«Este
fato determinou o crescimento político e cultural da “russofobia” (o ódio aos
russos) que, em um país como a Ucrânia, dividiu o país em dois, com uma
população majoritária e abertamente russófila nas regiões orientais, enquanto
nas regiões do oeste e do nordeste se afirmou um fanático regionalismo,
sabiamente explorado pelo partido neonazista Svoboda e demais grupos
nacionalistas da direita e da extrema-direita.
Por
que a crise explodiu?
É
necessário lembrar que na época da União Soviética, a Bielorrússia e, em
particular, a Ucrânia jogavam um papel muito importante no desenvolvimento do
Comecon (Conselho de Mútua Assistência Econômica), cujas relações econômicas
não se fecharam com a queda da URSS.
Mesmo
com a introdução da economia de mercado e com a metodologia liberal no
comércio, as 147 indústrias que a URSS instalou na Ucrânia continuaram
trabalhando preferencialmente com os pólos industriais da nova Rússia, que
também foram liberalizados e privatizados.
Essa
ligação bem como a dependência energética dos países europeus em relação à
Rússia foram sempre consideradas pelos EUA uma pedra nos sapatos. De fato,
para a Casa Branca a questão da dependência energética europeia tornou-se de
extrema importância em termos geoestratégicos, já que os laboratórios das
transnacionais estadunidenses encontraram uma fórmula tecnológica para
aproveitar os xistos betuminosos que abundam nos EUA.
Uma
solução que dá aos Estados Unidos o título de potencial produtor de gás no
mundo e que alimenta uma nova perspectiva geoestratégica que deseja com
veemência reconduzir os países da União Europeia à esfera de influência dos EUA
através de um gradual processo de ruptura com a Rússia, que nos últimos anos
voltou a assumir um papel de opositor qualificado à estratégia dos EUA no
Oriente Médio, na África e, sobretudo, na Europa.
Oferta
de gás
Nos
últimos dois anos o presidente dos EUA, Barack Obama, tentou impor aos líderes
dos países europeus a questão da ruptura da dependência energética da Rússia
com a proposta de se associarem aos EUA na exploração dos xistos betuminosos.
Porém, nenhum país, a não ser a servente Grã-Bretanha aceitou trocar o barato
gás da Rússia pelo prometido gás betuminoso dos EUA, cujo custo ainda é quase
o dobro do que a Rússia vende com contratos decenais.
Por
outro lado, se considerarmos que os principais países da União Europeia detêm
um parque tecnológico que não depende das soluções estadunidenses ou até das
japonesas e que, em termos financeiros, o euro é o direto concorrente do
dólar em matéria de investimentos nas bolsas internacionais, é evidente que
para a Casa Branca subsistem somente três setores que podem alimentar o
estreitamento das relações de dependência dos países da União Europeia com os
EUA: 1) a produção de foguetes; 2) a venda de aviões de guerra; 3) a questão
energética.
De
fato, a própria primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, admitiu que “o
gás russo não é somente o mais barato, mas é o que permite aos países europeus
adquirirem mais autonomia em relação aos EUA e aos fornecedores árabes”, dando
também a entender que a Alemanha poderia rever o contrato de fornecimento do
gás russo somente no fim do mesmo, isto é daqui a 12 anos.
É
claro que os Estados Unidos não podem esperar todo esse tempo, inclusive o
Partido Democrático – que pretende impor Hillary Clinton como candidata nas
próximas eleições presidenciais. Por isso, as excelências da Casa Branca
acreditam que a explosão dos conflitos regionais irá gerar uma latente situação
de instabilidade política em nível mundial que obrigará a Rússia a assumir
posições ofensivas, o que permitirá aos EUA se apresentarem como o extremo
defensor dos pequenos Estados.
Dupla
ofensiva
Poucos
conhecem o que a CIA e os serviços secretos europeus fizeram na Ucrânia nos
últimos cinco anos, porém, todo o mundo sabe como explodiu a revolta em Kiev,
também intitulada “Rebelião Euro-Maiden”. Uma rebelião que determinou a
ruptura dos equilíbrios étnicos e políticos na Ucrânia com o objetivo de
provocar a fuga das populações russófilas, que nas regiões orientais da
Ucrânia são majoritárias.
Por
isso, a guerra civil, mascarada com o termo “guerra ao terrorismo”, repete os
passos que os sionistas israelenses deram em 1948 na Palestina, quando
forçaram a saída de quase 2 milhões de palestinos, cujas terras, casas e
locais de trabalho foram ocupadas por imigrantes judaicos vindos de todo o
mundo em função da grande campanha midiática arregimentada pelos grupos
sionistas.
O
líder dos separatistas russófilos, Alexander Zakharchenko, já anunciou que nos
próximos dias os combatentes da “República Popular de Donetsk e a de Lugansk”
vão realizar um contra-ataque com o objetivo de romper o cerco que o exército
regular de Kiev está articulando com a ajuda de inúmeros assessores da Otan. Um
contexto que empurra as operações militares cada vez mais em direção à
fronteira com a Rússia, que a mídia ocidental – sob orientação dos oficiais da
Otan – já acusa de estar preparando a invasão da Ucrânia com 24 mil homens.»
(In «Brasil de Fato»
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