domingo, 13 de novembro de 2016

Trump, o populismo e o descontentamento profundo

«Populismos



Porque entendo o voto do Brexit como um passo no caminho de desconstrução da UE, uma condição necessária para a instauração de políticas progressistas, sou um populista?

Porque entendo a eleição de Trump como um voto de raiva contra um sistema gerador de repetidas crises que criaram miséria, polarizaram a distribuição do rendimento de forma escandalosa, suscitaram inseguranças várias, produziram violência, guerras, corrupção, e cinismo ao mais alto nível, sou um populista?

Porque entendo a ascenção do Front National e Marine Le Pen como o resultado das políticas económicas e de emigração e integração erradas, associadas à opção de François Mitterrand pelo salto federalista na integração europeia, e ao desrespeito pelo resultado do referendo de 2005 ao Tratado Constitucional, sou um populista?

Este povo que vota contra o sistema, mobilizado por um discurso simplista contra as elites, feito por líderes carismáticos vindos do próprio sistema, é um povo racista? É um povo inculto, politicamente imaturo, que não sabe o que é melhor para o país? E quem sabe o que é melhor para o país? São os partidos do centrão, os governantes e as organizações internacionais que apresentam os seus interesses como sendo o interesse nacional, rotulando todos os que se lhe opõem de ‘populistas’? Portanto, Bernie Sanders é um populista, tal como Donald Trump? Jean-Luc Mélenchon é um populista, tal como Marine Le Pen? Jeremy Corbin é um populista, tal como Nigel Farage?

O conceito de populismo é suficientemente plástico para, evocando conotações negativas da História, permitir aos defensores do sistema meter tudo no mesmo saco e, desse modo, desqualificar os que têm programa alternativo consistente e querem sintonizar com os anseios do povo, ainda que expressos de forma tosca e até deplorável. Uma coisa é certa: muita desta raiva foi produzida pela demagogia das elites do sistema, com destaque para os media onde Trump fez carreira.

Dizem ao povo que a crise foi culpa dele, que a austeridade é inevitável e que o novo emprego da pseudo-recuperação só pode ser com salários miseráveis, e estão à espera de quê? A manipulação dos media tornou-se descarada e o povo sente que as elites vivem noutro país. Pouco a pouco, a paciência esgota e o povo sobe o nível do seu desprezo pelos meios que ainda tem ao dispor, ignorando as eleições e votando em palhaços.

Confesso que já não tenho paciência para o discurso politicamente correcto. Como diz alguém que estuda estas coisas, “antes de olhar do alto para os furiosos e desorientados eleitores que vão atrás de demagogos, ou desqualificar todos os ‘radicais’ chamando-lhes ‘populistas’, seria melhor parar por um momento e perceber como é que esses agentes se sentem, e perguntar-lhe o que desejam.”»

[Jorge Bateira in blog «Ladrões de Bicicletas»]

Sem comentários:

Enviar um comentário