sábado, 15 de agosto de 2015

O IMPERIALISMO ALEMÃO DO SÉCULO XXI É APOIADO PELO REICH DOS ESTADOS UNIDOS



«Imperialismos...

A invisibilidade do imperialismo hoje em dia não é sintoma do seu desaparecimento, mas sim do seu poder.

 Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik, Monthly Review.

Qual é o último reduto do europeísmo? Para lá da invenção de uma tradição europeísta, é a paz capitalista, a ideia liberal, implicitamente aceite por certa esquerda, da paz pelo comércio, pelo aumento das chamadas interdependências económicas e, logo, políticas. É também preciso tomar este reduto de assalto, lançando contra ele a realidade do desenvolvimento desigual, do imperialismo na, e através da, UE, e dos conflitos, internos e externos, de que está prenhe a sua actual configuração, tanto mais intensos, quanto mais tempo esta formação pós-democrática e pós-social sobreviva. Note-se ainda que o imperialismo através da UE está dependente da potência imperial por excelência, os EUA, sendo que esta potência, cujo declínio é sobrestimado, dá rédea relativamente solta ao imperialismo no seio da UE.

A analogia sempre grosseira, mas talvez melhor do que muitas que circulam por aí, é com o destino da chamada primeira globalização, entre o final do século XIX e o início do século XX, no quadro da qual, nem de propósito, floresceu a melhor análise da economia política do imperialismo, tradição de que temos boas continuações, como é o caso do número de Julho-Agosto da Monthly Review.  Embora nenhum dos artigos seja explicitamente sobre a UE, a análise de Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik é útil para esta área, já que enfatiza uma das dimensões do imperialismo na época da finança que melhor a caracteriza: a imposição de uma economia sem pressão salarial, agora em particular nas periferias, como forma de manter o valor da moeda, o que muito beneficia as elites do centro e um certo capital financeiro que opera nas periferias europeias.

Entretanto, e só para continuar o debate durante as férias, repito o que escrevi no Le Monde diplomatique – edição portuguesa de Julho de 2013:

No contexto europeu, é preciso reconhecer que a «Europa», ou seja, a integração europeia, em especial na sua decisiva e antidemocrática declinação económico-monetária, não é hoje factor de paz, mas sim factor do conflito resultante da humilhação nacional e da demolição da protecção social, criada nacionalmente e associada a fases de intensificação da democracia. Os direitos democráticos de matriz socio-laboral, em particular o pleno emprego com direitos, foram o grande factor de paz, conjuntamente com a estabilização territorial propiciada pela Guerra Fria. Estes direitos foram até compatíveis com fases menos intensas da integração europeia, ainda que o projecto de contenção do socialismo estivesse desde o início na sua matriz institucional e que também nisso ela tenha sido espectacularmente bem-sucedida nos anos de bifurcação das décadas de setenta e oitenta. Desde a década de oitenta, a integração europeia é claramente o principal factor de intensificação de uma globalização para a qual deu e dá um contributo decisivo, através da construção do «mercado único», das negociações na Organização Mundial do Comércio ou do euro.

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