sexta-feira, 10 de maio de 2013

O MEDO DOS POLÍTICOS DO PODER NA UNIÃO EUROPEIA


Não simpatizo muito com os textos do socialista Manuel Maria Carrilho, porque ignora as estruturas base de um sistema sócio-económico-político, na linha do filósofo galês Bertrand Russell (prémio Nobel da Literatura), que do alto da sua aristocrática torre de marfim, no livro «A minha concepção do Mundo» omitiu as estruturas sócio-económicas-políticas ou por má-fé ou por incapacidade da sua condição de aristocrata. Bertrand Russell que no livro «Crimes de Guerra no Vietname» desmascara a hipocrisia da NATO, em «A minha concepção do Mundo», vê grandes semelhanças entre o nazismo e o comunismo, porque omite as estruturas base de um sistema sócio-económico-político. Se Bertrand Russell analisasse as estruturas sócio-económicas verificaria que o nazismo hitleriano é muito mais parecido com o Parlamentarismo Britânico do que com o comunismo.
A estrutura social da Alemanha nazi é quase igual à estrutura social do Reino Unido em que Bertrand Russel viveu, e muito diferente da estrutura social do comunismo soviético. A estrutura económica da Alemanha nazi, baseava-se na propriedade privada e na economia de mercado, tal como no Reino Unido, muito diferente do comunismo soviético. A estrutura da propriedade da Alemanha nazi baseava-se na propriedade privada, tal como a do Reino Unido. A estrutura da propriedade no comunismo soviético baseava-se na propriedade estatal ou colectiva. A estrutura da sociedade da Alemanha nazi era dominada pela alta burguesia e pela nobreza aburguesada, no Reino Unido a estrutura da sociedade era e é dominada pela alta burguesia e pela nobreza aburguesada. O nazismo foi um modelo de gestão do capitalismo, assim como o Parlamentarismo Britânico é um modelo de gestão do capitalismo.
Milan Kundera, tão admirado por Manuel Maria Carrilho, é um intelectual defensor da alta burguesia e dos interesses da alta burguesia.
Apesar de muitas discordâncias com Manuel Maria Carrilho acho interessante este seu texto sobre o medo da União Europeia.

«A hora do medo
Hoje é o Dia da Europa. Todavia, o ambiente que encontro em Lisboa, depois de dez dias em contacto com a vitalidade do Brasil, no plano universitário como em tantos outros, evoca-me sobretudo uma ideia de Milan Kundera, que definiu o europeu como aquele que tem nostalgia da Europa.
Este sentimento, que não é novo, tem-se intensificado nos últimos três anos. E ele agora cruza-se com um outro, que os acontecimentos têm vindo a impor cada vez mais na experiência quotidiana dos europeus: o do medo, um medo da Europa.
É a combinação destes dois sentimentos, a nostalgia e o medo, que a meu ver está hoje na origem do crescente mal-estar que se vive por toda a União Europeia, e que todas as eleições (como ainda agora aconteceu com as locais inglesas, a que D. Cameron anuncia responder da pior maneira) confirmam de um modo tão categórico como preocupante.
Em Portugal, a transformação da política de rigor num fanatismo de austeridade tem conduzido à inequívoca preponderância do medo, e às suas conhecidas e múltiplas patologias. Mas não admira, parece ser mesmo esse o objetivo do Governo.
Talvez por isso, no exato momento em que o novo primeiro-ministro italiano reclamou, logo acompanhado por inúmeros líderes, alternativas ao austeritarismo dominante que tem vindo a afundar a Europa, Passos Coelho decidiu colocar-se de novo ao colo da chanceler A. Merkel, ignorando o potencial desse momento e anunciando ao País mais um brutal pacote de austeridade.
Entretanto, a Comissão Europeia decidiu suavizar as metas da Espanha e da França, concedendo-lhes mais dois anos para atingirem o défice orçamental de 3%, e deu também mais um ano à Holanda, o que vem mostrar que há cada vez mais dois pesos e duas medidas na Zona Euro. É isto que facilmente decorre da comparação entre esta suavização e as exigências feitas a Portugal, para encontrar soluções de valor equivalente ao das medidas de austeridade que foram chumbadas pelo Tribunal Constitucional.
Claro que Isto também acontece porque Portugal não tem agido, no âmbito europeu, com visão, com conhecimento ou com habilidade, e é incapaz de reconhecer o fracasso das políticas seguidas, que têm agravado seriamente os problemas nacionais e minado as condições de recuperação da economia.
Fez bem, pois, Paulo Portas, em dar em público um sinal claro de que tem outra compreensão da situação, e sobretudo de que está pronto a bater-se por outros pontos de vista. O que, de resto, o deveria levar, como ministro dos Negócios Estrangeiros, a tutelar cada vez mais - à medida que se aproxima o fim do período de intervenção da troika em Portugal - toda a articulação das nossas políticas com as da União Europeia e da própria Zona Euro. Só assim esta sua posição não ficará refém de uma forte suspeita de oportunismo.
E há bons exemplos a seguir, no sentido de uma mais vigorosa conjugação dos interesses portugueses e europeus, que contenha tanto os delírios tecnocráticos como os ímpetos hegemónicos que nos ameaçam. O que não é fácil, sobretudo quando eles convergem ideologicamente, como é o caso.
Os próximos tempos terão que ser de muitas e grandes mudanças na Europa, se quisermos evitar o desastre generalizado de que os países "sob programa" aparecem hoje como uma assustadora antecipação. E não se venha com a história do "sucesso" da Irlanda, todo ele assente numa (mais uma) habilidade da contabilidade criativa europeia.
É que, como são muitas as multinacionais que, graças à incompreensível excecionalidade fiscal irlandesa (com um IRC a 12,5%, é bom não esquecer), têm formalmente a sua sede em Dublim, ou algures no território irlandês, passam por lá caudais torrenciais de mais-valias e de lucros feitos noutros países, nomeadamente na União Europeia e dos EUA, com um impacto que só pode ser muito significativo no PIB de um país de quatro milhões e meio de habitantes.
Esta criatividade torna-se bem evidente à mais elementar inspeção da composição do PIB irlandês, quando se descobre que ele provém em 90% das exportações, mais, portanto, do que a Suécia ou a própria Alemanha. E que, assim, toda a restante produção destinada à procura nacional representa apenas 10% do PIB, algo verdadeiramente extravagante!
O que é lamentável é que tudo isto, apesar dos impactos tremendos que tem na credibilidade europeia, aconteça em linha com muitas outras habilidades contabilísticas e beneficie da cumplicidade das mais diversas autoridades da União Europeia. Como a propósito ironizou J.-L. Gréau, a Europa vive neste domínio de tal modo sob o signo da manipulação, que chega a lembrar o que se fazia na União Soviética...
Por isso, se queremos que os cidadãos europeus troquem a nostalgia e o medo por uma renovada confiança no seu futuro, é vital desenvolver uma estratégia europeia verdadeiramente coletiva que, apoiada numa reforçada legitimidade política, aposte a sério na harmonização fiscal, na convergência social e numa política económica capaz de transformar a atual Europa dos consumidores numa nova Europa da criação e da produção. É essa a ambição que faz falta. (Manuel Maria Carrilho in «DN» net)

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