quinta-feira, 24 de maio de 2018

O Império não quer a paz

Há muitas pessoas de Esquerda que colaboram na Red Voltaire, quer com textos, quer tradutores ou tradutoras profissionais, sem receberem nada, por convicção. Por exemplo Manlio Dinucci que escreve no jornal marxista italiano Il Manifesto. O director da Red Voltaire, o jornalista e escritor francês dissidente Thierry Meyssan, é apoiante de Trump. Uma coisa é explicar a ascensão de Trump, outra é pensar que a estratégia de Trump não é um perigo para a Humanidade. Thierry Meyssan acha que Trump tem uma estratégia de paz para o Médio Oriente. Nos blogs de Esquerda portugueses J M Correia aparece com artigos desenvolvidos, semelhantes aos da Red Voltaire, mas tem uma posição claramente divergente da de Thierry Meyssan sobre Donald Trump.

«CIMEIRA ENTRE ESTADOS UNIDOS E COREIA DO NORTE CANCELADA


Combinação de fotos mostra presidente americano Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-un (Foto: Mandel Ngan/AFP/ KCNA via KNS)


O PREVISÍVEL ACONTECEU


Donald Trump acaba de cancelar a cimeira com a Coreia do Norte por neste momento a considerar inapropriada.
Modéstia à parte, mas só quem não percebe nada de relações internacionais poderia supor que os Estados Unidos estariam interessados em negociações sérias com vista à desnuclearização da Península da Coreia. Depois de um período de ameaças recíprocas entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, em grande medida ditado por do lado norte-coreano se ter percebido que as ténues conversações em curso, vindas da administração anterior, estavam sem qualquer hipótese de prosseguir na vigência da nova administração americana, nomeadamente depois de exoneração do Secretário de Estado Rex Tillerson, e quando a passos largos se caminhava para o abismo, a Coreia do Norte surpreendeu o mundo ao enviar uma numerosa delegação aos Jogos Olímpicos de Inverno, que em Fevereiro deste ano se realizaram em Pyeongchang, na Coreia do Sul.
Para este aparente volte face não terá sido indiferente a posição da Coreia do Sul que, vendo a guerra, de consequências incalculáveis, a abeirar-se a passos largos do seu território, terá, seguramente à revelia dos Estados Unidos,  diligenciado junto dos seus "irmãos" do Norte no sentido de alguns gestos simbólicos de ambas as partes deverem ser feitos para atenuar a tensão e criar um clima  favorável ao recomeço das negociações.
O que se conhece, do que se passou depois, deixa perceber que a actual liderança da Coreia do Sul estava interessada numa solução pacífica do conflito coreano. A cimeira entre os dois chefes de Estado de cada uma das Coreias terá superado as espectativas, criando um clima francamente favorável ao abaixamento da tensão e da procura de uma solução para o conflito, embora do lado americano logo se tivesse percebido que eram muitas as reticências a um acordo que pudesse satisfazer ambas as partes.
Como é óbvio, não podendo os Estados Unidos aparecer aos olhos da opinião pública internacional  interessados na manutenção de um clima conflitual entre as duas Coreias, viram-se obrigados, depois da ultrapassagem que a Coreia do Sul lhes fez, a proferir algumas palavras apaziguadoras e, inclusive, a dizerem-se dispostos a um acordo de desnuclearização da Península da Coreia. Todavia, pelo que se passava em Washington, tanto no Congresso, como na Casa Branca, seja por intermédio do conselheiro nacional de segurança, John Bolton, seja por via do vice-presidente, Mike Pence,  seja por obra do novo secretário de estado, Mike Pompeo, bem como do errático presidente, Donald Trump, logo se percebeu que o acordo de paz a que os americanos estavam dispostos a dar o seu assentimento não andaria muito longe de uma capitulação pura e simples da Coreia do Norte.
É natural que a Coreia do Norte tenha compreendido isto desde o primeiro momento, sem prejuízo de ter querido testar até onde iam realmente as exigências americanas. Temendo que as palavras proferidas em Washington pudessem  não estar a ser devidamente compreendidas por todos os intervenientes no conflito coreano, os americanos não tiveram dúvidas em comprometer directamente a Coreia do Sul, exigindo a realização de manobras militares conjuntas nas vésperas da hipotética cimeira  entre Donald Trump e Kim Jong-un.
Depois das ameaças mais ou menos veladas ou  ostensivas de elementos da administração americana, com "provas dadas" no relacionamento com outros países, ficou claro aquilo que já se sabia e que vale tanto para a administração Trump como valia para a administração Obama - os Estados Unidos não aceitam uma Península coreana desnuclearizada, embora, obviamente, aceitem a capitulação mais ou menos incondicional da Coreia do Norte.
Infelizmente, o que se está passando na Coreia não representa nada de novo. É apenas mais uma manifestação da política imperial americana. Da política que passou a hostilizar a Rússia, cercando-a, depois de ter percebido que não a poderiam "domesticar" ; da política que invadiu o Iraque; da que criou o caos na Líbia, depois de ter derrubado Kadhafi; e da que  se prepara para criar um conflito de proporções inimagináveis no Médio Oriente, se atacar o Irão.
Para terminar, apenas sublinhar que a agressividade americana à escala planetária tem subido de tom na razão inversa da sua incapacidade para dominar o mundo. E isto é muito grave e não augura nada de bom...»

[J M Correia Pinto in blog Politeia]

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