quinta-feira, 10 de maio de 2018

A política externa dos Estados Unidos em análise

«SOBRE O IRÃO E A COREIA DO NORTE



A INTERVENÇÃO DE DUARTE DE JESUS NA RTP 3
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Muito boa a intervenção do Embaixador Duarte de Jesus, na RTP 3, comentando a  denúncia pelos Estados Unidos do Acordo Nuclear com o Irão e as negociações com a Coreia do Norte.

É raro, muito raro, ver um diplomata português com aquela liberdade de linguagem e de apreciação crítica relativamente à política americana tanto no que respeita ao Irão, como no que respeita à Coreia do Norte.

Dir-se-á que é hoje mais fácil comentar sem os habituais freios e lugares comuns a política americana por na Casa Branca estar Trump. Não é verdade. Ainda ontem ouvimos os habituais comentadores de política internacional actuarem com muita prudência, quer dizer, reverência, face aos Estados Unidos. E vemos também como falam os que têm ou já tiveram responsabilidades institucionais.

A própria Ana Lourenço, a quem os seus convidados "lavam diariamente" a cabeça, viu-se forçada a ter que reformular as suas perguntas ou a vê-las desautorizadas nos seus pressupostos pelos assertivos comentários de Duarte de Jesus, sempre muito fundamentados factualmente e politicamente alicerçados num saber de experiência feito.

Duarte de Jesus disse coisas interessantes. Primeiro, que é muito importante a União Europeia manter-se unida no respeito pelos compromissos assumidos perante o Irão e as outras duas potências do Conselho de Segurança (Rússia e China). O que por outras palavras quer dizer que ele não dá por seguro, como ninguém com um mínimo de experiência destas coisas pode dar, que não possa haver deserções ou "meias deserções" na UE (e escusado será dizer de quem). Segundo, que a abertura de negociações com a Coreia do Norte não ficou nada a dever-se às ameaças de Trump e à sua política de força. Antes pelo contrário. Ficou muito mais a dever-se às duas Coreias, nomeadamente à ultrapassagem que a Coreia do Sul teria feito aos Estados Unidos, e, evidentemente, à China; considera porém que é muito cedo para deitar foguetes, quanto mais não seja por estar muito longe de ser unívoco o sentido que ambas as partes estão a dar ao conceito de desnuclearização. Terceiro, que em 1990 os democratas (Madaleine Albrigth) tinham as negociações muito adiantadas com a Coreia do Norte e os republicanos, mal chegaram ao poder, desfizeram tudo o que tinha sido feito. Portanto...


Parabéns a Duarte de Jesus pela sua excelente intervenção.


Independentemente desta intervenção, não deixa de ser intrigante a posição americana relativamente ao Irão. Qual o interesse estratégico dos Estados Unidos? O próprio DJ se interrogou. A questão não é de fácil resposta, embora não seja arriscado adiantar que são as alianças americanas no Médio Oriente que ditam esta política – Israel e Arábia Saudita. Sendo ambos contra o acordo, que obviamente os enfraquece, na medida em que permite fortalecer política e economicamente a potência historicamente mais importante e incomparavelmente mais antiga da região, os Estados Unidos, segundo uma corrente muito em voga no Congresso, corriam o risco a prazo de perder o apoio incondicional daqueles dois países e pouco ou nada ganhavam em troca. É claro que esta tese assenta num pressuposto certo e noutro errado. O certo é o enfraquecimento (relativo) inevitável de Israel e da Arábia Saudita; o errado é supor que tanto um como outro podem sobreviver com um mínimo de importância, ou até pura e simplesmente sobreviver, sem os Estados Unidos. Portanto, estrategicamente quem estava condicionado eram eles e não os Estados Unidos. Era e é isto o que Obama pensa e com ele muita gente na América e fora dela.


A outra questão tem a ver com a Coreia do Norte. Em primeiro lugar, um Estado que rasga tratados, ou não ratifica tratados que toda a comunidade internacional ratifica, não é um Estado fiável. Um Estado que negoceia com a Líbia um acordo de desnuclearização e pouco depois permite que o subscritor líbio desse acordo seja assassinado ignominiosamente aos olhos de todo o mundo e simultaneamente agride directa e indirectamente a própria Líbia não é um Estado fiável! Um Estado que negoceia durante anos um acordo com o Irão e logo a seguir o rasga por ter havido uma mudança de inquilino na residência presidencial não é um Estado fiável!

Hitler fez o mesmo aos diversos acordos que negociou e assinou. E o resultado viu-se.


Portanto, a Coreia do Norte, que apenas aspira a ser um Estado como os outros na comunidade internacional, sem ter de vigiar dia e noite as suas fronteiras com receio de ser invadida ou atacada, só pode acordar o que quer que seja, por muito boa vontade que também haja da actual Coreia do Sul, se alguém suficientemente forte for “fiador dos americanos”. Alguém que possa garantir à Coreia do Norte que não será agredida, alguém em quem a Coreia do Norte possa confiar. Sem essa garantia não vemos que possa haver acordo, por maior que seja a boa vontade de ambas as Coreia.»
[J M Correia Pinto in blog Politeia

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