sábado, 20 de maio de 2017

Quando os bons são muito piores que os maus


Os bons querem guerra, querem o cheiro da morte, querem guerra contra os russos.

«Vêm aí os russos
Os russos não são os novos maus da fita. Nunca deixaram de ser, precisamente porque a fita ainda não acabou.

Sobrevivemos à crise dos mísseis em Cuba. Em 1966 sobrevivemos à alegada comédia The Russians Are Coming. Sem saber como sobrevivemos toda a guerra fria entre os EUA e a União Soviética que durou, ao que nos dizem, até ao fim desta última em 1991. Há por aí pessoas com 25 e 26 anos de idade que não sabem o que é a URSS porque, quando nasceram, já não existia tal coisa.


Os americanos e os russos estavam bem uns para os outros, império contra império, bully paranóico contra bully paranóico, marrando eternamente, por dá-cá-aquela-palha, um com o outro.

O regresso da arrogante e estapafúrdia rivalidade entre as duas já-foram-mais-superpotências não é sequer um regresso. Quando muito, houve uma breve interrupção das hostilidades por ocasião das bebedeiras de Ieltsin e das fantasias americanas de ter conseguido dar um happy ending à própria História com agá grande.

Os russos não são os novos maus da fita. Nunca deixaram de ser, precisamente porque a fita ainda não acabou. Só acabará quando os americanos - e, por americanos, refiro-me a todos os políticos acomodados e simplistas - se desviciarem de se armarem em heróis em casa deles, brincando sozinhos aos caubóis como se ainda estivéssemos no século XX.

Se Trump teve um uma única boa ideia foi a de deixar de vilificar os russos por tudo e por nada, ao ponto de lembrar que os americanos também não são assim tão "inocentes". Ainda leva mais na cabeça por causa disso: toma! Vale tudo menos deixar arrefecer a abençoada guerra fria.»

[Miguel Esteves Cardoso in «Público» pt net]

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