domingo, 30 de julho de 2017

As punições bárbaras dos neoliberais






«Opinião

Já não nos vemos gregos?

Os EUA têm um papel directo na crise da Zona Euro, ainda que se confirme que delegam na Alemanha e nas instituições europeias que esta controla a manutenção da ordem neoliberal deste lado do Atlântico.


Imaginem que um Ministro das Finanças de um país europeu periférico telefona a um seu conselheiro norte-americano para discutir o cenário de incumprimento do pagamento de uma parte da dívida, prestes a vencer, ao Fundo Monetário Internacional. Pouco tempo depois de terminada a chamada o seu conselheiro liga-lhe de volta a informá-lo de que acabou de receber um telefonema dos serviços secretos do seu país, questionando-o sobre a plausibilidade de tal cenário.
Os EUA têm um papel directo na crise da Zona Euro, ainda que se confirme que delegam na Alemanha e nas instituições europeias que esta controla a manutenção da ordem neoliberal deste lado do Atlântico. Por isso, as conversas mais relevantes do tal Ministro são com o seu homólogo alemão, Wolfgang Schäuble. Interpelado, já em desespero de causa, sobre se aceitaria o ultimato dos credores, apostados em perpetuar um regime austeritário, caso fosse Ministro de um país periférico, Schäuble responde: “enquanto patriota, não; é mau para o seu povo”.
Esta são só duas das muitas histórias relatadas no recente livro Adults in the Room de Yanis Varoufakis, Ministro das Finanças grego durante o primeiro semestre de 2015, sobre a sua experiência governativa e sobre o contexto que precedeu a vitória eleitoral, sem precedentes na história europeia das últimas décadas, da esquerda radical, seguida pela sua capitulação. Tratou-se, lembremo-lo com a ajuda de Varoufakis, de um governo de um país transformado numa “colónia de dívida”, vítima de “tortura orçamental” continuada e de um “golpe de Estado financeiro”, em larga medida organizado pelo Eurogrupo e pelo Banco Central Europeu (BCE), confirmando a natureza pós-democrática da União Europeia, em geral, e do Euro, em particular.
Misto de memórias, de livro de economia e de thriller político, a obra é um relato dos bastidores de uma moeda disfuncional em termos económicos, mas politicamente funcional, servindo os interesses da finança europeia e suas elites políticas. Uma pergunta clássica ecoa implicitamente ao longo do livro: que fazer? Se fizermos fé em Varoufakis, um académico especialista em teoria dos jogos – uma ferramenta económica convencional para analisar interacções estratégicas –, só um caminho seria racional e foi com este que Alexis Tsipras se comprometeu pessoalmente com Varoufakis. Começar por procurar um acordo europeu que permitisse virar a página da austeridade, garantido também por uma reestruturação substancial da dívida grega e por reformas da disfuncional Zona Euro. Para obter um tal acordo, Varoufakis argumenta que o governo grego sabia que tinha de estar disposto a negociar no mais cooperativo espírito europeísta mas que, perante a eventual recusa por parte da antiga troika e dos países que a suportam, pior do que romper, entrar em incumprimento, iniciar um sistema alternativo de pagamentos e eventualmente sair do Euro seria aceitar o prolongamento da lógica que tinha conduzido a sociedade grega a uma catástrofe humanitária. O sucesso desta linha dependia então de uma liderança com nervos de aço e firmeza de propósito.
Os problemas da narrativa começam pela identificação da natureza do adversário e dos seus propósitos. Varoufakis sabe que estava perante uma elite do poder europeu com todos os instrumentos de política e com vontade de os manejar para impedir que emergisse uma alternativa, mas parece ainda hoje crer firmemente que um vago europeísmo comum poderia ter ajudado a alcançar uma solução mutuamente vantajosa. Varoufakis parece hesitar: por um lado, a tal elite parece irracional e míope; por outro lado, a sua lógica é implacavelmente clarividente e consistente à luz dos interesses que defende e que Varoufakis parece ter dificuldade em nomear, já que a classe não tem o papel central que deveria ter na sua história. Como não o tem a pátria. Na realidade, o sentimento da dignidade nacional justamente ofendido é o que leva as classes subalternas gregas, e para lá delas, como Varoufakis aqui e ali reconhece, a surpreenderem a elite dirigente do Syriza no resultado do referendo que esta decidiu convocar, antevendo um sinuoso álibi para a “capitulação”, esperando no fundo a rendição da maioria.
O esmagador não ao ultimato era o momento para a ruptura democrática com o Euro. No entanto, como hoje o próprio Tsipras admite, o slogan do seu partido “nem mais um sacrifício pelo Euro” não passava disso mesmo, já que a ruptura nunca esteve verdadeiramente em cima da mesa. Tsipras optou por ceder, argumentado agora o Primeiro-Ministro que não havia um plano realista de saída e responsabilizando Varoufakis. É verdade que, no livro, tal plano não é sequer esboçado. Mas também é verdade que a responsabilidade por tal facto não deve ser assacada ao Ministro das Finanças, mas a quem se deixou arrastar para uma confrontação que nunca podia ganhar sem um plano B. Tal era claro para a Plataforma de Esquerda do Syriza, que acabou por romper com o governo, e que um sempre isolado politicamente Varoufakis trata neste livro com um imerecido desrespeito, até porque foi o diagnóstico de economistas como Costas Lapavitsas que acabou por prevalecer: no fim as “negociações” só serviram para arrastar o Syriza e o povo grego para a perdição.


Os impactos de tal derrota fazem-se sentir ainda hoje por toda a Europa. A Grécia podia ter sido o primeiro elo a quebrar, mas não o foi. Temos pelo menos de agradecer a Varoufakis ter-nos deixado um relato que, de forma intencional e também não-intencional, ajuda a perceber porquê. Muitos acham que já não somos a Grécia e não querem falar da Grécia – à direita, porque ilustra as consequências de se aplicar até ao fim o seu programa; à esquerda, porque ilustra o preço das ilusões europeístas em que muitos se deixaram cair.
Hoje, depois de quase uma década de crise, a economia europeia dá sinais de recuperação, ainda que contraditórios. As baixas taxas de juro determinadas pelo BCE, que reduziram a sangria financeira dos últimos anos, alimentam bolhas especulativas nos mercados bolsista e de imobiliário, enquanto os salários continuam estagnados por toda a Zona Euro. Os vencedores são sempre os mesmos e, no quadro europeu, assim continuarão. Numa reunião com o Ministro das Finanças italiano, aparentemente muito criticado pelo seu homólogo alemão, Varoufakis perguntou-lhe como tinha conseguido gerir a hostilidade de Schäuble. O italiano respondeu-lhe que tinha inquirido Schäuble sobre o que teria de fazer para ganhar a sua confiança. A resposta foi “reforma laboral” – código para redução dos direitos dos trabalhadores. Com a economia europeia a crescer, é certo que o espartilho da austeridade foi aligeirado, mas continua bem viva a pressão para a desregulamentação das relações laborais, para a privatização de serviços públicos e para promoção do sector financeiro. Ainda temos boas razões para nos vermos gregos neste rectângulo.
A opinião aqui veiculada é da responsabilidade do investigador, não constituindo qualquer posição oficial do Centro de Estudos Sociais






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