sábado, 10 de dezembro de 2016

Verdades incómodas

«Palhaços ou incómodos?


Esta notícia do Público de hoje é um caso interessante de como um texto factual pode transmitir tantas opiniões. Acho impossível que uma notícia, por mais escorreita e crua que seja, acaba sempre por transmitir um ponto de vista, um ângulo. É fatal. O problema é, na verdade, de que forma os textos transmitem essas opiniões e quais. 

Ou seja, o que será mais importante para o jornalismo? Uma declaração verdadeira de um membro do Governo, que questiona a política polémica desse Governo; ou o facto dessas declarações verdadeiras serem consideradas uma gaffe? Que lado do "problema" transmite esta notícia?


Leia-se o texto ao lado. O primeiro período da notícia acaba por desvalorizar as declarações do ministro britânico dos negócios estrangeiros ao pressupor-se que as suas declarações foram impensadas, infantis ou mesmo escorregadelas de quem não tem perfil para um governo. Ou seja, tudo indica que não se gosta muito dele.

O segundo parágrafo é a fonte da discórdia, com a primeiro-ministra Teresa May a tirar - embaraçada - o tapete debaixo do seu ministro, mas sem o demitir...

O segundo parágrafo é a uma confirmação de que tudo se tratou de um lapso, de um deslize, de uma asneira, sabe-se lá se não mesmo um problema geral de filtro. Os ministros não devem ser assim, parece dizer-se. E essa ideia é reafirmada no final do parágrafo, ao dizer-se que essa gaffe "fere uma das alianças mais prezadas por Londres (...) que tem como política não criticar em público as acções de Riad". E assim é quando a Arábia Saudita é um dos "principais clientes de empresas de armamento britânicas". Mas - interessante! - este facto, esta ligação, apenas surge entre parêntesis... 

Portanto, o que o ministro estava a dizer é que o Reino Unido acaba por contribuir com as suas vendas de armas para que a Arábia Saudita desestabilize a região do Médio Oriente. Isso será uma gaffe? Um deslize? Ou um statement político que visa tirar benefícios futuros? Foi um palhaço a brincar ou a capitalizar uma crítica ao pensamento dominante, sobre aquela que é o ponto fulcral da instabilidade mundial? Não visa mesmo embaraçar a política externa britânica, a ponto de May ter mantido a viagem de Boris a Riad, para o forçar a retractar-se e assim retirar-lhe o tapete político que Boris quis tirar a May? E de que lado se colocou o jornalismo?»

[João Ramos de Almeida, in blog «Ladrões de Bicicletas»]   

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