sábado, 3 de agosto de 2013

PORTUGAL AINDA NÃO BATEU NO FUNDO – É POSSÍVEL DE UM GOVERNO PÉSSIMO PASSAR A UM MUITO PÉSSIMO

A Direita portuguesa tem uma maioria, um governo e um presidente. Tudo isto é mesmo mau, é muito mau, é mesmo péssimo, mas a Direita portuguesa pode surpreender-nos com coisas ainda piores. O dia seguinte pode ser sempre pior que o anterior. Não sou o único que pensa mal deste governo PSD-CDS-Troika-Cavaco.

«Chegados a este ponto, tudo é, de facto, possível. Os comentadores ainda se surpreendem – ou fingem surpreender-se – com as sucessivas notícias que vão chegando dos palácios do poder, mas a verdade é que o povo está suficientemente anestesiado para achar qualquer coisa que aconteça normal. É normal aceitarmos antigos dirigentes do banco responsável pelo maior roubo aos contribuintes de que há memória como ministros; é normal termos uma ministra a mentir sucessivamente no parlamento e nas televisões, contradizendo-se a cada declaração pública; é normal termos um secretário de Estado que propôs negócios ruinosos ao Governo português vir a ocupar um lugar que decide sobre o destino a dar esses negócios. Tudo é normal, tudo é possível, porque decidimos aceitar a suspensão da democracia. A partir do momento em que um Governo morto e enterrado continua a governar contra o nosso interesse, é perfeitamente natural que ele se sinta em roda livre para fazer o que muito bem entende com o erário público.

Não tenhamos dúvidas: não nos devemos surpreender por terem ido para o Governo pessoas com responsabilidades no BPN, pessoas que tentaram vender contratos "swap" para mascarar dívida pública, pessoas que disseram em público desconhecerem os negócios da Ongoing com o Estado. Ninguém esperaria o contrário. Neste momento, ninguém com um mínimo sentido de decência e integridade pessoal aceitaria um convite para ser membro deste Governo. É normal que as recusas de convites de possíveis governantes se tenham multiplicado. A conclusão evidente é que apenas gente sem moral, desonesta ou carreirista almeje alçar-se ao pote. Neste momento, apenas membros da quadrilha, pessoas envolvidas em negócios obscuros ou com uma dissonância cognitiva tão acentuada que acham que pertencer a este Governo traz alguma mais-valia à carreira aceitariam ser ministros, secretários de estado ou até assessores do executivo.

Este é um Governo que se governa a si próprio e zela pelos interesses do grande capital e do sector financeiro. Tudo é realmente aceitável, nada é surpreendente. Valerá a pena que os ‘media’ percam tanto tempo a investigar e a revelar as ligações perigosas dos actuais governantes? Se todo e qualquer crime não terá castigo – e Portugal tem uma longa tradição de inimputabilidade dos políticos –, de que servem os jornais que denunciam a corrupção e a mentira em que está enredada a quadrilha que nos governa? Acabe-se com a imprensa, acabe-se com as denúncias, ninguém se importa. Acoitados ao poder, os mentirosos, os criminosos e os corruptos tratam da sua vida. É este o melhor dos mundos.» (Sérgio Lavos in blog «Arrastão»)

«Quando no próximo 25 de abril se completarem 40 anos de democracia em Portugal, Cavaco terá cumprido mais de oito como Presidente da República (2006-14), a que se somam os dez como primeiro-ministro (1985-95) e o ano (1980-81) em que foi ministro das Finanças – 19 no total, praticamente metade do período democrático. Na história destas quatro décadas, é Cavaco quem emerge. É terrível, e deprimente, mas é assim. O regime político em que hoje vivemos, aquilo em que ele se transformou, a articulação perversa entre poder económico e político, é, sobretudo, o resultado do cavaquismo dos anos 1985-95, replicado sem cessar desde então, com o próprio, o Presidente menos votado da nossa democracia, na chefia do Estado. (...)

Cavaco, o homem que, desde Salazar, e muito mais que Caetano ou Sá Carneiro, melhor sintonizou com as direitas portuguesas, é o responsável máximo pela re-oligarquização do Estado e do poder político em Portugal, pelo regresso às formas mais elitistas de dominação política que caraterizavam o sistema liberal-conservador, que a I República breve e fragilmente interrompeu, mas que se reconstituiu, com muito mais força, com o salazarismo. O cavaquismo foi essa espécie de marcelismo adaptado às regras formais da democracia política (Cavaco chamou ao poder muitos dos pseudotecnocratas que Marcelo promovera), que, tendo beneficiado da bazófia ideológica do fim da História, procurou convencer os portugueses de que as ideologias tinham morrido, o que havia era economia, progresso e uma naturalíssima desigualdade social que só o mérito individual (e não quaisquer políticas sociais!) poderia corrigir. (...)

Eis o legado que nos deixa o homem que dizia na última campanha eleitoral: “Para serem mais honestos do que eu tinham que nascer duas vezes.” (Imprensa, 23/12/2010.) Ele, que se rodeou no poder daquela que se revelou a mais descarada clique de trapaceiros das finanças de que há memória desde, provavelmente, Alves dos Reis. Ele, que, depois de 34 anos de atividade política ininterrupta, gosta de derrapar pelo discurso antipolíticos como se não fosse um deles, e que em 1981 era (com Eurico de Melo e Santana) o campeão das conspirações internas no PSD contra Balsemão, que, à la Portas, se demitiria para logo a seguir ser reconduzido. Ele, que depois de dez anos da mais intensa política deliberada de inviabilização social e económica do mundo rural e piscatório português, discorre hoje pateticamente sobre as maravilhas do regresso ao campo e ao mar. (...)

O “melhor povo do mundo” deve ter alguma responsabilidade em que este homem tenha chegado aonde chegou. Mas tudo indica que não acredita mais. Nele ou nos seus pupilos.» (Manuel Loff, in jornal «Público», cit. no blog «Entre as brumas da memória»)

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