domingo, 6 de janeiro de 2013

A ALEMANHA DO SÉCULO XXI VISTA POR UM ALEMÃO – CRÍTICA AOS SUB-EMPREGOS CRIADOS PELO SPD E APOIADOS POR ÂNGELA MERKEL


O SPD (um partido da «Internacional Socialista») criou o sub-emprego na Alemanha, dirigido pelo chanceler Schröder, nos princípios do século XXI (2003-05), isto é, um operariado pago com salários de miséria, ideia apoiada, posteriormente, por Ângela Merkel. No entanto, os sindicatos conseguiram convencer parte do patronato a renunciar a este retrocesso civilizacional, propondo alternativas. A seguir, vai a opinião de um sociólogo alemão, contra a corrente dominante nos «média» europeus tradicionais e muito acentuadamente nos «média» portugueses.


«O MITO DAS REFORMAS NA ALEMANHA» NOS COMEÇOS DO SÉCULO XXI

«Um fantasma percorre a Europa: a Alemanha vai bem, porque fez as reformas estruturais necessárias a tempo e agora compete aos países em crise fazer o mesmo. Assim vende Ângela Merkel a Agenda 2010 dos anos 2003-05, enchendo de orgulho o seu antecessor do SPD Gerhard Schröder, que se sente agora como o autêntico artífice do milagre do emprego alemão. O presente artigo pretende desmistificar este tão imponente argumento (…)
Perante (…) situação alarmante o governo de Schröder aprovou nos finais de 2002 a famosa Agenda 2010, também conhecida por reformas Hartz, em alusão ao presidente da comissão de peritos Peter Hartz, amigo de Schröder e chefe de pessoal da multinacional Volkswagen, condenado em 2007 a dois anos de prisão por vários delitos de corrupção e subornos no comité da empresa, em forma de viagens de luxo ao Brasil com prostituição incluída, a cargo da empresa.
As quatro leis Hartz consistiram na criação de Agências de Serviços Pessoais nas Empresas de Emprego (Hartz I); no fomento do autoemprego e dos mini-empregos, com salários inferiores a 400 euros por mês carentes de contribuições sociais (Hartz II). As empresas de emprego converteram-se em centros de emprego para os seus clientes (desempregados) (Hartz III). Por último o sistema de subsídios de desemprego sofreu uma importante reestruturação, reduzindo-se os benefícios e juntando o sistema de subsídios para desempregados de longa duração com outras ajudas sociais não contributivas para pessoas sem ingressos (Hartz IV).
Quais foram os resultados da Agenda 2010? O efeito mais imediato e profundo foi a dualização do mercado de trabalho com um grande sector de mini-empregos e de empregos subcontratados (mais de 7 milhões de pessoas) com grandes dificuldades no mercado laboral regular. Cada vez mais pessoas ficaram encurraladas entre empregos a 1 euro à hora, mini-salários subvencionados e o regresso ao desemprego, apesar de no outro mercado laboral a carência de profissionais qualificados atrai novos imigrantes bem preparados e converteu-se num sério problema para uma economia que gozava antes do melhor sistema de formação profissional do Mundo. Calcula-se que, uma percentagem superior a 20% dos assalariados alemães pertence à categoria dos trabalhadores pobres, um altíssimo valor no contexto europeu, e uma brecha salarial e social desconhecida na Alemanha do pós-guerra. Mais desigualdade e mais pobreza no meio de uma economia dinâmica é o efeito principal das famosas reformas.
(…)
Assim, as famosas reformas estruturais do governo alemão tiveram efeitos socioeconómicos, administrativos e jurídicos nefastos e representam o maior retrocesso jamais aprovado por um Parlamento da República Federal da Alemanha.
De onde vem então o relativo bom desempenho actual da Alemanha? Realmente, a economia alemã contradiz as certezas mais firmemente estabelecidas pela ciência económica: não é uma economia de serviços, mas sim industrial. O sector dos serviços articula-se à volta de um forte núcleo industrial; não é, porém, uma economia de novas tecnologias, mas sim de sectores de intensidade tecnológica média; não é uma economia com um mercado liberalizado, pelo contrário, este encontra-se densamente regulado; mais, trata-se de uma economia de altos custos salariais e de impostos relativamente altos, com sindicatos influentes e com muita intervenção pública.
A Alemanha não deslocalizou as partes de mais intensiva mão-de-obra para países de baixo custo, manteve sectores industriais integralmente no seu território. O fundamento da força económica alemã está em sectores industriais tradicionais como a construção de veículos e de maquinaria, a química, a electrotecnia, a tecnologia médica, os aparelhos ópticos e a protecção do meio-ambiente; todos eles articulados ao redor de uma grande variedade de grandes e médias empresas fortemente orientadas para a liderança no mercado global. Esta força resiste, inclusivamente, às más políticas económicas dos governos e permitiu às empresas alemãs reorientar as suas estratégias de exportação para os mercados emergentes, com a China à cabeça.
O ‘milagre’ é obra dos empresários e dos sindicatos alemães; não dos seus políticos e dos seus banqueiros.
A força alemã tem o seu fundamento último nas suas relações laborais cooperativas e na participação activa dos sindicatos na gestão das empresas. Foram, com efeito, os sindicatos que convenceram as empresas a renunciarem à flexibilidade externa com o ajuste através de despedimentos, e negociaram, como alternativa, uma ampla gama de medidas de flexibilidade interna com cálculos anuais de horas de trabalho, sistemas variáveis de jornada laboral (…)
Simplificando, um empresário alemão aproveita os momentos de conjuntura económica expansionista para investir em novos equipamentos e tecnologias, que permitem melhorar a produtividade da sua empresa e a competitividade dos seus produtos.
Na década anterior à crise, os custos laborais nominais por unidade produzida cresceram 30% na Espanha (igual à Grécia e a Portugal). Na Alemanha o aumento foi de 1,8%. (…) O milagre alemão é, portanto, consequência das fortalezas tradicionais da indústria e as relações laborais alemãs nada têm a ver com as supostas reformas dos começos do século XXI. Realmente, o único acerto dos governos alemães recentes foi a introdução de um conjunto de estímulos económicos no início da crise e o aumento da cobertura do «Kurzarbeit».

Em resumo, o resto da Europa pode aprender muito com os empresários alemães e bastante com os seus sindicatos, mas nada com os seus políticos e banqueiros.»

(Holm-Detlev Köhler es profesor titular de Sociología de la Universidad de Oviedo, in «El País»)

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