quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

ANGOLA E O RACISMO NEOCOLONIAL PORTUGUÊS


«O kota (*) Ribeiro tá uatema (**), meu irmão
27/02/2013 Por Carlos Fonseca Deixa um Comentário
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«O editorial a que o ‘Público’ se refere, de autoria de José Ribeiro, foi publicado no passado dia 24 de Fevereiro no ‘Jornal de Angola’. Poderá ser lido aqui.»

«Conheço bem Angola, sem nunca ter lá vivido. Durante duas décadas as minhas doze a catorze deslocações e estadias por ano no terreno contribuíram, decisivamente, para tecer uma rede de amigos que ainda conservo – pretos, brancos e mestiços, sem distinções de cor de pele, quase todos afectos ao MPLA. Mesmo no Huambo (Nova Lisboa anterior) conversei, bebi e até dancei músicas tropicais, ao som do merengue e de bombardeamentos da UNITA posicionados ao redor da cidade – em 1992 estive lá dez dias em negociações de produtos alimentares com o comissário de então, entretanto falecido, e o director local do Banco Nacional de Angola.
Tive ainda a oportunidade de conhecer o Dr. Bernardino, branco e jovem médico. Homem de ímpar generosidade e humanismo que cuidava daquela desgraçada gente. Infelizmente viria a ser assassinado por homens da UNITA.
O assassinato do Dr. Bernardino adensou o meu anterior repúdio pela UNITA. Nunca entendi e critiquei sempre o apoio de Mário Soares ao movimento de Jonas Savimbi e as visitas de políticos portugueses à Jamba.
Em 1989, estava em Angola, quando se despenhou o avião na Jamba (cidade-estado da UNITA), em que viajavam João Soares (PS), Rui Gomes da Silva (PSD e agora comentador de futebol na SIC) e Nogueira de Brito (CDS). Sempre achei insensato e ofensivo dos direitos da soberania territorial a atitude de visitar a Jamba, por parte de políticos portugueses.» (Falta dizer que João Soares, Rui Gomes da Silva e Nogueira de Brito eram apoiantes-colaboracionistas do infame regime do Apartheid da África do Sul)
«Quanto à minha opinião sobre a UNITA e Jonas Savimbi, estamos conversados. Todavia, os artigos do director do ‘Jornal de Angola’, repescando inopinadamente as relações entre políticos portugueses e Jonas Savimbi são, a meu ver, coisa diferente – zelo e submissão por parte de um órgão de informação, beneficiário de ser jornal diário único do País e obviamente do regime, de 1975 a 2008.
Sobretudo, os artigos do género são inequívoca prova de que, na alma do director do diário angolano, permanece um ódio contra certos portugueses que se relacionaram com Savimbi, sendo grave tornar extensivo esse mesmo ódio a todo um País, Portugal, onde há imensos cidadãos amigos de Angola e incapazes de se rever na loucura do Ministério Público português.
De súbito e desmioladamente, o citado órgão de justiça português decide instaurar processo atrás de processo a políticos e dirigentes angolanos, deixando arrastar, se necessário até à prescrição, outros processos que envolvem personalidades portuguesas, de banqueiros a políticos, em alegados (adoro este jargão) actos de suspeita e elevada criminalidade – incluindo, a evasão fiscal.



Entidades portuguesas, incluindo as estruturas da justiça e certa imprensa, deveriam ser mais prudentes no que decidem e escrevem sobre Angola – ou sobre outra qualquer ex-colónia portuguesa, Brasil incluído. Na reestruturação própria da globalização, países emergentes, detentores de vastos recursos em alguns casos, são autónomos, independentes e poderosos no aproveitamento desses mesmos recursos outrora explorados por potências coloniais.
Em termos de corrupção, em Angola ou Portugal, aos poderes não há espaço para defender uns a favor de outros. Do Futungo de Belas ao Musseque do Prenda a distância é a mesma que da Quinta da Marinha ao Bairro das Marianas . Não é medida em metros ou quilómetros, mas através do abismo social entre quem se apropria das riquezas de um país e aqueles que sofrem de privações de vida minimamente digna, de pobreza e até de miséria.
Portanto, rogo-te ‘kota’ (*velho) Ribeiro que não estejas ‘uatema’ (**zangado). Combate também a corrupção nas tuas terras, que é visível e mantém contactos privilegiados com a aristocracia empresarial portuguesa.
O pós-colonialismo inverteu as relações entre povos. Chamam-lhe ‘neocolonialismo’. Eu chamo-lhe outra coisa, bem mais simples: multiplicar os plebeus, a favor dos privilegiados por fortunas ilegítimas e em expansão dos ex-colonizadores e ex-colonizados. Se estiveres atento, verás que, de um e de outro lado, eles, os investidores, se associam amigavelmente. Aqui ou aí. Evito citar nomes. Tanto quanto eu, tu conhece-los e em relação a alguns tens especial reverência – entendo, mas não aceito.» (In blog «Aventar»)

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