segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Quando o povo está contra é porque não está a favor - e em muitos países o povo está contra Bruxelas

«Addio Renzi

bufão Renzi era o homem do governo alemão e de outros europeístas em Itália, ou seja, o homem para impor todas as reformas neoliberais inscritas na lógica do euro, a começar e a acabar nas relações laborais.

Trata-se de uma moeda, todo um regime económico, com grandes responsabilidades por uma estagnação que dura há tanto tempo quanto a nossa: com menos quebra de investimento e menos dívida externa, em percentagem do PIB, mas mais crédito malparado no balanço de bancos ainda mais periclitantes, dadas as suas ligações mais fortes a uma base industrial erodida.

Que tais reformas pudessem ser facilitadas por uma concentração de poder no executivo seria só a enésima confirmação da forma como o capital financeiro olha para as constituições antifascistas do Sul. A lógica do chamado vínculo externo está há muito tempo pensada pelas elites neoliberais italianas, incluindo Draghi, para eliminar tudo o que foi conseguido num tempo com outra correlação de forças, incluindo o mais importante Partido Comunista da Europa Ocidental.

Ontem, a resposta popular esteve à altura, num país onde a esquerda foi devastada pelo europeísmo – da coisa que dá pelo nome de Partido Democrático, onde foram desaguar antigos democratas-cristãos como Renzi e antigos comunistas convertidos aos Consensos de Washington e de Bruxelas, aos restos de coisas ridículas como a lista “com Tsipras” às últimas eleições europeias.

No país de Gramsci e de Togliatti, sobram os sindicatos e algumas ainda pequenas forças que já perceberam que a tarefa principal tem os contornos de uma libertação nacional de novo tipo. Ontem, deu-se um passo para desencadear um processo que urge. Resta saber quais os seus tempos, contornos e protagonistas.»


[João Rodrigues in blog «Ladrões de Bicicletas»]



«França: Quem é o dono da poção mágica?







«O antigo Presidente Charles de Gaulle sintetizava numa frase o problema central de França: "Como se há-de governar um país que tem 246 variedades de queijo?" A pergunta não era retórica. De Gaulle era um homem partidário de soluções fortes, como mostrou ao longo da sua carreira política. Mas, defronte das respostas de França às suas iniciativas, percebeu a fragilidade do seu poder. Há muito que os franceses procuram uma poção mágica (como a que ajudou Astérix e os seus bravos gauleses a combater com sucesso o poderio romano) capaz de dar resposta às suas inquietações.
Por um lado, a sua situação económica (e do emprego) é preocupante. Por outro, muita da "profunda França" vê com desconfiança o multiculturalismo e, sobretudo, quer uma resposta musculada ao terrorismo islâmico. Como se isso não bastasse, os franceses assistem, há muito, a uma subordinação do seu país às opções da Alemanha dentro de uma União Europeia que tinha sido desenhada à medida de dois poderes fortes que dividiam entre si as decisões. (…)
A vitória de François Fillon nas directas dos republicanos diz muito sobre esta nova França. Ele, que partia como o mais frágil dos candidatos (Sarkozy dizia que ele era o "Mr. Nobody"), impôs-se a Nicolas Sarkozy (o mais estridente defensor de políticas mais à direita) e a Alain Juppé (mais centrista). Não foi um acaso do destino: Fillon, que foi primeiro-ministro durante a presidência de Sarkozy, vem há muito lamentando o declínio económico francês. Mas, escudado na ventania "anti-establishment" que levou Donald Trump à Casa Branca, Fillon acabou por ser a melhor voz de uma França inquieta. Por um lado, é uma França conservadora e católica que não tem visto com bons olhos leis liberais em áreas como a da família. Por outro lado, detesta a elite de Paris, que considera culpada por tudo. Fillon percebeu o que esses franceses desejam: defesa dos valores tradicionais, conter a imigração e voltar a impor o poder francês fora das fronteiras. (…)
As suas francas hipóteses de vencer, quer François Hollande (ou outro candidato da esquerda) quer Marine Le Pen, são visíveis: o seu discurso é duro e de ruptura. Algo que muitos querem ouvir. /…)
A entrada em cena de François Fillon vem mostrar como a França se está a virar para a direita e para a defesa de políticas mais duras contra os fantasmas que a assolam. Mais uma dor de cabeça para Bruxelas e para Angela Merkel, que vão vendo esboroar-se a ideia de uma União Europeia feita à medida das ideias de Berlim. Isto mostra também uma deslocação de França do centro de gravidade da Europa comum, por troca com um país mais isolado e com soluções próprias para os seus problemas. Se Marine Le Pen é a solução mais rápida e dolorosa para o estilhaçar da União Europeia, Fillon representa uma opção não menos dura. Mais diplomática. Mas, ao mesmo tempo, é um sinal destes tempos anti-elites e antiglobalização. E é para aí que caminha França. Em busca de uma poção mágica que lhe traga a força perdida.»

Fernando Sobral» [Cit in blog «Entre as brumas das memória»]

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