sábado, 19 de abril de 2014

A REVOLUÇÃO DE 25 DE ABRIL DE 1974 E A III REPÚBLICA - I

No dia 25 de Abril de 1974, um golpe de Estado militar, organizado por oficiais subalternos do quadro permanente que formaram o MFA, transformou-se numa revolução devido à adesão popular em Lisboa, espontânea e fomentada pelos partidos clandestinos, especialmente o PCP. A patente da maioria destes oficiais subalternos era a de capitão. O comandante de todas as operações tinha a patente imediatamente acima, o major Otelo Saraiva de Carvalho.

Marcelo Caetano refugiou-se no quartel do Carmo, da GNR, em Lisboa.
O capitão Salgueiro Maia

veio com uma força de blindados de Santarém (da EPC).

A ele competia o comando, no terreno da conquista definitiva do poder. Em primeiro lugar tomou o Terreiro do Paço, guardado por uma fragata posicionada junto ao cais das colunas

e por tanques de lagartas M-46.

Há que referir que a fragata (Gago Coutinho) estava na mira de uma bateria de artilharia de quatro peças, colocada na margem Sul do rio Tejo, em Almada, nos terrenos do Cristo-Rei, que facilmente a afundava, em caso de necessidade.  A politização das forças armadas fez com que oficiais, sargentos, cabos e soldados e marinheiros não defendessem Marcelo Caetano. Nem a fragata nem os tanques M-46 resistiram.
Depois Salgueiro Maia tomou o Largo do Carmo, e depois de mandar fazer fogo de metralhadoras ligeiras obteve a rendição condicional de Marcelo Caetano, que se rendeu ao general Spínola.
Caiu a ditadura fascista portuguesa implantada pelos militares com o golpe de Estado de 28 de Maio de 1926. A mesma instituição que implantou o fascismo em Portugal derrubou-o.
A revolução começou em 25 de Abril de 1974 e terminou em 25 de Novembro de 1975, com um golpe de Estado da ala direita do MFA liderada por Melo Antunes e Vasco Lourenço, sendo o coordenador operacional desse golpe de Estado Ramalho Eanes. A Revolução ficou conhecida por PREC (Processo Revolucionário Em Curso) e foi a maior revolução social portuguesa, depois da revolução constitucionalista ter vencido a guerra-civil de 1832-1834, que começou com o desembarque do Mindelo e a tomada da cidade do Porto pelos constitucionalistas, comandados pelo duque de Bragança D. Pedro, que já havia sido o imperador do Brasil Pedro I e o rei de Portugal D. Pedro IV, cargos de que abdicou por razões ideológicas e que viria a morrer tuberculoso no palácio de Queluz, em 24 de Setembro de 1834, em parte devido ao desgaste físico da guerra-civil. Em 1834 a burguesia tomou efectivamente o poder e destruiu o poder económico do clero expulsando todas as ordens religiosas e nacionalizando os respectivos bens e destruiu o poder económico da nobreza, proibindo os morgadios (excepto o da casa de Bragança, visto que o duque de Bragança era também o rei).
Durante o PREC muitos elementos da alta burguesia fugiram para o Brasil. Foi a primeira vez, que desde 1834 a alta burguesia como classe social se sentiu ameaçada.
O assassinato, em 1908, do rei D. Carlos I e do herdeiro do trono, D. Luís Filipe, e a implantação da República em 5 de Outubro de 1910 em conjunto representaram o golpe final na nobreza.
O carácter social da revolução de 25 de Abril de 1974 foi marcado pela ascensão das classes populares e o golpe de Estado de 25 de Novembro de 1975 foi a devolução do poder social à alta burguesia, cujo representante político-partidário era Mário Soares. E assim foi, o deus da alta burguesia já era o deus da Internacional Socialista em 1974. A alta burguesia depressa percebeu que o 25 de Novembro de 1975 lhe iria permitir continuar a ser dona de Portugal, como havia sido durante o fascismo. A Internacional Socialista apenas exigiu à burguesia que respeitasse a democracia capitalista e que fizesse concessões às classes médias e às outras abaixo.
É preciso não esquecer que não havia uma alternativa comprovada melhor que a democracia capitalista, o que ficou provado em França com a revolta de Maio de 68, que não deu origem a nenhuma revolução. O PCF fez saber que não havia alternativa à democracia, porque, apesar de tudo, a qualidade de vida da classe operária francesa era superior à da União Soviética de então. Em nome de Marx, Engels e de Lenine só havia ditaduras, como todas as ditaduras gravosas para quem não pertencesse ao partido do poder. Essas ditaduras em nome do proletariado tinham-se tornado ditaduras de um partido, embora as estruturas sociais fossem muito menos desigualitárias do que nas democracias capitalistas, e os privilegiados eram usufrutuários e não detentores dos palácios e do capital. Esse bloqueio que era a ditadura comunista não parecia ter solução o que preanunciava a implosão desse modelo.
Em 1976 foi promulgada a sexta constituição portuguesa, a terceira republicana, que instituiu a III República. Monárquicas foram as constituições de 1822, 1826 e de 1838, e republicanas a de 1911 republicana-democrática e a de 1933 republicana-ditatorial (pior que todas as constituições monárquicas).


O maior impacto da Revolução de 25 de Abril de 1974 foi em África. Antes do golpe de Estado de 25 de Novembro de 1975, isto é, durante o PREC, deu origem à independência de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Deu também origem ao isolamento do regime do apartheid da África do Sul, contribuindo, a prazo, para a libertação de Nelson Mandela e para a consequente queda do regime do apartheid da África do Sul.


Na Europa deu origem à queda do fascismo na Espanha e na Grécia.

Os fascistas espanhóis chegaram ao poder através de uma guerra-civil que causou mais de um milhão de mortos entre 1936 e 1939, graças ao apoio directo de tropas de elite fascistas italianas enviadas por Mussolini e pela força aérea da Alemanha nazi, enviada por Hitler. Ao observarem a revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal os fascistas espanhóis perceberam que uma revolução semelhante na Espanha levaria ao ajuste de contas da guerra-civil de 1936-1939 e ao fuzilamento em massa de todos os fascistas. Assim para salvarem as vidas destruíram o regime por dentro, gradualmente, conseguindo um pacto que lhes salvou as vidas.


O fascismo regressou à Europa, apenas em 2014, através de um golpe de Estado, seguindo o modelo de Mussolini em Roma, agora em Kiev, organizado pela União Europeia e pelos Estados Unidos. É bom não esquecer que a Suécia dos prémios Nobel faz parte da União Europeia e que a Noruega faz parte da NATO. A junta fascista de Kiev tem a mesma legitimidade que Mussolini em Roma. A entronização da junta fascista de Kiev acabou, de uma vez por todas, com a mitologia democrática da União Europeia e dos Estados Unidos em 2014.

Fascismo é fascismo e ele está de pedra e cal na Europa, em Kiev.

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