quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Máfia de Bilderberg ao ataque contra Portugal

  «Do not go gentle into that good night


Os artigos de opinião no Expresso estão cheios de animais. "Já não é carne nem é peixe, é um animal mitológico, tem tronco de anfíbio, cabeça de abóbora e próteses nos membros" (diz Pedro Santos Guerreiro). É "uma espécie de ornitorrinco, um mamífero keynesiano enxertado de ovíparo austeritário" (diz Ricardo Costa). "Um animal estranho" (diz Nicolau Santos). Para a maioria dos colunistas, a proposta de OE é um bicho sem coluna.

Mas estranhamente, ninguém se questiona sobre o que seria o bom OE. À excepção de Nicolau Santos, ninguém discute se este OE contribui para criar mais emprego, para absorver um milhão de desempregados (em sentido lato), se ajuda a atrair os quadros emigrados, se vai no sentido de se produzir mais e importar menos, de se resolver a camisa de onze varas em que Portugal se encontra. Nada. Apenas a pequena esgrima palaciana e, curiosamente, apenas ideias que entroncam na estratégia da direita - relatada pelo próprio Expresso - de mostrar que o "caminho de Costa não dá", o que obrigará o PS a adoptar mais austeridade para cumprir metas impostas e levar a "esquerda radical" a quebrar o acordo, forçando a queda do governo e a convocação de eleições antecipadas. Helena Garrido, no editorial de hoje do Jornal de Negócios, fala mesmo de "novas eleições que podem acontecer a qualquer momento".

A direita está tão convicta desta ideia que entrou em modo de campanha. O PSD sublinha que o OE é uma "manta de retalhos", Passos Coelho parte pelo país fora, protestando contra o "grande aumento de imposto" e o CDS fala de um "aumento significativo de impostos". Até parece um remake das eleições de 2011, quando Passos Coelho se enfurecia contra a austeridade de Sócrates, e que - verdade se diga - lhe deu a maioria absoluta.

Essa é igualmente a estratégia da Comissão Europeia que – obviamente – sabe o que deveria ser feito para criar emprego, mas prefere antes forçar medidas que puxam para baixo o crescimento económico e que, assim, ajudarão à mudança de poder em Portugal. É nisto que estamos envolvidos.

Mas tudo isto para fazer o quê depois? Baixar impostos? Aumentar a despesa pública? Criar mais desemprego ou manter o que temos? Promover a emigração?


Na entrevista a Mário Centeno, nem Bernardo Ferrão nem João Vieira Pereira – que agora se considera "democrata-liberal" e se sente a ser "empurrado de volta à direita", vítima do "bulling constante que existe sobre quem ousa pensar contra esta esquerda" – se lembraram de questionar o ministro sobre como resolver o problema do desemprego. Ou do défice comercial. Não. Estão mais interessados em mostrar que nada "parece sobrar muito neste OE daquilo que tinha idealizado", ou que "o modelo de crescimento foi descaracterizado", ou que o choque de rendimento é "um choquezinho".

Pedro Santos Guerreiro volta à sua tese de que este é o OE inverso do PSD/CDS e acomoda-se a que, "um país com a nossa dívida pública e privada tem anos de austeridade pela frente e estará muitos anos na navalha do resgate". Para Ricardo Costa, parece ser apenas um problema de gestão quotidiana: Se o governo "falhar, terá sérios problemas em conseguir aprovar o rectificativo". Sousa Tavares – que é contra a política de austeridade PSD/CDS - volta à velha teoria da "culpa" nacional (e não da troika, não europeia que, apesar da humilhação, nos estão a financiar). Na sua opinião, o OE serve para estarmos - de novo - "todos" a pagar para os funcionários públicos, quando seria preciso "despedir pelo menos, cem mil". Martim Avillez Figueiredo acha que os políticos são como ratinhos de laboratório que repetem rotinas erradas – "gastar mais do que a riqueza gerada". Ou seja, é necessário mais austeridade... Para Henrique Monteiro, tudo é simples. Há regras europeias - de austeridade - a cumprir. São os socialistas na Comissão que estão a pressionar os socialistas de Portugal e que Costa apenas foi populista ao criar um "inimigo externo", um passa-culpas. João Vieira Pereira acha que "a austeridade continua, como tinha de ser". Luís Marques acha que continuamos com a austeridade, mas com outro nome "aumento de impostos". Já nem falo de João Duque que usa uma coluna inteira sob a forma de diálogo "camarada, pá!", para dizer o mesmo que o Luís Marques.

A austeridade é a gravidade que força a submissão. Não é uma lógica económica: é uma lógica de poder. E face a esta nova conjuntura, apetece-me deixar um poema que ouvi num filme interessante ("Interstellar"). Do not go gentle into that good night (Dylan Thomas).» [João Ramos de Almeida in blog «Ladrões de Bicicletas»]

Sem comentários:

Enviar um comentário