sexta-feira, 7 de março de 2014

O FASCISMO MUSSOLINIANO NA UCRÂNIA


O falso escritor que é o jornalista José Rodrigues dos Santos será tão estúpido e ignorante que acredite no que diz na RTP sobre a Ucrânia, ou é suficientemente hipócrita para dizer o que a voz do dono quer ouvir? O dono entenda-se o governo de Berlim ou de Washington.


«Ucrânia: Anatomia de um golpe, a situação no terreno radicaliza-se e outras notas


Anatomia de um golpe

21 de Fevereiro foi assinado um acordo entre todas as partes em conflito (que incluí manifestantes, governo da altura, 3 ministros de governos da UE e Rússia) para resolver de forma pacífica o conflito em curso na Ucrânia. Nesses dias snipers não identificados disparam sobre a multidão matando várias pessoas (incluindo polícias). Este evento foi determinante no descarrilar do acordo assinado e no derrube Yanukovich. A história contada foi de que os snipers eram agentes do governo de Yanukovitch…
Acontece que foi divulgada uma conversa entre o ministro dos negócios estrangeiros da Estónia e a representante da UE para os assuntos externos em que o Ministro diz que afinal os snipers não estavam a soldo do Yanukovitch, mas sim de elementos da oposição que fazem parte da actual junta fascista! (vídeo aqui) O ministro já confirmou que a conversa é real (aqui aqui). Relembro que este tipo de táctica já tinha sido utilizado na tentativa de golpe fascista na Venezuela. Ou seja, snipers serem utilizados por agitadores fascistas para assassinar manifestantes e polícias de modo a gerar confusão e justificar um golpe de estado.
O golpe de estado que ocorreu após os snipers matarem vários manifestantes (e polícias)foi liderado no terreno pelos gangs neonazis.

Situação no terreno

A situação no terreno endurece. Realço que o ritmo dos eventos é sobretudo marcado pela dinâmica da luta social no interior da Ucrânia e pelos agentes locais, mais do que pelas jogadas de alta política da UE, NATO, Rússia ou EUA (embora quem veja os noticiários main-stream possa ficar com a impressão contrária…).
Crimeia. Na quarta-feira um representante imperial foi enxovalhado e corrido da Crimeia. Na quinta-feira um grupo de vários “observadores” ao serviço da UE (formalmente eram da OSCE) foi impedido de entrar na península. Mais relevante, o parlamento regional aprovou a integração da Crimeia na Rússia e marcou um referendo para rectificar isso para dia 16. Esta decisão representa uma radicalização da situação. Já estava marcado um referendo para dia 30, mas esse referendo era sobre o aprofundamento da autonomia da Crimeia, não para uma união tout court com a Federação Russa. Parece-me difícil que uma decisão destas pudesse ter sido tomada sem consultar Moscovo, mas cheira-me que esta não foi uma decisão que veio de “cima para baixo”, antes pelo contrário… No terreno a hostilidade para com os agentes do imperialismo intensifica-se (aqui).
Donetsk. A situação em Donetsk está extremamente tensa e fluída. Relembro alguns pontos essenciais. Na semana passada as autoridades locais convocaram um referendo sobre o reforço da autonomia da região. No fim de semana passado ocorreu uma grande manifestação pró-Russa e foi eleito um “governador do povo”, Pavel Gubarev (ver reportagem da Aljazeera). Na sequência dessa manifestação o edifício do governo/parlamento da região foi ocupado pelas forças pró-Russas/Anti-fascistas que não reconhecem a junta fascista de Kiev, nem o oligarca nomeado para governar a região. Na quarta-feira de manhã os manifestantes pró-Russos foram expulsos do edifício, mas à tarde reagruparam-se e eram mais de mil quando reocuparam o edifício (ver vídeo). Depois disso houve uma manifestação de filo-fascistas pró-UE em frente ao edifício, mais uma vez os anti-fascistas reagruparam-se e houve uma contra manifestação (ver aqui,aquiaquiaquiaqui e aqui).
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Sede do governo de Donetsk retomado por anti-fascistas.
Na quinta-feira os anti-fascistas foram novamente expulsos do edifício governamental (aqui), mais tarde Pavel Gubarev (o “governador do povo”) foi preso por uma unidade especial da polícia enviada por Kiev (aqui e aqui) . Houve uma reposta anti-fascista e uma manifestação cercou a esquadra da polícia, alguns manifestantes foram detidos, mas após novos confrontos os manifestantes conseguiram a libertação de todos os anti-fascistas presos no protesto (aquiaqui, video aqui).
Militantes anti-fascistas confrontaram a polícia às ordens do regime fascista de Kiev após a detenção de Pavel Gubarev
Militantes anti-fascistas confrontaram a polícia às ordens do regime fascista de Kiev após a detenção de Pavel Gubarev e conseguem libertar vários camaradas que tinham sido detidos.
Confrontos entre manifestantes anti-fascistas e a polícia ao serviço da Junta fascista de Kiev e os seus Oligarcas
Confrontos entre manifestantes anti-fascistas e a polícia ao serviço da Junta fascista de Kiev e os seus Oligarcas (Donetsk)
O governador oligarca nomeado pela junta fascista demitiu o chefe da polícia e esta parece estar a obedecer às suas ordens, mas não completamente, há relatos de que a polícia passou-se para o lado dos anti-fascistas e já não respeita as ordens do oligarca (aqui também)… Por isso mesmo a unidade que prendeu Gubarev veio de Kiev e há vídeos onde são visíveis homens armados, alegadamente mercenários da empresa dos EUA Blackwater, a trabalhar para a junta fascista de Kiev(ver aqui). A actuação da polícia local no terreno dá a ideia de que é uma força que está muito dividida. Entretanto, o governador oligarca também já disse que “a ideia de um referendo não é lá muito boa”.
Hoje, sexta-feira, parece estar a realizar-se uma grande manifestação contra a junta fascista de Kiev e a prisão de Gubarev  (ver vídeo de protesto anti-fascista em Donetsk). Para o fim de semana estão programados mais protestos.
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Cartaz a convocar manifestação anti-fascista em Kharkov para Sábado, amanhã
LIberdade para Gubarev, prisioneiro político da junta fascista de Kiev
LIberdade para Gubarev, “governador do povo”, prisioneiro político da junta fascista de Kiev
Donetsk parece ser a cidade onde o nível de confronto está mais intenso, ou pelo menos de onde é possível obter mais notícias, a verdade é que este tipo de confrontos tem ocorrido em várias cidades do leste e sul da Ucrânia, e.g. Odessa, Kharkov, Nikolaev (aqui aqui) e outras cidades. Manifestações anti-fascistas, contra manifestações filo-fascistas pró UE, tentativas de tomada de edifícios, governadores impostos pela junta fascista a não serem reconhecidos, etc…
Algumas tendências começam a desenhar-se. A junta fascista de Kiev está a tentar reconquistar as autoridades locais, polícia, governos regionais e municipais da zona leste e sul da Ucrânia. A Junta fascista demitiu muitos responsáveis (houve alguns que se demitiram também) e nomeou nova gente da sua confiança para postos chave, e.g. os oligarcas que foram nomeados para as zonas mais “insurrectas” do leste, onde parece estarem a empregar as suas fortunas para comprarem lealdades. Os manifestantes pró-Russos/Anti-fascistas têm uma agenda própria e não são agentes de Moscovo, embora obviamente olhem em direcção à Rússia para obter algum apoio (tal como os Nazis têm apoios da UE e da NATO). Mas se o objectivo da Rússia fosse pura e simplesmente invadir a Ucrânia a verdade é que neste momento já tinham mais do que pretextos para isso… Se o objectivo de Moscovo fosse pura e simplesmente desestabilizar a zona leste e sul já podiam-no ter feito com muitíssimo mais intensidade.
A verdade é que as forças anti-fascistas na Ucrânia não têm contado com um enorme apoio de Moscovo (excepção feita à Crimeia), nem mesmo ao nível da cobertura mediática. Os anti-fascistas Ucranianos têm contado acima de tudo com a suas forças e organizações, não com o apoio de Moscovo. Em alguns locais vemos a emergência de órgãos de “duplo poder” que a junta fascista de Kiev tenta esmagar. A Rússia só entrará mais activamente na luta anti-fascista na Ucrânia se os grupos locais intensificarem e radicalizarem a sua luta e com isso obrigarem Moscovo a agir.
Mas seja como for, a situação está extremamente fluída e aquilo que num dia parece certo, no dia seguinte altera-se, como em qualquer situação deste género os rumores espalham-se com muita facilidade… A únicas certezas são que a batalha pelo leste e sul da Ucrânia estão a radicalizar-se e que essas batalhas estão a ser travadas, sobretudo, por forças locais.

União Europeia oferece gás e dinheiro à junta fascista de Kiev? Quem Paga? 

A situação financeira e económica da Ucrânia é catastrófica (aqui e aqui). O Barroso já prometeu ajudar financeiramente a Ucrânia e também fornecer-lhe gás. Mas quem é que pagará isso? Vai a UE dar à Ucrânia dominada pelos Nazis aquilo que não deu a estados membros como Portugal, Grécia ou Irlanda??? E a UE vai fornecer gás? A que preço?
Das duas uma, ou os povos europeus vão ser espremidos ainda mais para dar recursos a fundo perdido aos Nazis que controlam a Ucrânia, ou a população Ucrâniana será sujeita a um tratamento de choque UE+FMI… Relembro que a Ucrânia já teve financiamento do FMI, que foi congelado porque a Ucrânia não cumpriu com as contrapartidas dos empréstimos (ver aqui)… Agora, nesta situação caótica, a Ucrânia irá cumprir esses acordos que numa situação bem mais estável não conseguiu????

Confirmação oficial que a UE apoia os gangs neo-nazis

Ontem houve uma reunião da UE para definir uma posição comum e as sanções a aplicar à Rússia. Na cobertura em directo feita pelo jornal Telegraph podemos ler este relato acerca dessas negociações  (ver entrada às 13:19):
Poland, Hungary, Czech Republic, Slovakia, Lithuania, Latvia and Estonia are pushing for harder language on sanctions. The wording on Georgia and Moldova is important for them as a warning to Russia that it will not be allowed to pick off countries wanting closer links to EU.
Diplomats tell me that the demand for “quick steps towards the dissolution of any paramilitary structures” could be dropped because it would also apply to Kiev groups, particularly the far-Right nationalist groups that are the backbone of the new government there.
Ok… se restassem algumas dúvidas elas estão dissipadas. A UE reconhece que a junta de Kiev é sustentada por gangs neonazis e dá cobertura político-institucional a esses gangs. Esta peça da reuters dá bem ideia do quão dividida está a UE.
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A posição da China

A China está contra as sanções à Rússia (aqui) e aconselha o “Ocidente” a colaborar com a Rússia em vez de hostilizá-la (aqui). Tal como em vários outros assuntos, a China, não tendo um aposição equivalente, de facto é aliada da Rússia.

Textos Recomendados

The clash in Crimea is the fruit of western expansion (muito bom texto de opinião publicado no Guardian)
A Monster Reawakens: The Rise of Ukrainian Fascism (acerca do peso dos nazis no governo e ruas da Ucrânia Ocidental)
As Far-Right Groups Infiltrate Kiev’s Institutions, the Student Movement Pushes Back (sobre os estudantes que ocuparam uma Universidade em Kiev e estão +- contra os fascistas)
A new (order) Ukraine? Assessing the relevance of Ukraine’s far right in an EU perspective (texto muito bom com uma análise comparativa dos movimentos de extrema-direita na Ucrânia e no resto da Europa)
Putin’s army salutes a Nulandized Kiev (disputa entre EUA e a Rússia)
Ukraine: against infantile realpolitik (texto com uma perspectiva de Esquerda onde se tenta realçar as vários nuances do conflito e onde se critica o apoio cego da Esquerda a Putin… de tanta nuance o autor acaba por passar ao lado da contradição fundamental no terreno e perceber que, com todas as contradições, existem dois grandes campos em conflito fascistas+UE+Nato vs Anti-fascistas+Rússia, mas enfim…)
10 things to remember about the crisis in Ukraine and Crimea (sobre a hipocrisia do “Ocidente” e o papel do imperialismo no golpe fascista)
About Abby Martin, Liz Wahl and media wars (sobre a guerra mediática em curso, a propósito das “confissões em directo” de alguns repórteres da RT)

Comentários finais

A situação na Crimeia está resolvida, a grande batalha é pelo resto da Ucrânia, nomeadamente o sul e o leste.
Existem múltiplas forças no terreno, com diferentes programas, métodos e interesses. Existem actores locais e internacionais. Como em qualquer situação deste género, existe uma componente trágica, na acepção hegeliana da palavra …
Dito isto, é preciso perceber que existem dois grandes campos em conflito, com todas as contradições inerentes a cada um desses campos. De um lado está a junta fascista de Kiev, suportada por gangs neo-nazis, oligarcas, a Nato e a UE, que também conta com o apoio de vastos sectores populares no Ocidente da Ucrânia, que objectivamente, desempenham o papel de idiotas úteis ao serviço da UE e dos Nazis. Do outro lado existem movimentos anti-fascistas, movimentos pró-Rússia (também ligados a alguns oligarcas), o partido comunista da Ucrânia, o Governo da Federação Russa e muita da população do leste e do sul que tem fortes laços com a Rússia e está, com toda a razão, assustada com a chegada ao poder em Kiev de gangs neo nazis. Há que ter em conta também que enquanto o Ocidente da Ucrânia é mais “camponês”, o Leste é mais “proletário” (é aí que está concentrada a industria). Há aqui muitas nuances a ter em conta? Muitos interesses díspares em cada um dos campos? Sim, sem dúvida. Mas são estes os grandes campos em luta no terreno.  Mais, o perigo maior, o mais perigoso desfecho para todo este conflito, seria a solidificação em Kiev de um poder nas mãos dos neo-nazis. Toda a análise, alianças e luta deve ser desenvolvida para evitar que isso aconteça.
Há muita atenção dada à “alta política”, há muita propaganda em volta da “invasão Russa” da Crimeia e da ingerência da UE e dos EUA na Ucrânia. Tanto a UE, como os EUA, como a Rússia são poderosos agentes em jogo. Obviamente que não nego o papel dessas potências no conflito. Mas o ritmo dos acontecimentos, em última análise, foi e será imposto pela luta no terreno entre os diferentes sectores da sociedade Ucraniana.» (In blog «5 Dias net»)

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