terça-feira, 14 de junho de 2016

Parte da Esquerda é a favor do Brexit

A maior parte da esquerda britânica é a favor da permanência na chamada «União Europeia», mas uma esquerda minoritária é a favor do Brexit. Os tatados da dita «União Europeia» criminalizaram as políticas de Esquerda. A «União Europeia» é o que é, uma instituição produtora de desgraças e não o que devia ser, uma instituição promotora do desenvolvimento, do emprego e da redução das desigualdades sociais e das desigualdades entre Estados.

«Exit, Brexit, Lexit



[A] esquerda britânica corre o risco de prescindir da única instituição que historicamente foi capaz de usar com eficácia – o Estado democrático – a favor de uma ordem constitucional feita à medida dos interesses do capitalismo global e da política gestionária. O desenvolvimento da jurisprudência da UE minou consistentemente opções de política associadas com a esquerda, como a política industrial e as nacionalizações. Estruturas constitucionais que estão em grande medida fora do alcance dos cidadãos tenderam a bloquear o tipo de políticas radicais em que a esquerda tradicionalmente acreditou. (...) Mesmo que os partidos de esquerda europeus fossem bem sucedidos na elaboração de um programa comum, a UE não é o tipo de entidade política que possa ser alterada pela política popular. A UE foi construída para obstruir a política popular. Tal como os bancos centrais independentes e os tribunais constitucionais, as suas instituições são essencialmente tecnocráticas. A tecnocracia, ao contrário do que alguns possam julgar, não é um sistema neutro ou racional de governo. Ao invés, confere imenso poder a órgãos culturalmente selectivos, cujos preconceitos são os da classe a que os seus membros pertencem.

Excertos, por mim apressadamente traduzidos, de um artigo que talvez fosse vantajoso uma publicação de esquerda traduzir integralmente. Da autoria de Richard Tuck, Professor de teoria política em Harvard, e publicado na Dissent, defende a saída britânica da UE pela esquerda, o tal Lexit, expondo a deprimente “racionalização da derrota” da maioria da esquerda britânica, ao arrepio do que foi a sua posição maioritária antes de décadas de um retrocesso que assim corre o risco de continuar. Alterando a fórmula de António Costa, colocando os seus termos no lugar certo, diria que por vezes é difícil ser socialista fora do quadro da União Europeia, mas dentro do quadro da UE é impossível ser socialista.

Entretanto, e já que à esquerda são poucas as vozes a favor do Brexit e que estou numa de tradução, no comentário económico com disposição conservadora temos sempre Ambrose Evans-Pritchard, a favor do Brexit no Daily Telegraph de ontem, com argumentos que vão à raiz do problema político, ou não fosse ele um dos autores do melhor aviso, feito no ano passado, à social-democracia do continente - “podes defender as políticas da UEM ou a tua base eleitoral, mas não podes defender as duas ao mesmo tempo”:

“Para lá da espuma, estamos perante uma escolha fundamental: restaurar o autogoverno pleno desta nação ou continuar a viver num regime supranacional (…) O projecto da UE sangra as instituições nacionais e não as substitui por algo que seja admirável ou legítimo (…) Não tivemos qualquer comissão da verdade e da reconciliação para lidar com o maior crime económico dos tempos modernos. Não sabemos quem é responsável pelo quê, porque o poder é exercido numa interacção nebulosa entre as elites em Berlim, Frankfurt, Bruxelas e Paris (…) Os que mandam também não aprenderam nada com o fracasso da UEM. O fardo do ajustamento continua a recair sobre o Sul (…) Temos pela frente mais uma década perdida.”

Imaginem o que diria se estivessem no Euro...» [João Rodrigues in blog «Ladrões de Bicicletas»]

Sem comentários:

Enviar um comentário