quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Verdades amargas sobre o IV Reich


A classe operária votou Trump, votou a favor do Brexit, vai votar Marine Le Pen nas duas voltas  das presidenciais e vai votar Beppe Grillo.

"O directório de uma só potência


No Público de hoje, pode ler-se um longo artigo de Carlos Carvalhas sobre a dívida, o euro e questões afins. Concorde-se ou não, merece leitura atenta. (*)

«Quando António Costa diz que antes das eleições na Alemanha não se pode negociar a dívida, está a dizer e a reconhecer implicitamente que, no essencial, quem decide na União Europeia é a Alemanha.
António Costa podia ter evocado as eleições em França, ou na Holanda, que até antecedem as alemãs, mas não o fez.
É o reconhecimento de que a União Europeia só formalmente é uma união de iguais. Curiosamente, esta sua afirmação não suscitou estranheza democrática entre a generalidade da “beatitude europeísta”. É a aceitação tácita do “directório de uma só potência” como normal! (…)
As políticas ditas “de austeridade” são de facto políticas de concentração da riqueza, embora enfeitadas com fórmulas vazias de conteúdo e por isso hipócritas — “solidariedade europeia”, “nivelamento por cima”, “igualdade no progresso”, “coesão económica e social” — associadas a uma invocação recorrente dos valores europeus. Mas que valores? Os valores da Europa da Inquisição ou a das Luzes e do humanismo? Os valores da Europa das duas guerras mundiais, do bombardeamento da Jugoslávia, dos refugiados do Mediterrâneo, ou da Europa da Revolução Francesa e da grande Revolução de Outubro?
Depois espantam-se e insurgem-se contra o ascenso dos populismos. Mas o ascenso dos populismos não será a outra face do desprezo e da marginalização social e democrática das camadas populares, designadamente pela social-democracia? O crescimento destas forças não se deverá também aos políticos e às elites que confiscam a democracia em benefício das oligarquias? (…)
Portugal não pode ficar continuamente sob a chantagem dos mercados, do BCE e da sua correia de transmissão — a DBRS. (…)
O esforço financeiro que a dívida exige é colossal e vai continuar a penalizar o crescimento, o investimento e a situação social por muitos e muitos anos. (…)
A renegociação da dívida vai-se impor — a realidade tem muita força — mas quanto mais tarde pior. (…)
O euro é uma moeda simpática, mas muito cara para a nossa economia. (…) É uma moeda subavaliada para a Alemanha, beneficiando as suas exportações, e sobreavaliada para a maioria dos outros países. (…)
Neste quadro, aumenta na Europa a influência das forças políticas e dos movimentos sociais, bem como dos economistas, sindicalistas e entidades patronais que põem em causa o euro.
Tendo em atenção as eleições que se vão seguir na União Europeia (a que se poderão juntar as da Itália e até da Grécia) e após a derrota de Renzi — a Itália também está com um PIB ao nível de 2002 —, mais se justifica que se prepare o país para uma eventual dissolução do euro ou para uma saída unilateral por vontade própria ou exigida. Acresce que não está fora do horizonte a possibilidade de uma nova crise financeira que tudo precipitaria. (…)
Por isso, encarando todas as eventualidades, é um imperativo nacional a redução dos contratos da dívida externa não tituladas em direito português que representará cerca de 25%. A dissolução negociada do euro seria a melhor solução para a Europa e para Portugal, encontrando-se depois formas de cooperação monetária muito mais realistas e progressistas, mesmo na fase do necessário e apertado controlo do movimento de capitais. (…)
Mas mesmo com a resolução da questão do euro, se não resolvermos o problema da dívida, esta regressará de novo, bem como a pressão sobre os salários, pensões e “Estado social”.
Queremos ter mais 16 anos de estagnação, troikas, chantagens e tutelas?
Queremos uma marcha forçada, à margem dos povos, sem consultas populares e sobretudo sem referendos para uma Europa ainda mais supranacional, com órgãos não eleitos, como o BCE e a Comissão a sobreporem-se às instituições nacionais com legitimidade democrática? Então não se espantem que os povos venham a desprezar os “eleitos” e a correrem com eles. Nem sempre na boa direcção.»
(*) Recordo que, mesmo os não assinantes do Público, sem acesso ao jornal a partir deste blogue, podem tê-lo copiando o respectivo url para uma janela privativa (ou algo com outra designação semelhante) em qualquer browser do Windows. "

[In blog «Entre as brumas da memória»]

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