quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

É PRECISO DESMASCARAR AS MENTIRAS DOS ACTIVISTAS DO PSD


«A Irlanda aqui tão perto»

«A anunciada reestruturação da dívida irlandesa tem sido objeto de enorme confusão nos media. É fácil perceber porquê. Aquilo é complicado. Mas há limites. Domingo passado, Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário semanal, afirmava, com a sua habitual confiança, que a Irlanda, num "sucesso espetacular", tinha emitido dívida a 40 anos no valor de 20 mil milhões de euros a 3%, como se Irlanda tivesse ido "aos mercados". Asneira. A coisa é complicada, mas vale a pena tentar perceber.

1 - Devido à crise financeira a Irlanda foi obrigada a nacionalizar dois grandes bancos que se encontravam com insolventes e sem acesso a liquidez. O problema de liquidez foi resolvido através de empréstimos de emergência do Banco Central Irlandês - o famoso Emergency Liquidity Assistance (ELA). Com os depositantes a fugirem destes bancos, os empréstimos do BCI permitiram que os compromissos com os depositantes fossem assumidos. Entretanto, estes bancos foram fundidos num novo, o IBRC.

2 - O recurso ao ELA está longe de ser um exclusivo irlandês. O mesmo se passou (passa?) em Portugal. No entanto, estes empréstimos necessitam de "colateral", isto é, ativos que servem de garantia ao Banco central nos seus empréstimos. A banca Irlandesa não tinha ativos suficientes e a recapitalização pública era demasiado grande para o Estado se conseguir financiar nos mercados.

3 - A solução alternativa foi a emissão de notas promissórias de dívida do estado Irlandês ao novo banco reestruturado. O estado comprometeu-se a um conjunto de pagamentos a este banco ao longo de vários anos. Este novo banco ficou assim com ativos que podia dar como garantia no seu financiamento junto do BCI, resolvendo assim o problema de liquidez.

4 - Todavia, estes títulos de dívida tinham uma maturidade curta e juros elevadíssimos (indexados aos títulos de dívida pública irlandesa nos mercados). Depois de um período de carência de juros que terminava este ano, o esforço financeiro do estado irlandês nos próximos tempos seria brutal, obrigando a novas "ondas" de austeridade.

5 - O que o parlamento irlandês aprovou na passada semana foi a liquidação do IBRC com as notas promissórias a serem trocadas por títulos de dívida pública, com menos juros e maiores maturidades. Na prática, a dívida do estado Irlandês reduz-se radicalmente com esta troca de dívida.

6 - Dado o seu objetivo inicial (garantia nos empréstimos ao BCI), esta troca só foi possível com a aquiescência do BCE. O BCE permitiu, na prática, uma redução da dívida irlandesa com custos para si mesmo (as garantias valem bem menos agora) e os cidadãos irlandeses não serão obrigados a fazer o esforço que estava anteriormente previsto.»

«About the Author

Nuno Teles

Membro da Comissão de Auditoria da IAC»

(In «INICIATIVA PARA UMA AUDITORIA CIDADÃ À DÍVIDA» net)

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