quinta-feira, 2 de junho de 2016

As selvajarias do imperialismo alemão, via BCE e CE, aliado a Washington, via FMI, apoiadas pelos troikanos e pelas troikanas

  «Mudar a realidade para manter a opinião


Fonte: INE, Contas nacionais (em volume), Inquérito ao Emprego (quebra de série em 2011)
Quando a realidade contraria a nossa opinião, podemos ter duas atitudes: mudar de opinião ou mudar a realidade.

Numa entrevista recente à revista Visão, Manuel Avelino de Jesus, professor catedrático do ISEG de Lisboa, desdramatizou a situação criada em Portugal com a política de austeridade. Disse ele: “A austeridade em Portugal não foi nada de especial. O nosso consumo não diminuiu muito". A jornalista insistiu:"O desemprego disparou, o PIB recuou sete pontos percentuais, a pobreza aumentou". Respondeu o professor: "Nem o desemprego nem a pobreza diminuirão se não tivermos investimento produtivo. Se as pessoas não tiverem trabalho, quaisquer outras formas de rendimento não passarão de uma ilusão. Fizemos alguma austeridade, mas não foi exagerada. Basta olhar para o consumo."

Conviria ter uma tabela para descodificar a expressão “nada de especial”. Assim, de repente, poderá parecer algo “aceitável”. À falta dela, recorra-se aos dados estatísticos.

Segundo dados do INE (preços constantes), entre 2010 e 2013 e prolongando os efeitos da crise económica de 2008/9, o consumo privado caiu 10%. Com ele, o investimento caiu 33%. Contando com a queda nos gastos públicos de 8,8%, a queda da procura interna nesses 4 anos foi de 14,3%. Mas talvez mais significativo é que essa queda correspondeu – e digo correspondeu porque é um caso típico de “espiral recessiva” que o professor Avelino de Jesus sempre recusou existir – dizia eu, correspondeu a uma queda de mais de 370 mil postos de trabalho oficiais, que se somaram a uma queda de 170 mil em 2008/9. E isto dando de "barato" os empregos preenchidos por "desempregados ocupados". Recorde-se que só em 2012 e 2013, o número de desempregados em sentido lato aumentou 315 mil pessoas.

A queda do emprego foi desejada como um dos elementos para provocar uma redução salarial. E foi sustentada - pelos mais ferverosos - como um fenómeno normal - e desejável - quando a economia estaria assente em sectores de actividade, baseados na procura interna, insuflados pelo crédito. Havia que sanear.

Mas com a queda do emprego, veio tudo atrás: despesas com a protecção no desemprego, menor pagamento de impostos, menos IRS, menos descontos para a Segurança Social, desequilíbrio emocional dos trabalhadores, elevada pressão para a descida salarial (menos consumo, menor procura, menor investimento...), degradação do ambiente geral de confiança no país, fuga de activos para a emigração (menos consumo, menor procura, menos investimento). Enfim, “nada de especial”...

Mas "nada de especial" é algo que vai ao encontro do que o professor defendeu ao longo do período de direita no poder.




A 26/12/2011 - uma data promissora - o professor elogiou a emigração que já despontava: "A atitude emigratória é (...) um factor social e economicamente muito positivo." E desenvolvia o tema, atacando sindicatos por apenas quererem lutar e não verem que menos activos no país iria aumentar os salários...

 A 15/2/2012, defendia que “o consumo, embora tenha registado uma contracção sem precedentes” – diga-se de passagem que foi de 3,7% só em 2011 - “mantém níveis excessivos, o que revela a necessidade da persistência de medidas da sua contenção”. “Ao contrário de outras interpretações, esta redução pode não ser preocupante desde que a qualidade do investimento seja boa”. Como se as duas variáveis estivessem desligadas...  “Em resumo, o consumo terá que continuar a ser reprimido (não confundir reprimir consumo com reprimir salários)”. 
 
A 18/4/2012, defendia uma política de cortes nas prestações sociais: “O Estado redistribuidor português é um Estado anti-social, fraco na redução da pobreza e ineficaz e perverso na redução das desigualdades.” Viu-se com o que aconteceu com os cortes no CSI e no RSI e outras prestações. 

A 23/9/2012, já no rescaldo da pior crise política após as manifestações nacionais contra a TSU e com Gaspar a defender - vingativo - o "enorme aumento de impostos" para 2013 (vulgo sobre assalariados e pensionistas), escrevia que o professor: “A complicada situação que enfrentamos aconselha a recorrer, simplesmente, ao aumento das taxas e da base de incidência do IRS, sem desvios ou opacidades. O problema mais evidente e dramático é o excesso de consumo. Este descolou da produção, impulsionado pelo excesso de crédito. A questão que agora se impõe é a redução do endividamento geral, do deficit público e do consumo. Este imperativo reforça a adequação do recurso, no imediato, ao aumento dos impostos como instrumento de equilíbrio das contas públicas e de redução do consumo privado.”

A 18/3/2013, quando tudo já estava a rebentar pelas costuras, a ponto de pouco mais de três meses depois se darem as demissão de Gaspar e Portas, o professor defendia ainda o indefensável: “Ao contrário do que a popular mas errónea teoria pretende, o aprofundamento da austeridade - no tempo e na intensidade - e a flexibilização dos mercados (trabalho, bens e serviços, sector financeiro incluído) são as verdadeiras condições para a saída da crise. (...)A impaciência e a falta de estudo, por detrás da teoria da espiral recessiva, estão a produzir uma situação de grande perigo. O alívio da austeridade irá, na verdade, fazer demorar a retoma e impedir que se inicie, a seu tempo, um verdadeiro período de crescimento sustentado”.

A 4/4/2013, em plena tensão na coligação PSD/CDS sobre o que estava a acontecer e num impasse sobre a reforma do Estado, Avelino de Jesussubscreveu um manifesto para pressionar o governo: “Torna-se imperioso um trabalho sério de reforma do Estado com redução significativa do seu peso estrutural nas finanças públicas, sem que o garrote fiscal sobre os indivíduos, as famílias, as empresas, não cessará de apertar-se.”   “Não é possível reduzir e limitar a despesa pública sem reduzir também o peso das prestações sociais.”

Já após a crise política de Julho de 2013, com Portugal com um desemprego em sentido lato de 1,4 milhões de pessoas, escrevia o professor a 28/7/2013:  “Há muito que existem fortes fundamentos teóricos – que num próximo artigo abordarei aqui – para rejeitar a própria ideia de multiplicador. Mas agora começa a ganhar solidez a evidência empírica para suportar aquela percepção. A recessão tem outras origens deferentes da política de austeridade praticada desde 2011. Em consequência, os remédios adequados são bem diferentes do abrandamento da austeridade e da louca viragem para uma política subjacente às ideias de "crescimento", "economia" e "emprego" que transportam os cultores do erróneo conceito de "multiplicador.”

Manuel Avelino de Jesus tem, nos últimos anos, defendido as vantagens de uma política de austeridade e, por consequência, atacado quem a critica. O que é novo é que esteja a querer relativizar o desastre que aconteceu. Muda a realidade para nunca aceitar os erros que subscreveu e - pior! - que ainda subscreve. Como é possível?»

[João Ramos de Almeida in blog «Ladrões de Bicicletas»]   

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