quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A TRANSFORMAÇÃO DA RÚSSIA EM UNIÃO SOVIÉTICA E A QUESTÃO DA UCRÂNIA



Já aqui referi que Lenine transformou a Rússia na União Soviética em 1922. No entanto, a sua obra partiu do princípio de que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas seria «eterna». Estaline foi mais cauteloso que Lenine e mudou o desenho das repúblicas, alegando que se deviam basear em diferenças históricas e étnicas. Por exemplo Lenine criou a Transcaucásia, onde colocou etnias muito diversas, o que Estaline não aceitou. Lenine juntou a Geórgia, a Arménia e o Azerbaijão na mesma república (Transcaucásia) e Estaline dividiu a Transcaucásia, criando as repúblicas da Arménia, da Geórgia e do Azerbaijão, justificando-se com as diferenças étnicas.
Lenine criou a República Socialista Soviética da Ucrânia pensando que a URSS seria «eterna».
Essa ideia de «eternidade» da URSS também a teve Estaline, que entrou em grande contradição consigo próprio ao redefinir as fronteiras da Ucrânia em 1945.
Em 2014, vemos que Lenine e Estaline prejudicaram, objectivamente, a República Socialista Soviética da Rússia, que deu origem à actual República da Federação da Rússia, devido à ideia que ambos partilhavam da «eternidade» da URSS.
Tendo implodido o regime marxista-leninista na URSS, o que é hoje a Rússia? Ora a Rússia de 2014, oficialmente República da Federação da Rússia, é a República Socialista Soviética da Rússia desenhada por Estaline em 1945 (com a Crimeia incluída).
Foi em 1945 que Estaline teve oportunidade de redesenhar as fronteiras da RSS da Ucrânia de modo a não prejudicar tanto a RSS da Rússia e as populações de etnia russa, visto que aumentou para Oeste as fronteiras da Ucrânia e nessa altura podia compensar a RSS da Rússia, devolvendo-lhe territórios no Leste da RSS da Ucrânia habitados por etnias russas. Assim a Ucrânia cresceria para Oeste e devolveria alguns territórios à Rússia, mais ou menos sem perder quilómetros quadrados, porque os territórios devolvidos à Rússia seriam compensados pelos territórios anexados a Oeste. Isto não foi feito porque Estaline pensava que a URSS seria «eterna».
A actual República da Federação da Rússia usa como símbolo a águia bicéfala que era o símbolo do Império Romano do Oriente ou Império Bizantino

e esse símbolo foi, assumidamente, copiado pela Rússia czarista [que se afirmava como influenciada pelo Império Romano do Oriente ou Império Bizantino por ter a capital em Bizâncio, nomeadamente no aspecto religioso e no conceito czar que tem origem em Caesar (em português César)].
Sendo a República da Federação da Rússia um regime presidencialista, o presidente Putin é o principal responsável político. As elites políticas da actual R F da Rússia ainda não interiorizaram bem a sua herança histórica, que, obviamente, está ao mesmo tempo na Rússia czarista e na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Um monárquico que viva na actual República da Federação da Rússia acusará Lenine e Estaline de terem dado territórios históricos da Rússia à Ucrânia, prejudicando assim populações de etnia russa.
A União Europeia germanófila faz de conta que não sabe que a Crimeia foi retirada, ilegalmente, à RSS da Rússia pelo ucraniano Krutchov, através de um golpe de Estado sangrento em 1954. Nos Estados Unidos, só uma muito pequena elite é que estudou com objectividade a História da URSS.

E Putin, sem ter interiorizado bem a sua dupla herança da Rússia monárquica e da URSS, acaba por seguir as decisões de Estaline. Se fosse a ideologia da Rússia monárquica ou se fosse uma ideologia que incorporasse parte da Rússia monárquica e parte da URSS que estivesse no poder o leste da Ucrânia já tinha sido ocupado por tropas da Rússia, para protegerem os civis de etnia russa de uma chacina, em curso.

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