Os
oligarcas (ou alta burguesia) dominam (temporariamente) o Mundo em 2014. Os
cães de guarda da riqueza desta pequena e riquíssima oligarquia, andam a
reproduzir a voz do dono, andam a divulgar o ponto de vista dos oligarcas, como
se fosse um ponto de vista divino.
O
Secretário Geral da OCDE, Angel Gurría, é um desses cães de guarda dos
privilégios dos oligarcas. A sua profissão é mentir, como se estivesse a falar
verdade, é difundir hipocrisia e crueldade.
«Os
fretes e as falácias da OCDE
A
OCDE enviou uma equipa a Portugal para repetir mais uma vez a narrativa
ortodoxa em torno da crise e apoiar a continuação do programa austeritário. Sob
uma capa de objectividade tecnocrática, o seu discurso limita-se a defender
interesses particulares.
São
bons, há que reconhecê-lo.
Ao
ouvir ontem as palavras à comunicação social portuguesa do Secretário Geral da
OCDE, Angel Gurría, não há como não ficar impressionado com o grau de depuração
retórica alcançado pelo campo austeritário na sua exposição das raízes da crise
e do que é necessário fazer para ultrapassá-la. O que Gurría disse às
televisões foi algo como isto: "Portugal perdeu competitividade porque os
salários aumentaram mais do que a produtividade ao longo dos anos. Os países em
que os salários aumentaram abaixo da produtividade, como a Alemanha, viram a
sua competitividade reforçada. Portugal precisa por isso de continuar a
garantir que a produtividade aumenta acima dos salários".
Esta
equipa da OCDE diz algumas outras coisas, tanto no relatório encomendado pelo
Governo que ontem apresentou como nas declarações à comunicação social
efectuadas no contexto dessa apresentação. A economia portuguesa está a virar a
página, foram os ricos quem pagou a crise, a coesão social foi assegurada, o
programa de ajustamento foi um sucesso e há que prosseguir o rumo. Em termos
programáticos concretos, o destaque vai para a defesa da continuação do
congelamento do salário mínimo e para a enunciação, pela enésima vez, do mantra
do combate à rigidez do mercado de trabalho.
Vamos
por partes.
O
suposto sucesso do programa de ajustamento e o pretenso virar de página são a
parte relativamente mais fácil e menos interessante de rebater, na medida em
que são realmente do reino do pensamento mágico. A dívida pública nunca foi tão
elevada como é hoje; a desalavancagem privada está quase toda por realizar; o
emprego total é inferior em quase seis centenas de milhar face ao máximo
anterior à crise e em quase trezentos mil em relação ao início do programa de
ajustamento em 2011; o investimento encontra-se a níveis de há décadas atrás. O
alivio parcial e temporário da austeridade por imposição constitucional nos
últimos tempos permitiu suspender temporariamente a espiral recessiva e deixou
que a evolução do PIB e a taxa de desemprego respirassem um pouco (esta última
auxiliada adicionalmente pela emigração), mas isso fez imediatamente degradar o
equilíbrio das contas externas... que na fase anterior havia sido o principal
sucesso reivindicado pelo Governo. Já quase toda a gente percebeu que nas
condições actuais da economia portuguesa o equilíÍbrio externo só se consegue à
custa de manter a economia deprimida, e que a suspensão da recessão só se
consegue à custa do défice externo. Toda a gente, menos o Governo... e pelos
vistos a OCDE, que consegue vislumbrar aqui um sucesso a prosseguir.
Mas
a parte mais interessante do discurso da OCDE é a explicação simples da crise
que citei no início deste texto, e que, no fundo, corresponde à versão depurada
e para consumo de massas da narrativa dos custos unitários do trabalho
excessivos com que vimos sendo presenteados há já alguns anos. É uma narrativa
fascinante porque brilhantemente falaciosa, sendo composta por elementos
parcialmente verdadeiros articulados de forma a produzir uma conclusão falsa.
É
que Gurría esquece-se de dizer que se os salários nominais, ou os custos
unitários do trabalho, aumentaram tanto em Portugal e na periferia da zona Euro
no período pré-crise, isso deveu-se ao facto da inflação em Portugal e nesses
países ter sido sempre mais elevada do que na Alemanha e no centro da zona Euro
de uma forma geral.« (In blog «Ladrões de Bicicletas»)
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