quinta-feira, 2 de março de 2017

Donald Trump - análise

«As apostas de Trump



O poderoso discurso de ontem confirmou realmente que Donald Trump é um inimigo que não deve ser subestimado nas suas apostas. Isto não é uma palhaçada. Mobilizar todo o poder do Estado ao serviço do estímulo aos já consolidados complexos militar-industrial e penal-securitário, parte da economia política dos EUA. Todo o poder ao serviço da promoção do capitalismo educativo e da sobrevivência do capitalismo fóssil. Todo o poder ao serviço de parcerias público-privadas na área das infraestruturas, o keynesianismo que os grupos dominantes, em vias de serem beneficiados fiscalmente, autorizam. Wall Street nunca perde.

Todo o poder ao serviço de um capitalismo que na realidade nunca prescindiu do Estado-Nação e da sua instrumental protecção como a evocação de Lincoln, o presidente republicano abolicionista e protecionista, atesta. Sim, o protecionismo é uma tradição original norte-americana, quer seja o dos mais fortes, também chamado comércio livre, quer seja o dos sectores ainda na infância ou enfraquecidos pela concorrência internacional acrescida, o das barreiras alfandegárias e não-alfandegárias, o das cláusulas “comprem americano”, o que apoda de comércio justo.

Num contexto de capitalismo cada vez mais oligárquico e desigual, com problemas potenciais de legitimação, Trump aposta na mobilização dos instrumentos de política económica para gerar pleno emprego, sem que isso ameace quem manda, usando a desregulação para fragmentar e o perverso populismo triádico, o termo é de John Judis, também para manter segmentos das classes subalternas num bloco social reconfigurado.

Uma tradição política que tem horror à falta de medo aposta no terrorista islâmico e no imigrante clandestino, na confusão deliberada entre os dois. Seja como for, quem hegemoniza as ideias de segurança e de fronteira, os variados e inevitáveis critérios, com traduções bem reais, de inclusão na, e de exclusão da, comunidade política, pode ganhar. Esta também é a aposta de Trump.»

[João Rodrigues in blog «Ladrões de Bicicletas»]

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