quinta-feira, 3 de maio de 2018

As televisões portugueses são desonestas, existem para divulgar a desonestidade

Costumo ler o blog «Ladrões de Bicicletas». Este texto sobre as televisões portuguesas mostra que elas são desonestas e vivem da divulgação da desonestidade. São desonestos os que mandam, são desonestos muitos jornalistas e muitas jornalistas, são desonestos muitos comentadores e comentadoras, são desonestos os correspondentes e as correspondentas.

O que acho curioso neste texto é João Ramos de Almeida pensar que as televisões que apoiaram entusiasticamente a guerra contra as Armas de Destruição Maciça (ou Massiva) do Iraque, armas essas que existem,  obviamente existem, só que ainda não foram encontradas, possam ser honestas.

As televisões portuguesas andam às ordens de todas as selvajarias do imperialismo norte-americano e dos seus vassalos da NATO. Boas selvajarias entenda-se, boas torturas entenda-se.

Além de serem apoiantes de todas as brutalidades do imperialismo sedeado em Washington e dos seus vassalos  da NATO foram e são apoiantes do imperialismo alemão e das suas selvajarias, praticadas através da chamada Troika.


«Televisão conquistada


No dia da Liberdade de Imprensa, era conveniente pensar naquilo que se avizinha. Deixo, desta vez, apenas um exemplo.

A 14 de Abril passado, as forças armadas dos Estados Unidos, do Reino e da França atacaram alvos na Síria. O ataque militar não teve mandato internacional. Não visou verdadeiros alvos militares - pretendeu apenas marcar uma posição sobre um assunto ainda não aclarado - e foi comunicado aos países opositores.

Ora, uma acção de guerra contém sempre uma necessária campanha de preparação social. Nem todos estamos de acordo com actos militares que poderão ter consequências graves, tanto directas (mortos, feridos, destruição), como indirectas. Já é consensual que o terrorismo internacional recrudesceu após a invasão do Iraque. As mais recentes guerras no Próximo Oriente provocaram vagas de refugiados. 

O que quis saber foi, pois, como a questão foi tratada pela nossa televisão noticiosa - ou seja, pela RTP3, pela Sic Notícias, pela TVI24 e Correio da Manhã TV.

A primeira questão foi saber até que ponto as emissões foram alimentadas por conteúdos produzidos externamente, com vista a saber se a população portuguesa foi influenciada externamente ou se recebeu alguma intervenção nacional de descodificação do ataque militar.

As televisões trabalham sobretudo com as agências Reuters e Associated Press e, como não têm dinheiro para ter "gente no terreno", recorrem muito à produção externa. Por isso, as imagens que vemos nos canais nacionais são geralmente iguais. Mas o conteúdo da informação poderia ser diferente. Só que muitas vezes os jornalistas pouco aprofundam os textos de agência que vêm com as imagens. Em contraponto, considerou-se procução interna tudo o que fosse tentativa de ter informação própria do canal: comentadores em estúdio, editores ou jornalistas, correspondentes no estrangeiro.

Aquilo que se verificou foi que a produção externa excedeu a produção interna: 726 minutos (51%) contra 685 minutos (49%). Não é uma grande diferença e poderia ser aceitável. 

Só que, quando se olha em pormenor à repartição por canais, verifica-se que os canais de maior audiência - o CMTV e a SIC Notícias - recorreram muito mais a produção externa do que à interna.

Dir-se-á: também não é uma diferença muito grande. E é verdade.

O problema é quando se começa a analisar a produção interna.E esta análise deveria ter sido mais fina, analisando em detalhe o sentido do que foi dito. Mas para já, fica uma análise em bruto.

Por exemplo, todas as televisões estranhamente optaram desde o início por procurar comentadores militares, em vez de uma abordagem mais política. Ainda que os militares tivessem poucos pormenores militares a acrescentar à informação oficial e transmitiram, de alguma forma, comentários "técnicos" justificativos da política do ataque militar.

Depois, verificou-se mesmo uma cópia entre canais. Por exemplo, coronel Lemos Pires esteve nos quatro canais ao longo do dia e mesmo a partir de casa. Defendeu que o ataque esteve "dentro do que se possa considerar de legitimidade de acção", que foi um "ataque preciso, de acordo com a proporcionalidade e marcou a diferença", que "todas as iniciativas forem vetadas [nas NaçõesUnidas] e, portanto, ninguém estava à espera que houvesse consentimento das Nações Unidas para esta acção porque era impossível". O mesmo se passou com a professora Lívia Franco, e nem sempre com um desempenho verdadeiramente conhecedor de qualquer das matérias, fosse militar ou política.

A maior parte dos correspondentes - nos Estados Unidos, em França, em Israel, na Rússia - expresaram muito do que era o pensamento político oficial de cada um dos países. E nem sempre com distanciamento. O correspondente da SIC em Israel  afirmou mesmo "só em casos em que se utilizam armas quimicas é que houve intervenção" militar, partindo da versão oficial do atacante. E acrescentou: Agora, Assad "é possível que pense duas vezes antes de o fazer" (usar armas químicas).

Os editores internacionais dos canais pouco mantiveram o distanciamento. O editor da TVI chegou a afirmar "já ficou demonstrado que [o regime sírio] é um regime que ataca o seu próprio povo e que deve ser derrrubado". Ou que é "um Estado soberano, mas que violou as regras internacionais". "Para os aliados (...) não havia outra solução". O mesmo se passou com editor do Correio da Manhã: "Quem violou primeiro as leis internacionais foi a Siria", ultrapassou as "linhas vermelhas" sem que o Ocidente tivesse feito alguma coisa. "Isso permitiu ao regime sirio tornar-se mais ousado e mais ciente da sua impounidade e continuou a usá-las".

Claro que houve comentadores mais críticos da intervenção militar. Mas apenas para o final do dia. No início, a cadeia dos comentários era maioritariamente pró-intervenção.

Aliás, foi de tal forma que a RTP chegou a colocar em oráculo que se tratava não de um ataque militar, mas de uma "iniciativa" e o CMTV chamou-se Acção Tripartida.

Só a designação de Aliados - para designar os EUA, Reino Unido e França - remete para a segunda grande guerra em que os "bons" (Aliados) combatiam os "maus" nazis.

Há, pois, que tomar cuidado com a forma como se organiza este tipo de cobertura.

Casos como os que temos assistido no Brasil,  mesmo em Espanha e mesmo em Portugal - em que a comunicação social assumiu sem pestanejar a versão oficial da troica  - deveriam fazer-nos pensar. Porque a comunicação social não é apenas um agregado de órgãos de imprensa que empregam uns jornalistas, aliás cada vez mais novos e cada vez mais baratos. A comunicação social deveria ser a salvaguarda da própria democracia. E se a comunicação social é, desta forma, facilmente tomada, teme-se o pior dos tempos que aí vêm.»

[João Ramos de Almeida in blog  Ladrões de Bicicletas]  

Sem comentários:

Enviar um comentário