Imaginemos que o
Canadá e o México eram inimigos dos Estados Unidos e que a Rússia colocava
tropas junto às fronteiras estadunidenses Norte e Sul e que fazia voos com
aviões de guerra junto ao espaço aéreo dos Estados Unidos.
Algo
de semelhante se passa junto às fronteiras da Rússia, que estão, em 2014,
cercadas por tropas estadunidenses, da União Europeia e da NATO, com meios terrestres,
aéreos e navais. Estas provocações militaristas do Reich estadunidenses e dos
seus vassalos são uma característica dos tempos que correm.
«A nova guerra fria
por Serge Halimi
Em 1980, Ronald Reagan encontrou
esta formulação para resumir a sua perspectiva das relações entre os Estados
Unidos e a União Soviética: «Nós ganhamos, eles perdem». Doze anos mais tarde,
o seu imediato sucessor na Casa Branca, George Bush, podia felicitar-se pelo
caminho percorrido: «Um mundo outrora dividido entre dois campos armados
reconhece que só há uma superpotência proeminente: os Estados Unidos da
América». Era o fim oficial da Guerra Fria.
Este período, por sua vez, também
passou. O seu fim aconteceu quando a Rússia ficou farta de «perder» e percebeu
que o seu rebaixamento programado nunca teria fim, com cada um dos seus
vizinhos a ser sucessivamente atraído – ou recrutado a troco de dinheiro – para
uma aliança económica e militar contra si dirigida. «Os aviões da OTAN
patrulham os céus por cima do Báltico, nós reforçámos a nossa presença na
Polónia e estamos preparados para fazer ainda mais», sublinhou aliás Barack
Obama, em Março último, em Bruxelas [1]. Perante o Parlamento russo, Vladimir
Putin comparou essa disposição à «política infame de repressão» que, a seu ver,
as potências ocidentais infligem ao seu país desde… o século XVIII [2].
A nova guerra fria seria,
contudo, diferente da antiga. Como assinalou o presidente dos Estados Unidos,
«contrariamente à União Soviética, a Rússia não dirige qualquer bloco de
nações, não inspira qualquer ideologia global». O confronto que está a
instalar-se também deixou de opor, por um lado, uma superpotência americana que
vai buscar à sua fé religiosa a certeza imperial num «destino manifesto» e, por
outro, um «império do Mal» que Reagan amaldiçoava também por causa do ateísmo.
Pelo contrário, Putin corteja, com algum sucesso, as cruzadas do
fundamentalismo cristão. E quando anexa a Crimeia recorda de imediato que ela é
o lugar «onde São Vladimir foi baptizado (…); um baptismo ortodoxo que viria
determinar os conceitos essenciais da cultura, dos valores e da civilização dos
povos russo, ucraniano e bielorrusso».
O mesmo é dizer que Moscovo não
vai admitir que a Ucrânia se torne a base de retaguarda dos seus adversários.
Não podendo suportar uma propaganda nacionalista que ultrapassa até – veja-se
bem… – a lavagem cerebral ocidental, o povo russo recusá-lo-ia. Ora, nos
Estados Unidos e na Europa, os defensores do grande rearmamento estão a
aumentar a parada: proclamações marciais, avalancha de sanções heteróclitas que
só encorajam a determinação do outro campo. «A nova guerra fria pode ser mais
perigosa ainda do que a anterior», advertiu desde já um dos melhores
especialistas americanos nas questões russas, Stephen F. Cohen, «porque,
contrariamente à precedente, ela não encontra qualquer oposição – seja na
administração, no Congresso, na comunicação social, nas universidades ou nos
think tanks» [3]. A receita comprovada de todas as derrapagens…
sexta-feira 5 de Setembro de 2014
Notas
[1] Discurso de Barack Obama em
Bruxelas, 26 de Março de 2014.
[2] Discurso de Vladimir Putin no
Parlamento russo, 18 de Março de 2014.
[3] Alocução na Conferência Anual
Rússia-Estados Unidos, Washington, 16 de Junho de 2014. Republicada no The
Nation, Nova Iorque, 12 de Agosto de 2014. (In «Le Monde diplomatique» cit. in blog
«Entre as brumas da memória»)
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