quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A MATEMÁTICA DO IMPERIALISMO ALEMÃO NA ZONA EURO






VIRIATO SOROMENHO MARQUES

Sala de pânico 2.0




por VIRIATO SOROMENHO MARQUES

«No dia 9 de janeiro de 2012, a Alemanha emitiu quatro mil milhões de euros em títulos de dívida pública a seis meses, com um juro negativo. O leitor de 2015 já está habituado a esse facto, mas nessa altura era novidade. Comentei o assunto aqui no DN ("Sala de Pânico", 12. 01.2012): à medida que a crise apresenta sinais de agravamento, os aforristas e investidores procuram um porto seguro para salvar o seu dinheiro. Na Europa, é a dívida pública de Berlim que aparece como a aposta segura. Daí o aumento da procura, com a consequente queda dos juros pagos pelo Estado alemão. Nesta segunda-feira, o importante instituto de pesquisa económica Leibniz, sediado em Halle, publicou um relatório de 24 páginas sobre "Lucros da Alemanha com a Crise Grega". Os autores esclarecem que as estimativas poderão pecar por defeito, até por se centrarem apenas nos ganhos do setor público alemão (o setor privado tem tido ganhos significativos com as condições de concorrência particularmente favoráveis), mas os resultados não deixam de surpreender. Entre 2010 e 2015 a Alemanha lucrou cem mil milhões de euros com a baixa de juros ligada diretamente à crise grega. Mesmo que Atenas declarasse agora bancarrota total, as perdas alemãs seriam inferiores em dez mil milhões aos ganhos já obtidos. Os investigadores do Leibniz Institut analisam também, com minúcia, o modo como as más notícias na Grécia têm sido um bom sinal para o custo da dívida alemã. Este é um estudo de grande qualidade. Que honra a ciência alemã, e a honestidade académica dos seus autores. Por quantos mais anos poderá sobreviver uma união monetária em que os mais fortes beneficiam da desgraça dos mais frágeis? Por quanto tempo sobreviverá uma Europa governada pela propaganda, e não pela coragem de estar à altura da realidade?» (In «Diário de Notícias»)

«Alguns actores da Guerra Fria, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), sobreviveram à queda do Muro inventando outros monstros a destruir, noutros continentes. As instituições europeias redefiniram também o seu adversário. A paz e a estabilidade com que elas se deleitam exigem doravante, a seus olhos, a neutralização política das populações e a destruição dos instrumentos de soberania nacional de que estas ainda dispõem. É a integração a toque de caixa, o enterro das questões democráticas nos tratados, o projecto federal. O empreendimento não é de agora, mas o caso grego ilustra o grau de brutalidade com que ele hoje é levado a cabo.

Serge Halimi, A Europa que não queremos mais. » (Cit. in blog «Ladrões de Bicicletas»)


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