domingo, 1 de novembro de 2015

O «Centrão» dos 'tachos' ou «Arco da Governação» ou «Moderados» ou «Europeístas» ou arrivistas ou ladrões e ladras

           
 

«Novos ministros, velhos interesses


Quebrou-se o feitiço. Um governo feito de papel e encenação, é o que restou à direita estarrecida, vendo o carrossel da alternância política despedaçado pelo milhão de votos à esquerda.
«E a desesperança desta gente aflita diz-nos mesmo tudo: Maria João Avilez zanga-se com os seus e pergunta onde está a outra metade do país, onde está a indignação organizada daqueles que mergulharam num “silêncio devastador”? “O silêncio desta metade que sou suposta representar”. Todo o encantamento da aristocracia comentarista rebaixado a litania deste cerimonial fúnebre. Não tinha que ser assim. É Rui Ramos quem o diz, avisando que mesmo a direita é capaz, nas horas dramáticas, de habitar os lugares mais inóspitos: “quem não for para o governo, virá para a rua contestar a 'legitimidade' de quem fique a governar.” A solução é engendrar já uma solução, juntando gente de gabarito para um governo de transição, onde Guilherme de Oliveira Martins, Rui Vilar ou Artur Santos Silva assegurem o conforto desta liteira que se afunda no pântano das esquerdas.
Enquanto isso, ninguém escreve ao general. Passos Coelho forma governo com os despojos do anterior, integrando os quadros possíveis. Há quem veja nisso a incapacidade de integrar num governo a prazo dirigentes do mais alto escalão do regime, as estátuas da venerabilidade e bom senso de que nos fala Rui Ramos. Podem bem ter razão.
Se há algo que todos percebemos nos últimos quatro anos é que existe um quarto escuro na democracia portuguesa, e não é bonito de se imaginar: a agressividade do regime austeritário obriga à mobilização dos seus quadros mais orgânicos, os que asseguraram o trânsito vertiginoso entre a política e os negócios num tempo de grande decisões. O que se perde em respeitabilidade é o que se tenta garantir em velhos interesses. O preço a pagar está à vista: Miguel Relvas elevado a comentador político, e ninguém acredita, Aguiar-Branco espavorido com as suas ligações mafiosas à Metro do Porto, denunciadas pelo Bloco, Maria Luís Albuquerque transformada em coveira do sistema financeiro. De tudo isto se fez o anterior governo.
E vale bem olhar, também, os novos ministros, pois são parte desta história:
Margarida Mano (Educação): Professora universitária, passou pelo Banco Português do Atlântico e, depois, pelo BCP de Jardim Gonçalves.
Fernando Negrão (Justiça): Ex-ministro de Santana Lopes, associou-se, em 2005, à Albuquerque e Associados (Advogados), o escritório que assessorou a entrada do BCP em Angola.
Calvão da Silva (Administração Interna): Ex-secretário de Estado do Bloco Central, foi administrador do Banco Totta & Açores, do Banco Crédito Predial Português, da Global Seguros e da SIC. Ficou conhecido pelo parecer elogioso endereçado ao Banco de Portugal em nome de Ricardo Salgado. O então dono do BES encomendou o parecer ao novo ministro e ex-presidente do Conselho de Jurisdição do PSD na sequência da divulgação da prenda milionária que recebeu do empresário da construção civil José Guilherme. Calvão da Silva justificou os milhões entregues a Salgado com o “bom princípio geral de uma sociedade que quer ser uma comunidade – comum unidade –, com espírito de entreajuda e solidariedade”.
Teresa Morais (Cultura e Igualdade): Promovida a ministra, a ex-secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares assume a pasta da Igualdade, tendo antes ficado conhecida pela sua oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Está associada à Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva (advogados), sociedade que representou o Estado no processo de privatização da EDP.
Carlos Costa Neves (Assuntos Parlamentares): Mais um ex-ministro de Santana Lopes. Dirigiu a SATA e foi, mais tarde, administrador de duas empresas na área do turismo. Foi, conjuntamente com Nobre Guedes e Telmo Correia, o responsável pelo despacho que aprovou o empreendimento do caso "Portucale".
Morais Leitão (Economia): Ex-secretário de Estado, Morais Leitão iniciou a carreira como quadro do BPI. Logo depois, passou pela Allianz e Edisoft até chegar à liderança da Empordef, a holding do Estado que negoceia o negócio dos submarinos em 2004. Antes de Paulo Portas o convocar para o governo, volta ao BPI, desta vez como membro do conselho de administração (2006-2009).
Rui Medeiros (Reforma administrativa): Este constitucionalista assume o Ministério do desmantelamento do Estado. É sócio fundador da Sérvulo Advogados, a sociedade que assessorou um dos consórcios concorrentes à privatização da ANA e que elaborou os pareceres sobre a privatização da RTP.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, activista precário.» (In «Esquerda.net»)

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