sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A Matemática de uma derrota vergonhosa e dolorosa

«A esquerda deveria pensar no que fez

Quanto à eleição de Marcelo Rebelo de Sousa, não me satisfaço com a indiferença do PS, com o entusiasmo do Bloco ou com a desilusão do PCP. As diversas forças políticas de esquerda terão que pensar no que fizeram para que a direita tivesse ganho umas eleições presidenciais quando a maioria da população votou - e continua a votar - à esquerda. E pior - como se verá adiante - quando estiveram a 71 mil votos de ir à 2ª volta.


Entre as eleições legislativas (ou aqui) e as presidenciais, deixaram de votar cerca de 670 mil eleitores. Destes, cerca de cem mil foram votos brancos (menos 54,6 mil) e nulos (menos 45,8 mil). Quando se compara as votações entre candidatos e partidos apoiantes, verifica-se que 1) Marcelo teve mais 326 mil votos que a sua base de apoio – PSD/CDS; 2) a Marisa teve menos 81,4 mil que a votação do Bloco de Esquerda; Edgar teve menos 260 mil votos que a CDU; 4)Nóvoa e Belém tiveram menos 490 mil votos que os votos no PS.

Leitura possível:
1) Se parte considerável dos votos da CDU foi para Nóvoa (como defende o PCP), então parte do eleitorado CDU discordou da candidatura própria do PCP, o que falta explicar devidamente;
2) Se o PCP tem em parte razão, então o PS perdeu ainda mais dezenas de milhares de votantes que não se reviram nas várias candidaturas do PS;
3) Diz a esquerda: Marcelo estava há anos na televisão a preparar o seu terreno. É verdade. Mas esse argumento é tão válido hoje como o era há meses e igualmente válido para a esquerda que se poderia ter preparado, se o quisesse ou pudesse. A esquerda adiou o "problema". Primeiro, alegadamente para não prejudicar as eleições legislativas que queria vencer esmagadoramente. Depois, por incapacidade de decisão e de formar entendimentos. O PS deu sinais de não querer ganhar esta batalha e de a deixar à direita. Seria a forma de forçar a queda a prazo de Passos Coelho e ter um novo PSD? Foi a forma de pressionar Guterres? Foi Guterres que empatou o PS? Foi apenas incapacidade? O certo é que o PS esperou demasiado e acabou na prática por viabilizar uma candidatura socialista ao arrepio das orientações políticas da sua direcção e dividindo eleitorados;
4) A ausência de um candidato de esquerda fomentou a pulverização de candidaturas à esquerda e criou um carnaval que, na prática, despolitizou a campanha, um anticlímax para uma esquerda que necessitava de se reagrupar;
5) A candidatura de Nóvoa não reuniu consensos, nem no PS, nem no Bloco.

Uma derrota ridícula. Aqui convém acrescentar um ponto. Em geral, as forças de esquerda acham que há vantagem em lançar diversas candidaturas. Cada candidatura tenta chegar ao máximo de eleitorados possíveis que, depois de galvanizados para a 1ª volta, seriam mobilizados para a 2ª volta, para o candidato que obtivesse mais votos. Esta tese tem um senão: pode não houver 2ª volta! Todos os sinais apontavam para aí. O que se verificou foi que a multiplicação de candidaturas, em vez de alargar o eleitorado de esquerda, contraiu-o. Em vez de galvanizar o povo de esquerda, desmobilizou-o, retirou élan a um candidato de esquerda ganhador. E esse facto é ainda mais ridículo. De acordo com a lei, opresidente da República deverá ser eleito com mais de metade dos votosexpressos (ou seja, excluindo os brancos). Se assim é, a esquerda esteve apenas a cerca de 71 mil votos de impedir Marcelo de ganhar à 1ª volta. Ou seja, uma parcela diminuta para quem perdeu centenas de milhares de votantes entre as duas eleições, no espaço de poucos meses.

A esquerda perdeu de forma clamorosa. Na minha opinião - ao contrário dos 25% do povo eleitor que votou nele - Marcelo é a pessoa menos aconselhável para ser Presidente da República. Por isso, acho que as forças de esquerda deveriam analisar os resultados com outra profundidade e responsabilidade.» [ João Ramos de Almeida in blog «Ladrões de Bicicletas»]

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