eram apoiantes bastante entusiásticos de escolhas impostas, mas só quando essas afectavam povos distantes, dos quais pouco sabiam. Em retrospectiva, é surpreendente reparar na quantidade dos que na Europa Ocidental e nos Estados Unidos exprimiram entusiasmo pela “revolução cultural” ditatorialmente uniforme de Mao Tse-tung, enquanto internamente definiam a reforma cultural como a maximização da iniciativa e autonomia privada.  

Tantos anos depois, pode parecer esquisito que tantos jovens dos anos 60 se identificassem com o “marxismo” e com projectos radicais de todo o género, ao mesmo tempo que se dissociavam de normas conformistas e propósitos autoritários. Mas o marxismo era um tecto retórico sob o qual estilos de dissensão muito diferentes podiam agrupar-se – sobretudo porque oferecia uma continuidade ilusória com uma geração radical anterior. Mas sob esse tacto, e servida por essa ilusão, a esquerda fragmentou-se e perdeu todo o sentido de objectivos partilhados.

Pelo contrário, a “esquerda” ganhou uma aparência bastante egoísta. Nesses anos, ser de esquerda, ser radical, era ser egocêntrico, arrivista, e curiosamente provinciano nas preocupações pessoais. Os movimentos estudantis de esquerda estavam mais preocupados com as horas de fecho dos portões das universidades do que com as práticas laborais fabris; os filhos universitários da classe média alta italiana espancavam polícias mal pagos em nome da justiça revolucionária; palavras de ordem irónicas, alegres, exigir a liberdade sexual, substituíam contestações proletárias coléricas aos exploradores capitalistas. Isso não significa que a nova geração de radicais fosse insensível à injustiça ou à malfeitoria política: os protestos do Vietname e os tumultos raciais dos anos sessenta não foram insignificantes. Mas estavam divorciados de qualquer sentido de propósito colectivo, sendo ao invés entendidos como prolongamentos da expressão pessoal e cólera individuais.

Estes paradoxos da meritocracia – a geração dos anos sessenta foi acima de tudo uma consequência secundária bem sucedida dos mesmos Estados-providência sobre os quais despejava todo o escárnio juvenil - reflectiam uma falta de firmeza. As antigas classes patrícias tinham dado lugar a uma geração de engenheiros sociais bem intencionados, mas nenhuma delas estava preparada para o descontentamento radical dos seus filhos. O consenso implícito dos decénios do pós guerra fora agora rompido, e um consenso novo, decididamente artificial, começava a surgir à volta da primazia do interesse privado. Os jovens radicais nunca teriam descrito assim os seus propósitos, mas era a distinção entre liberdades privadas louváveis e constrangimentos públicos penosos que mais lhes inflamava as emoções. E essa mesma distinção, ironicamente, também definia a nova direita que despontava.»

 [J M Correia Pinto in blog Politieia]


Tony Judt (1948-2010) foi um conhecido intelectual de Esquerda, de nacionalidade inglesa e de origem judaica, que se especializou na História do século XX.
Sendo de família judaica esteve no Estado de Israel que o desiludiu profundamente.
As citações de Tony Judt feitas por J M Correia Pinto mostram duas questões essenciais: o bem comum e o bem-estar individual. Ora, o Maio de 68 deu origem a uma liberdade individual maior, separando-a das concepções religiosas cristãs. Por um lado, aumentou a liberdade das mulheres, que conduziu, nomeadamente, à descriminalização do aborto. Uma interpretação das teorias de Darwin deu origem ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à mudança de sexo.
A Esquerda tem como lema o bem-estar das pessoas, libertando-as da opressão provocada pelos salários baixos e pela insegurança no trabalho e também pelos preconceitos com origem no cristianismo, católico, protestante e ortodoxo, que dominou a Europa.

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