sábado, 4 de março de 2017

Xeque fiscal aos troikanos e às troikanas

«[...] Agora, isto é peanuts, desculpem o estrangeirismo, comparado com a questão dos offshores, em si incomparável de gravidade. E, de novo, usando apenas o bom senso, percebe-se aquilo que é a primeira cortina de fumo de mentiras ditas por Paulo Núncio. Haverá outras a caminho, mas esta primeira é muito significativa, porque se desdobra em dois momentos. No comunicado que fez em Fevereiro, percebe-se que Paulo Núncio quer acima de tudo salvar a sua pele e atirar as culpas para a administração fiscal: ele não tinha nada que ver com o assunto, a Autoridade Tributária é que não tinha cumprido as suas obrigações de preparar e publicar as estatísticas em falta. É um retrato de carácter.
Depois, veio a segunda versão, e aqui já não é só a sua pele que quer salvar, mas a dos seus, até porque sabe — como muita gente que faz parte do círculo de poder fáctico que manda em Portugal — que ninguém lhe perdoaria a falta de lealdade. No fundo, o que é que lhe custou? Uns lugarzitos sem relevância num pequeno partido, custo ínfimo para manter tudo o resto, o resto que importava antes e que importa depois. Para Paulo Núncio, uma semana depois, na segunda versão, afinal já não havia nenhuma obrigação de publicar aquelas estatísticas, e justificou mantê-las em segredo “para não prejudicar a luta contra a evasão fiscal”. No intervalo, entre uma e outra soube-se que a administração fiscal lhe tinha por duas vezes proposto a publicação, e ele fora apanhado a mentir. Porém, a segunda versão é igualmente absurda, e de novo chamo o bom senso à colação: por que razão é que publicar a estatística dos dinheiros que iam para os offshores punha em causa a luta contra a evasão fiscal? Mais uma vez estes homens tratam-nos por parvos. O que punha em causa era outras coisas, como, por exemplo, as afirmações do que tinha feito no passado e no presente, de que sobre a sua administração fiscal o dinheiro que ia para offshores tinha diminuído, quando tinha aumentado. Ou a revelação incómoda para o Governo da troika e da austeridade de que estava a sair muito dinheiro para paraísos fiscais, na legalidade, claro.»
[Pacheco Pereira in «Público» net]

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