domingo, 23 de outubro de 2016

CGD - Sol na eira e chuva no nabal para os privilegiados

Os que ganham pouco pagam as dívidas da banca, da responsabilidade dos que ganham muito. O BCE impôs salários altos na Caixa Geral de Depósitos. Este é o Mundo em que vivemos. Os mesmos que exigem pagamentos muito altos para os privilegiados são os que exigem pagamentos muito baixos para quem ganha o salário mínimo. No entanto, a tendência actual é para o aumento das desigualdades.

«Caixas



O Negócios assinalava ontem que o BCE exigiu “autonomia salarial na Caixa”, decorrendo também a política remuneratória da CGD, que conduziu a um salário de 423 mil euros anuais brutos e brutais para António Domingues, da “lógica privada da capitalização que evitou regras das ajudas de Estado”.

É sempre assim neste regime europeu: os cidadãos nacionais pagam, mas o soberano pós-democrático europeu manda. A capitalização é pública, mas tem de fingir que é como se fosse privada, ou seja, de “mercado”, uma ficção no sector financeiro atual ou uma realidade no passado recente, conduzindo à maior crise desde a Grande Depressão, sendo também grandemente responsável pelo brutal aumento das desigualdades associado.

Ainda não saímos da crise e o “sector privado”, que conduziu ao desastre, é a referência também para o governo ao nível das remunerações. Um sinal de que Caixa continuará a não ser banco, ou seja, o banco público, orientado por uma lógica de serviço público, de que precisamos. Graças às perversas regras europeias, tem de continuar a comportar-se como se fosse um banco privado.

Entretanto, a abismal desigualdade salarial em Portugal também reflete as desigualdades de poder entre o topo e a base da pirâmide empresarial, refletindo, por exemplo, o enfraquecimento dos freios e contrapesos sindicais. Os poderes públicos demitem-se de corrigir essa situação, prescindindo de usar os instrumentos ao seu dispor, incluindo a propriedade. Basta pensar que jamais passou pela cabeça de alguém ter representantes dos trabalhadores, dos consumidores e de outras partes interessadas no novo conselho de administração. E mesmo que passasse, o BCE jamais permitiria veleidades de democracia económica. No topo só são admitidas mudanças dentro da mesma elite de sempre.

A alimentar a “vergonha”, para usar a apta expressão de uma militante socialista justamente indignada num debate com António Costa, está uma ideologia de celebração dos grandes homens da gestão, que por definição merecem tudo o que obtêm. Os trabalhadores que fazem as empresas são reduzidos a peões num xadrez. É claro que quando há crises, os grandes homens fazem-se pequenos, não sabem nada de nada. Pouco importa, já ganharam o suficiente. Ideologia é também o outro nome para a ofuscação do que realmente se passa e do que teria de se passar: limitação dos salários do topo, incluindo por via de uma taxa marginal de imposto a convergir para os 100%, fixando um salário máximo, já que também há um salário mínimo.»

[João Rodrigues in blog «Ladrões de Bicicletas»]

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