quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A «OVERDOSE» DE FUTEBOL

"Quando o futebol é o contrário da democracia


«Não sei se a realização de três jogos de futebol no dia das próximas eleições legislativas, decidida pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional (por imposição dos próprios clubes, segundo as notícias), vai ter alguma influência sobre a abstenção. (...)
Não se pode dizer que a posição dos clubes seja surpreendente. Os clubes de futebol habituaram-se nas últimas décadas, em Portugal e em muitos outros países, a ocupar uma posição acima da moral e da lei, sancionada pelo furor das paixões das multidões que o jogo move. Se existe sectarismo nos partidos, o sectarismo é o coração e a razão de ser do futebol, um sectarismo que atravessa classes e ideologias, profissões e regiões. Daí que os clubes de futebol se tenham habituado a um estatuto de excepção, a uma constante protecção por parte dos poderosos de todos os outros poderes e, nomeadamente, a um tratamento de favor por parte do estado, que espalha pelos clubes benefícios que retira dos nossos bolsos sem que se levante um clamor indignado na sociedade, como seria normal. (...)
Os grandes cúmplices da arrogância dos clubes de futebol são, naturalmente, os media, que concedem a este desporto/negócio um estatuto de verdadeiro desígnio nacional e o equiparam (quando não o sobrepõem), em todos os espaços noticiosos ou de comentário, às questões mais fundamentais da nossa sociedade.
Não existem palavras para descrever a vergonha que deveria ser para uma redacção de jornalistas abrir um telejornal com um fait-divers de futebol, mas isso acontece com uma frequência assustadora nas nossas televisões. Um clube muda de treinador? Os primeiros vinte minutos de todos os telejornais são dedicados à “notícia”, acrescentados de horas de debates com a participação de especialistas, alguns deles figuras conhecidas do mundo político. (...)
Cabe aos media colocar o futebol no seu lugar - um jogo, um hobby, um negócio, uma rede de interesses que deve ser fiscalizada e não um projecto nacional nem uma actividade estratégica - e ajudar a devolver à cidadania o que é da cidadania.»

José Vítor Malheiros "   («Cit. in blog «Entre as brumas da memória»)

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