quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CONTRA A CORRENTE DOMINANTE

"Eusébio, «mainato»



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Declaração de interesses: Nunca me senti honrada por, durante muitos anos, no estrangeiro, ao saberem-nos portugueses, nos falarem imediatamente de Eusébio.

Pelo contrário: sempre achei que era uma humilhação mais que nos era inflingida por uma ditadura que perseguira a sua inteligentzia e reduzira a vida cultural portuguesa aos 3 Fs de Fátima, Futebol e Fado. Parecem-me, também, exagerados os três dias de luto nacional decretados pelo Governo a propósito da sua morte. Mas nada disto tem a ver com a pessoa de Eusébio, apenas com a forma como outros utilizaram o seu nome, o abuso que dele fizeram.

A falta de entusiasmo pelo futebol, não me permite, como a outros, falar das alegrias que os seus golos me pudessem ter proporcionado. Mas, nesta hora de unanimismos e identidades nacionais, em que voltam a confundir Eusébio e Portugal, quero contar a pequena história da única vez que vi o jogador: foi há muitos anos, penso que em 1967, junto à estação do Rossio. Ia com um amigo quando o vimos, poucos metros à nossa frente. Gostasse-se ou não de futebol, era impossível não o reconhecer. Chamou-nos a atenção o seu modo de andar e, sobretudo, a posição dos braços: tinha-os dobrados pelo cotovelo, ligeiramente erguidos, movendo-os como se desse pequenos socos numa bola imaginária. Lembrou-nos um boxeur confiante a caminhar para o ringue ou então um gato – uma pantera negra ? – a brincar satisfeito com um novelo de lã suspenso por um fio. O meu amigo era moçambicano: falou-me do passado de menino pobre de Eusébio, com uma ternura de patrício, não de adepto. Era por esse menino que nos alegrava, enquanto o seguíamos, o seu caminhar confiante. Passámos depois, poucos metros atrás dele, em frente a um café, o Nicola, talvez. E da esplanada uma voz gritou: «Eh, mainato!» Mainato, eu sabia, era o nome dado aos criados em Moçambique. O pantera negra parou, o corpo perdeu a arrogante alegria e respondeu, humilde, num tom baixo, quase murmúrio: «Sim, minino?»

Foi a única vez em que me apeteceu bater em alguém por causa de um jogador de futebol."
(In blog «Entre as brumas da memória»)


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