domingo, 30 de outubro de 2016

A fome e o trabalho escravo são elementos fundamentais do pensamento da direita portuguesa

«Ódios?


Num dos países mais brutalmente desiguais do mundo dito desenvolvido, Manuel Carvalho ecoava há dias, num aparte de um artigo sem grande interesse sobre a CGD, um refrão que me interessa há muito: “os portugueses odeiam quem ganha bem e esse é um dos atavismos que nos colam irremediavelmente ao atraso”.

E quem expõe os mecanismos da desigualdade e propõe políticas para as reduzir, a partir da crítica às práticas odiosas que vigoram entre as elites, é o quê, segundo Carvalho? Adivinharam: “populista”. O que para esta gente é um insulto, devemos nós tomar como um elogio. Se os populismos e, já agora, os nacionalismos, são o novo espectro que não sai da cabeça das elites ditas liberais, então devemos ligá-los na direcção certa: a tal vontade colectiva nacional e popular de que dependem as transformações democráticas necessárias. 

Bom, reparem como a ideologia dominante gosta de se imaginar na oposição, de fora, contra o país: “os portugueses odeiam”. Pode ser que um dia isso se torne verdade. Pode ser. Numa cultura dominada e pervertida pelo poder do dinheiro concentrado, o diagnóstico diz pouco sobre “os portugueses”, mas muito sobre a ideologia dominante desde os anos oitenta e que inspirou as mudanças que demoliram grande parte da economia política do 25 de Abril, voltando a concentrar rendimentos no topo da pirâmide social depois do susto apanhado nas fases de democracia mais intensa e colocando o país nesta estagnação sem fim.

Apodar de atávica a preocupação de reconfigurar as instituições da economia para nelas inscrever princípios de justiça social é um velho truque neoliberal que qualquer leitor de Hayek identifica com facilidade. O debate aqui é entre os que querem regras que distribuam recursos de cima para baixo e os que querem regras que distribuam recursos de baixo para cima. Mais nada.

Enfim, se depender da linha dominante entre os que “transacionam ideias em segunda mão”, e a fórmula também é do grande pensador da direita intransigente no século XX, a economia política para os 1% continuará: de baixo para cima eternamente, irremediavelmente condenados?»

[João Rodrigues in blog «Ladrões de Bicicletas»]

O Manuel Carvalho não é propriamente um indivíduo inteligente, mas está do lado dos vencedores, na luta de classes de 2016, está do lado da minoria rica que socialmente domina mais de 90% da população.

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