quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Censura à Arte em tempo de neoliberalismo. Os Censores e as Censoras dizem sempre que a Censura é por uma boa causa

Houve, factualmente, abusos de poder de homens do cinema sobre mulheres que precisavam deles para as suas carreiras.
Sobre estes factos emergiu uma nova Censura à Arte, emergiu uma nova  Lista Negra. São mais as mulheres censoras do que os homens censoras nesta nova vaga de Censura.
Combatem-se abusos, mas cria-se um novo abuso de poder que é a Censura.


« [...] Hoje podemos sentir em Annie Hall ou em Manhattan mais do que a nostalgia e a comédia romanticamente psicanalizada: o sabor de um apocalipse sentimental e moral. Estamos sozinhos com os nossos crimes e escapadelas — nada nos salva se escaparmos. Woody sempre disse isso: somos nós os monstros. Nós é que olhámos para o lado. Aquela sessão novaiorquina, é hoje claro, faz figura do fim de um certo cineasta — terminava a “lua de mel” com ele — e de um canto de cisne da experiência cinematográfica como lugar de solidão. Estamos sozinhos, é a felicidade desse lugar. Que procuramos por medo, voyeurismo, desejo, culpa — se há espaço onde isso pode florescer é em frente a um filme, tudo é lícito porque é representação, simulacro, fantasma. Mas hoje “dizem-nos” que o que se passa com “eles” nada tem a ver “connosco”. Dizem-nos que o cinema tem de ser espaço “limpo”, reconciliação, SPA emocional. Por isso toca a apagar o que mete medo — ou o que pode ser problemático nas bilheteiras, como Kevin Spacey em All The Money in the World (decisão comercial, coisa cínica). Hoje o lugar do espectador não tolera perturbações e faz-se lugar de vigilantismo. O medo do medo está a acabar connosco. Pior do que os filmes, só nós, espectadores; os filmes apenas nos têm acompanhado por razões de sobrevivência. Mesmo num texto sério de Laure Murat, cronista no Libération, que reencontrou Blow Up, de Antonioni, e descobriu que a “forma” desse filme nos distraiu do seu “conteúdo” (mas como, se em Antonioni a forma já é conteúdo?) e nele encontrou a reiteração da história de violência do “olhar masculino” — deveria Antonioni ter colocado uma legenda a distanciar-se da “misoginia” do fotógrafo? —, a proposta feita de um inventário da História de Arte é um desafio olímpico, sim, mas para chegar a que resultado? Murat diz que não se trata de censura. Mas não diz do que é que se trata. Deixa em aberto, um vazio — o título O Ovo da Serpente, aquele filme nada bom de Bergman, cruza-me o espírito. Mas há dias ouvi e gostei; Isabelle Huppert: “Não concebo ir ao cinema sem ser para me perturbar”.»

Vasco Câmara

[In Público pt]

Arte censurada pelos novos censores e pelas novas censoras:




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