sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Vitória de Trump - uma explicação objectiva

A falência de empresas industriais ou a sua deslocalização, devido à globalização, deu origem a grande empobrecimento nos Estados Unidos, pela perda de um emprego relativamente bom,  a que se seguiu o desemprego ou então outro emprego, mas com salário muito inferior. Nos Estados da Pensilvânia, Ohio, Wisconsin e Iowa, os operarários empobrecidos pela globalização votaram contra o sistema que os arruinou.

« Sturm und drang=Trump with a bang


Trump ganhou. Na aritmética do colégio eleitoral, o factor decisivo foi a mudança de Obama para Trump de quatro Estados do Midwest pós-industrial - Pensilvânia, Ohio, Wisconsin, Iowa - (e um quinto alhures, a Florida). Foi aos trabalhadores destes Estados que viram os seus empregos deslocalizados para o estrangeiro que Trump, logo nas primárias, prometera renegociar os tratados de livre comércio «culpados» do desemprego (como Michael Moore notou prescientemente em Julho).


Esperou-se durante toda a campanha que Clintou compensasse as suas perdas nos votos dos «brancos trabalhadores» com os votos das mulheres e dos latinos, eventualmente dos negros. Falhou: Trump teve 29% dos votos dos latinos e 8% dos votos dos negros (respectivamente +8 p.p. e + 7p.p. do que Romney em 2012); entre as mulheres Clinton teve 54% (+1 p.p. do que Obama) mas Trump teve 53% do voto masculino (+5 p.p. do que Romney).

Ideologicamente, o movimento de Trump (tal como o do Brexit), é estridentemente contra as elites «globalistas» e «corruptas». Ser contra a globalização mobiliza aqueles que viram os seus empregos fugir por obsolescência ou deslocalização, e que nada têm a ganhar com os empregos da economia digital, geralmente para jovens qualificados. No entanto, o voto em Trump (e a acreditar nas sondagens) foi mais directamente motivado pela rejeição da imigração (e do terrorismo) do que do comércio livre. E (sinal da descristianização dos EUA) parece mais indiferente do que hostil ao liberalismo social (direitos das mulheres, contracepção, casamentos gaylegalização da marijuana).

A corrupção é o outro grande tema do voto «contra o sistema». E incrivelmente, foi considerada mais corrupta a candidata que apenas usou um servidor de email privado do que o candidato que assumiu em debates ser praticamente um evasor fiscal.

A maldição de Trump será não poder cumprir as expectativas que criou. A maior parte das bojardas que lhe permitiram dominar os noticiários são incumpríveis: construir um muro pago pelo México, prender Clinton, proibir a imigração de muçulmanos. E na realidade, foi um erro tratá-las como promessas, porque eram apenas bandeiras, provocações que anunciam intenções mas não decisões. Mas que os seus apoiantes lhe cobrarão daqui a quatro anos.



Do lado dos democratas, e embora territorialmente a divisão entre o campo e as cidades (ver o mapa acima) seja impressionante, a esperança reside em o eleitorado de Clinton ser mais jovem, mais urbano, mais latino e mais irreligioso, todas categorias demográficas em ascensão. A vitória de Trump pode portanto não se repetir. Mas será mais avisado que da próxima vez o candidato democrata seja alguém que possa corporizar melhor a revolta dos trabalhadores descontentes: alguém mais como Sanders e menos como Clinton.
Nota final: segue-se um ciclo na Europa em que o populismo de direita poderá ter novas vitórias.»

[In blog «Esquerda Republicana»]

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