Portugal está a
afundar-se, juntamente, com a Zona Euro. Chipre já se afundou mais.
A seguir é exposta uma
análise crítica muito substantiva da situação de Portugal e da Zona Euro, por
um economista dissidente, relativamente à loucura neoliberal-austeritária, a
nova Teologia dominante na Zona Euro. Esta Teologia neoliberal-austeritária é
um mito tão verdadeiro como os mitos da Grécia Antiga.
«O destino de Portugal
só pode ser o de um território pobre dentro de uma UE dotada de um governo
tecnocrata que dará visto prévio aos orçamentos nacionais
A crise política que agora termina foi aproveitada pela esmagadora
maioria dos analistas da comunicação social, alguns travestidos de jornalistas,
para insistir na inevitabilidade da chantagem já conhecida: ou cortamos 4,7 mil
milhões de euros na despesa do Estado social, alguma coisa já este ano e em
força no próximo, ou enfrentamos a suspensão do financiamento da troika. Ao
promover o falhado acordo de "salvação nacional", o Presidente da
República quis dizer-nos isso mesmo, o destino de Portugal só pode ser o de um
território pobre dentro de uma UE dotada de um governo tecnocrata que dará
visto prévio aos orçamentos nacionais. Daí a sua preocupação em gerar um
consenso alargado sobre o caminho para o empobrecimento de Portugal nos
próximos anos, para o "pós--troika" como lhe chama.
A esmagadora maioria dos analistas fala da necessidade dos cortes na
despesa do Estado social assumindo que tais medidas reduzem o défice público.
Depois do que aconteceu nos últimos dois anos, aqui e no resto da zona euro, só
por má-fé podem insistir em dizer que o corte de 4,7 mil milhões de euros é
indispensável. Dentro de algum tempo, face ao agravamento da espiral depressiva
que tal redução na despesa implica, e a consequente manutenção do défice
público, seremos obrigados a ouvir esta gente séria defender a necessidade de
novos cortes. Se, genuinamente, alguém quer tirar o país do desastre para que
foi levado, então não pode aceitar quaisquer cortes no Estado social, mesmo que
fossem "apenas" 500 milhões, porque o seu efeito multiplicador será
sempre fortemente recessivo. A saída desta crise exige mais despesa pública e
não menos, o que evidentemente não é possível dentro da zona euro.
É preciso dizer a verdade aos portugueses: a criação de uma dinâmica
que reduza o desemprego significativamente e faça regressar os jovens que têm
emigrado só é possível com uma política orçamental expansionista de grande
escala, uma política que está proibida pelo recente Tratado de Estabilidade,
que institucionalizou o ordo-liberalismo germânico na política orçamental da
zona euro. Política orçamental keynesiana, tributação progressiva, pleno
emprego, pensões financiadas por repartição solidária, Estado social
interclassista, política industrial, protecção comercial inteligente são outras
tantas dimensões de uma estratégia de desenvolvimento que a UE impede. Como
disse Robert Skidelsky num recente artigo ("Stimulus, not austerity, is
the key to global economic recovery"), "A verdade é que qualquer
política de relançamento da economia através do Orçamento tem forçosamente
implicações reformistas. É por isso que os defensores da austeridade se lhe
opõem, e é também por isso que mesmo os que aceitam em teoria a necessidade de
um estímulo insistem que ele deve ser realizado apenas através da política
monetária".
O novo governo bem pode falar de um "novo ciclo". O certo é
que o Orçamento de 2014 está à sua espera e tem de ser apresentado em Outubro.
Mesmo que possa beneficiar de alguma suavização da austeridade, no quadro de um
fingimento europeu de que somos um caso de sucesso, o governo estará muito em
breve confrontado com uma realidade que não pode mudar: os bancos europeus (os
nossos e os outros) afundam-se antes que haja união bancária em pleno, o
eleitorado anti-euro cresce, os operadores financeiros começam a temer o pior e
a Alemanha só conhece a via das "reformas estruturais". Alguém no
governo já terá percebido que esta destruição, o preço que a Alemanha cobra
para viabilizar o euro, é a destruição do nosso futuro como nação soberana. Mas
não vê saída, como De Gaulle na guerra da Argélia e Marcelo Caetano nas guerras
coloniais. Para enfrentar com determinação esta dura realidade, Portugal
precisa de uma liderança política com visão, de uma liderança que faça a
ruptura. É urgente que ela apareça.
Jorge Bateira
Economista, co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas» (In jornal «i»
net)
Sem comentários:
Enviar um comentário