terça-feira, 11 de abril de 2017

O amor à guerra nos Estados Unidos e na Europa

  «Pax Americana


No filme de Terence Malick, A árvore da Vida, há uma cena que já se viu centenas de vezes no cinema. Uma mãe recebe um telegrama, horrorizada porque sabe o que vai ler.

Uma sociedade bem organizada tem forçosamente que proteger os seus filhos. Prepara-os calma e pensadamente para a guerra, para a defesa do país, para a defesa dos interesses do país - sem nunca discutir detalhadamente onde começam e acabam esses interesses. Forma-os ancestralmente na lógica da sobrevivência individual - uns contra os outros, nós contra eles, eles ou nós. Perfila-os preparados, ansiosos e medrosos, corajosamente medrosos, e a um dado momento lança-os em direcção à morte possível. Cegos. Cegos com o seu pensamento cheio de valores únicos, religiosos, tão brilhantes que ofuscam as nuances essenciais. E as mães vivem tranquilas - apavoradas mas tranquilas - até à chegada de quem traz o telegrama. Tudo organizado. Tudo pensado com calma.

Nessa altura, o mundo já caiu. Somam-se as mães, toda a destruição, de energia, de recursos e de vidas. E chora-se. Todos dizem: "Nunca mais!" E a reconstruição de um novo mundo recomeça, sob a lógica do vencedor, já imbuída da mesma lógica, nós e eles. Destruição programada, ansiosa por explodir mais adiante.

A guerra é a coisa mais absoluta e estúpida que existe.

E agora reveja-se, com o intervalo de dias, as estúpidas declarações do nosso ministro dos negócios estrangeiros, - quase tão similares às da direita nacional em 2001 - ao dizer que:


"Segundo informação que os Estados Unidos prestaram durante o dia aos seus aliados, incluindo Portugal, os EUA julgam ter informações suficientes e para além de qualquer dúvida que o ataque de terça-feira foi feito pela força aérea síria e desencadeado a partir da base aérea que os EUA decidiram atacar durante a noite. Sendo assim, Portugal, como aliás a Europa, compreende a ação americana”...
Aquele verbo "compreender" é mesmo de quem não tem filhos na guerra. Tem tudo para parecer o que é e o que não é. É muito esta visão pequena do mundo, da vida, de quem diz "Ai Jesus e agora?" e entretanto deixa passar a Pax Americana, tranquila, pelos mares. Só que, segundo o governo sírio, morreram sete pessoas na base aérea atacada. Mais do que na Suécia.

Depois, à frente dos mortos, vem a guerra de informação: O lado atacado clama pela falta de eficácia da acção militar, que a força dos Estados Unidos terá sido humilhada já que a Síria abateu a maioria dos mísseis. Os Estados Unidos gritam vitória, porque bastaram 61 mísseis - à módica quantia de um milhão de dólares cada um! - para atingir 59 alvos e que a base ficou desprotegido ao ter sido destruído o radar de fabrico russo. Mas chegou a passar nas televisões portuguesas que, segundo os Estados Unidos, a maioria dos mísseis nem sequer estava armada...

Perante a guerra iminente, precisa-se de homens sérios. Não pessoas que sorriam diante de quem tem as armas do mundo. Anda abandonada esta social-democracia que se esquece que, nesta guerra que se aproxima, os filhos do povo não têm interesse nela. E no entanto havia tanto para dizer.»

[João Ramos de Almeida in blog «Ladrões de Bicicletas»]

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