sábado, 12 de dezembro de 2015

A direita recuperou terreno na França, na Venezuela e na Argentina.

«Três derrotas


1. Juntem austeridade e globalização, inscritas no europeísmo realmente existente e criadoras de fracturas sociais e nacionais cada dia mais intensas, adicionem ataques terroristas e a vertigem securitária subsequente, aparentemente validadora da narrativa de uma extrema-direita que hegemoniza a insegurança social e nacional justamente sentida pelas classes populares, e têm o prato que foi servido nas eleições regionais de Domingo: a Frente Nacional é de novo o maior partido francês. Entretanto, as esquerdas francesas, em geral, e a dupla Hollande-Valls, em particular, e só podemos falar de “esquerda” neste último caso com aspas, são uma desgraça sem fim. No país que se orgulha de ter inventado a soberania popular, importa repetir a pergunta dirigida aos que deixaram o terreno nacional-popular livre, refugiando-se nos europeísmos inanes, esquecendo grande parte da sua história: como é que se diz depois queixem-se em francês?

2. Estava para escrever sobre a pesada derrota da esquerda bolivariana nas eleições legislativas venezuelanas, mas os comunistas portugueses dizem muito do que eu queria dizer. Acrescento só que a linha dominante na imprensa nacional é escandalosamente enviesada, sendo inspirada na imprensa internacional mais reaccionária no que à América Latina diz respeito: estranha ditatura esta em que a oposição ganha eleições participadas e plurais; apesar das dificuldades, é preciso lata para falar do caminho para a miséria no contexto do processo bolivariano, já que este país foi um caso de progresso social até à crise, graças aos triunfos eleitorais do chavismo. O que esta crise deixou à vista foi a fragilidade de um modelo ainda demasiado dependente da renda do petróleo, cujo preço colapsou, o que juntamente com erros de política cambial explica o essencial da crise. É, no entanto, melhor um modelo de redistribuição dessa renda do que a alternativa antes do saudoso Chávez, bem mais desigual e pauperizadora. De resto, a esquerda bolivariana ainda não está acabada, já que controla a presidência, o poder executivo.

3. Interrompida por via eleitoral foi também a experiência Kirchner na Argentina, até porque Cristina não pôde recandidatar-se à Presidência, depois de dois mandatos consecutivos, deixando o poder com níveis de popularidade recorde. O candidato de continuidade não conseguiu beneficiar disso face a uma direita neoliberal revigorada. A experiência de recuperação económica e social soberana depois do desastre neoliberal do início do milénio foi globalmente muito positiva, incluindo na capacidade de passar incólume até agora pela crise internacional, graças à mobilização de todos os instrumentos de política económica. Apesar do revés, também é cedo para dizer que o kirchnerismo está acabado. Cristina andará por aí e não há como a passagem dos neoliberais pelo poder, com a sua abertura à finança internacional e às crises, para avivar memórias. Dito isto, a excessiva dependência de lideranças carismáticas nas experiências nacional-populares é obviamente sempre uma fraqueza a prazo, como ficou à vista.» [In blog «Ladrões de Bicicletas»]

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