terça-feira, 15 de janeiro de 2013

CRISTIANISMO E PODER



O Cristianismo ao longo dos séculos teve vários aspectos, foi a cores, não a preto e branco.
Inicialmente o Cristianismo surge no apogeu do Império Romano, como uma religião dos desfavorecidos, é o chamado Cristianismo Primitivo, que é analisado por Engels na obra «Contribuição Para a História do Cristianismo Primitivo».
Na época de crise do Império Romano, o imperador Teodósio, nascido no actual território da Espanha (Galiza), entre as diversas religiões do Império Romano escolheu o cristianismo para religião oficial do poder, no século IV (380). A ideia foi um só imperador, um só deus.
Esta escolha do imperador Teodósio veio a revelar-se acertada. De religião dos desfavorecidos o Cristianismo passou a religião do Poder, tudo isto durante o Império Romano. Quando o Cristianismo era a religião dos desfavorecidos, os cristãos foram perseguidos pelo poder romano.
Quando o cristianismo passou a religião do poder romano os cristãos de perseguidos passaram a perseguidores e instauraram um clima de terror religioso, contrário à tradição de liberdade religiosa do Império Romano. Os cristãos mataram muito maior número de pessoas não-cristãs quando tomaram o poder em Roma, do que o número de cristãos que o antigo poder romano tinha matado.
Quando o Império Romano do Ocidente foi politicamente destruído pelos bárbaros no século V (476), a única instituição do Império Romano que sobreviveu foi a Igreja Cristã.
Sendo a Igreja Cristã ou Católica do Império Romano uma instituição bastante instruída, conseguiu converter os guerreiros bárbaros invasores.
O Cristianismo de religião do poder imperial romano passou a religião da nobreza bárbara. A pouca instrução dos bárbaros fez com que estes adoptassem a religião do Império Romano e também a própria língua, parte deles.
A Península Ibérica foi unificada pela nobreza dos bárbaros visigodos, que adoptaram a religião cristã dos romanos, formando o Reino dos Visigodos.
O Cristianismo tornou-se a religião do poder das monarquias bárbaras.
Surpreendentemente, o cristianismo como religião do poder monárquico, vai crescer, muito para além das fronteiras do Império Romano. Só o Sul da Germânia ou Alemanha fazia parte do Império Romano, mas o cristianismo avançou por toda a Germânia ou Alemanha, até ao Mar Báltico. A palavra latina que designa a Alemanha é Germania, adoptada pela língua inglesa. A palavra Alemanha não tem origem no latim, mas na língua francesa (ela própria baseada no latim), porque os germanos que viviam junto à Gália eram os alamanos (alemanos, alemães) e daí surgir a palavra Alemagne (francês) ou Alemanha, que foi adoptada por todas as línguas latinas.
Depois o Cristianismo avançou para a Escandinávia. Também para a parte da Grã-Bretanha que não fazia parte do Império Romano (Escócia) e para a Irlanda. Avançou para toda a Europa Oriental e tornou-se a religião oficial do Império Russo. O imperador russo adoptou a título de czar, que é uma tradução russa de César, nome com origem no general romano Júlio César, que foi adoptado pelos primeiros imperadores romanos, que eram da família de Júlio César.
A influência na Rússia foi da Igreja Cristã do Império Romano do Oriente também chamado de Bizantino por ter a capital em Bizâncio (e a Igreja Cristã da Rússia, viria a ser designada por Igreja Cristã Ortodoxa).
Durante a Idade Média (século V – XV) a Igreja Católica dominou  a Europa e foi decisiva para expulsar os muçulmanos da Península Ibérica. É no contexto desta guerra religiosa que nasce Portugal no século XII. O poder da Igreja Católica era tão grande no século XII, que Portugal só se tornou juridicamente independente, através de decisão do papa, através do documento «Manifestis Probatum», de 1179, assinado pelo papa Alexandre III.

«Alexandre, Bispo, Servo dos Servos de Deus, ao Caríssimo filho em Cristo, Afonso, Ilustre Rei dos Portugueses, e a seus herdeiros, in 'perpetuum'. Está claramente demonstrado que, como bom filho e príncipe católico, prestaste inumeráveis serviços a tua mãe, a Santa Igreja, exterminando intrepidamente em porfiados trabalhos e proezas militares os inimigos do nome cristão e propagando diligentemente a fé cristã, assim deixaste aos vindouros nome digno de memória e exemplo merecedor de imitação. Deve a Sé Apostólica amar com sincero afecto e procurar atender eficazmente, em suas justas súplicas, os que a Providência divina escolheu para governo e salvação do povo. Por isso, Nós, atendemos às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomámo-la sob a protecção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos Sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos príncipes cristãos. E para que mais te fervores em devoção e serviço ao príncipe dos apóstolos S. Pedro e à Santa Igreja de Roma, decidimos fazer a mesma concessão a teus herdeiros e, com a ajuda de Deus, prometemos defender-lha, quanto caiba em nosso apostólico magistério.»

Na Idade Média o cristianismo era a religião da nobreza bárbara, era a religião do poder da nobreza bárbara.
No século XVI o alemão Lutero traduziu a Bíblia do latim para a língua alemã e fundou o protestantismo. Esta tradução alemã da Bíblia deu origem a sucessivas traduções para línguas faladas.
A tradução da Bíblia para alemão por Lutero e a fundação por este do protestantismo dividiu o cristianismo europeu ocidental, mas o protestantismo triunfante na Alemanha, na Inglaterra, na Holanda e na Escandinávia continuou a ser a religião da nobreza, do poder.
A expansão europeia, iniciada com os descobrimentos portugueses em 1415, deu origem, a uma grande progressão do cristianismo, na sua variante católica através de Portugal e da Espanha e na sua variante protestante através da Inglaterra.
O Cristianismo católico tem uma especificidade muito grande na Irlanda e na Polónia. A Irlanda foi conquistada e colonizada pela Inglaterra. A ideia de nação irlandesa ficou apenas vinculada à religião Católica, porque os ingleses impuseram a sua língua aos irlandeses e o nacionalismo irlandês, falando inglês, era católico contra o protestantismo inglês.
A Polónia, militarmente muito mais fraca do que o Estado alemão da Prússia, protestante e do que o Império Russo cristão ortodoxo, conseguiu manter a sua ideia de nação mantendo a sua língua e o catolicismo, que a diferenciava ao mesmo tempo dos alemães da Prússia protestantes e dos russos ortodoxos. O poder militar da Rússia e da Prússia era tão superior ao polaco, que a Polónia chegou a perder a independência dividida como troféu de guerra pela Prússia e pela Rússia.
No século XVIII, Luís XVI, vivia no sumptuoso Palácio de Versalhes e considerava de origem divina o poder absoluto que tinha, na qualidade de rei da França.
A descristianização da Europa tem origem no pensamento iluminista do século XVIII. Este iluminismo aplicado à política deu origem à Revolução Francesa de 1789 – 1799. Nesta Revolução foi implantada a República em 1792 e o rei Luís XVI e a Rainha Maria Antonieta foram guilhotinados.
A burguesia no século XIX toma o poder, e parte dela utiliza o cristianismo como religião do poder da burguesia.
No século XX, é sobretudo na América do Sul que surge um cristianismo dissociado do poder da burguesia, ligado às aspirações das classes desfavorecidas.
A ideia fulcral do cristianismo que foi trabalhada pelo poder foi a ideia de que a miséria na vida terrena seria compensada por uma vida eterna de bem-estar no Céu, depois da morte.
Actualmente a Contra-Revolução Neoliberal já não precisa da religião para se impor, baseia-se numa perversão da Ciência Económica, que dá origem ao fatalismo neoliberal que é a ideia da inevitabilidade do aumento da riqueza e do poder da alta burguesia, paralelamente ao empobrecimento das outras classes sociais.

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