quinta-feira, 25 de junho de 2015

UM OLHAR SOBRE A IMPLOSÃO POLÍTICA, MORAL E ÉTICA DA «INTERNACIONAL SOCIALISTA» OU A CANALHICE HUMANA SEM LIMITES





«A UNIÃO EUROPEIA E A GRÉCIA



AS LIÇÕES DE UM CONFRONTO
Resultado de imagem para as bandeiras da grécia e da união europeia


Tem sido muito interessante assistir, mesmo de longe, a este confronto entre a União Europeia e o FMI de um lado e a Grécia do outro. Embora do lado da União Europeia e do FMI não tivesse havido nada de verdadeiramente novo não deixa de ser interessante analisar a preocupação que a partir de determinada altura se apoderou das chamadas “instituições”.

Vamos por partes. De início assistiu-se à defesa de posições absolutamente rígidas marcadamente ideológicas de quem não pretende afastar-se um milímetro da ortodoxia reinante para evitar contágios perturbadores da paz neoliberal e do pensamento único que a inspira. Sob a direcção da Alemanha, cuja posição foi de início veiculada por Schäuble, assistiu-se ao esperado alinhamento dos demais países, tanto mais duramente defendido quanto menor é a sua fraqueza negocial e maior é o seu grau de dependência relativamente a Berlim. E aqui, como se esperava, não há que distinguir entre direita e “esquerda europeia”, já que hoje nada verdadeiramente as distingue no plano das políticas comunitárias: seguem ambas a mesma cartilha e ambas a defendem com idêntico fervor.

Pouco depois das eleições gregas ainda houve do lado dos chamados socialistas europeus quem manifestasse uma vaga simpatia pelo Syriza. Uma simpatia muito semelhante à que eles costumam manifestar por quem, sem outras consequências, no puro plano das palavras se rebela contra as políticas oficiais. Os socialistas apreciam muito esta “limpeza d' alma” desde que ela não vá em caso algum além das palavras. Também foi assim com o Syriza. Primeiro a simpatia, depois a decepção. A decepção começou mal perceberam que muitas das palavras eram mesmo para levar a sério. Aí começou o que eles chamaram a “delapidação do capital de simpatia” com que foram acolhidos.

E todos os pretextos foram bons para se distanciarem. Desde o estilo, principalmente o Varoufakis, mas também o de Tsipras, que eles não apreciam (aceita-se lá que apareçam sem gravata e com camisa fora das calças perante gente tão selectamente importante) até – e aqui fazem parelha com Cavaco – à falta de experiência e compostura diplomática. Sobre o conteúdo da discussão, nada. Ou melhor: Como aceitar que se discuta o que não tem discussão? Na UE tudo está pré-determinado e pré-estabelecido - apenas há que obedecer.

De facto, não deixaria de ser espantoso, se esse não fosse o comportamento habitual de há três décadas para cá, que os chamados socialistas manifestem reservas relativamente às propostas do Syriza e às suas políticas quando elas se inscrevem na matriz social-democrata – defesa do trabalho, redistribuição de rendimentos a partir da oneração das empresas mais lucrativas e recusa em fazer recair sobre os mais pobres o peso da crise. As propostas do Syriza nada têm de radicais; limitam-se a enunciar aquilo que ainda há bem pouco tempo era normal na Europa e que hoje assume foros da mais grave heterodoxia.

Do lado da direita que obedece, as palavras podem ter sido diferentes, porventura mais grosseiras e rudes, mas os objectivos são exactamente os mesmos dos socialistas. Já do lado de quem manda, assistiu-se a partir do momento em que as negociações se encaminhavam para o impasse à manifesta preocupação de passar para a opinião pública uma mensagem que evidenciasse a defesa de uma posição flexível que só não lograva alcançar o almejado acordo por força do intransigente radicalismo do Siryza. Amplificada, como sempre, por uma enormíssima matilha de comentadores e outros tantos fabricadores de notícias, esta mensagem genericamente apoiada pelos partidos do sistema não teve grande dificuldade em impor-se como verdade oficial para a generalidade das pessoas.

O Syriza, por seu turno, conseguiu durante largos meses manter-se fiel às suas promessas eleitorais. Todavia, à medida que se aproximava a hora da verdade, percebeu-se, não obstante o pânico que começou a instalar-se nas hostes neoliberais, que o Syriza, ou uma parte dele, atribuía mais importância à permanência no euro do que à vontade de alcançar um acordo que permitisse pôr em prática um programa verdadeiramente alternativo às políticas oficiais.

Não se pretende com isto dizer ou sequer insinuar que o Syriza tenha capitulado às teses das “instituições”, tanto assim que permanece de pé a reivindicação fundamental da reestruturação da dívida. Com o Syriza no governo a austeridade na Grécia jamais será idêntica à imposta a Portugal, a Espanha e à Irlanda. As pensões e os salários não continuarão a ser sacrificados como inevitavelmente vai acontecer em Portugal, o IVA não será indiscriminadamente aplicável com a mesma taxa a bens essenciais e a bens não essenciais ou mesmo supérfluos. É certo que algumas políticas que acentuam as desigualdades e limitam ou eliminam direitos vão continuar, embora numa escala menor.  

Se alguma lição importante se pode retirar do caso grego na versão Syriza é a de que compensa sempre resistir, mas também a de que não basta resistir para alcançar a vitória. Para alcançar a vitória é necessário que a resistência assente num verdadeiro plano B que possa ser posto em prática se houver o risco de ultrapassagem de certas linhas vermelhas. Nem todos estão em condições de o fazer por múltiplas razões. Objectivamente, a Grécia reunia as condições suficientes para tornar credível a ameaça da entrada em cena de um plano B. Apesar de a economia grega não ser uma grande economia, o incumprimento da dívida, dada a sua magnitude, e a saída do euro ou mesmo da União Europeia fariam do caso grego um caso de consequências imprevisíveis susceptível de abalar profundamente toda a zona euro ou mesmo capaz de derrubar a moeda única. Consequências que a União Europeia não estaria disposta a aceitar e cuja iminência poderia ter alterado o curso das negociações. A verdade é que não basta ter condições objectivas… a União Europeia sabe, como todos nós sabemos, que o principal inimigo dos que pretendem resistir está dentro das suas próprias fronteiras.      

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