Tenho
aqui referido que um dos mitos mais falsos da União Europeia e dos Estados
Unidos é a propaganda da ideia de que respeitam os Direitos Humanos. Quem faz
esta propaganda faz de conta que Guantánamo e as suas sucursais, umas
conhecidas, outras secretas, são instituições de caridade.
Fiquei
surpreendido quando li, num blog afecto ao Bloco de Esquerda, umas verdades
muito inconvenientes para a mitologia da União Europeia e dos Estados Unidos.
«Leio e releio a notícia, com uma
primeira sensação de não a ter compreendido bem e uma segunda de viver já num
mundo às avessas: por iniciativa do Equador e da África do Sul, foi apresentado
à ONU um projecto de resolução, que vai levar à elaboração de um tratado que
vincule todas as multinacionais a não desrespeitarem direitos humanos nos
países em que operam e a serem, para esse efeito, supervisionadas pelos
governos dos respectivos países.
De que se está a falar? De
«garantir condições de trabalho dignas, que contribuam para equiparar as que
existem na Índia ou no Bangladesh às dos assalariados nos estados ocidentais».
Também, de «lutar contra a contaminação de solos e de rios e contra a
perseguição dos defensores de direitos humanos». Porque é hoje «claro que os
crimes de lesa humanidade cometidos por empresas transnacionais (...) não podem
continuar e ficar impunes».
A resolução foi aprovada. Óbvio?
Sim, à primeira vista, mas deixa de o ser – ou talvez não – quando se vê a
distribuição dos 47 votos: 20 a favor, 14 contra, 13 abstenções. Fica aqui a
lista:
Votos a favor: Argélia, Benim,
Burkina Faso, China, Congo, Cuba, Etiópia, Índia, Indonésia, Costa de Marfim,
Cazaquistão, Quénia, Marrocos, Namíbia, Paquistão, Filipinas, Rússia, África do
Sul e Venezuela.
Abstenções: Argentina, Botswana,
Brasil, Chile, Costa Rica, Gabão, Kuwait, Maldivas, México, Peru, Arabia
Saudita, Serra Leoa e Emiratos Árabes Unidos.
Votos contra: Áustria, República
Checa, Estónia, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Japão, Macedónia,
Montenegro, Coreia do Sul, Roménia, Reino Unido, Estados Unidos.
Realcei os votos contra, por
razões que me abstenho de comentar: 11 países europeus, Estados Unidos e dois
países asiáticos «ricos». Vergonha, 14 vezes vergonha.» [In blog «Entre as
brumas da memória»]


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