domingo, 30 de dezembro de 2012

UM OLHAR ANGOLANO SOBRE PORTUGAL 2012



O racismo contra os angolanos tem sido tão intenso em Portugal, nos últimos tempos, nomeadamente da facção pró-apartheid da África do Sul do PS, de que o mais conhecido é João Soares e do Bloco de Esquerda, os tais que viraram as costas ao presidente da República de Angola, por ele ser negro (embora tenham apresentado "justificações" diferentes, quem ouviu as "justificações" disparatadas do BE da altura pode ter ficado a pensar que quem fez um desfalque no BPN de 7 mil milhões de euros foi o "angolano" Oliveira e Costa e seus amigos), quando ele visitou Portugal, que achei por bem divulgar neste blog um texto de um angolano, a seguir.

«A crise
por Pepetela*

Para quem tem tantas ligações com Portugal como tenho, desde as familiares e emotivas até vivências, é com apreensão e tristeza que vou sabendo do que se passa aí no ultramar. Pode ser subjectividade apenas, mas das duas últimas vezes que estive em Portugal, este ano, senti ter voltado atrás no tempo, aos fins dos anos 50, princípios de 60, altura em que fingi estudar em Lisboa. Encontrei o mesmo ar entristecido das pessoas, olhos sem futuro para olhar. Claro, as vestes são mais garridas, há menos cinzentos e negros nos trajes, muito mais carros nas ruas. Mas os rostos, ou a vaga falta de fulgor nos rostos... Dá para recordar.
Não serei capaz nem ousaria analisar causas e caminhos. Não farei o que tantos estrangeiros fazem na minha terra, onde vêm nos dar lições sobre como deveríamos resolver os nossos problemas. E às vezes até temos direito a ensino à distância, nunca puseram aqui os pés mas dão lições à laia de comentários atirados para o éter ou para jornais.
Não sei como Portugal deve sair da crise, mas que vai sair, isso eu sei. Mais cedo ou mais tarde. E o problema é mesmo esse. Já tarda.
Toda a crise é mundial, mas esta mais que qualquer outra. Os americanos espirraram, os espertalhões lá se vão curando aos poucos, mas a Europa ressentiu-se e com ela o resto do planeta. Uns vão aguentando melhor, mas todos perdem. No caso de Portugal, a situação não é preocupante apenas no próprio país, pois sentimos também as vagas por aqui. Dirão que é pouca coisa. Também ainda temos pouco para perder, apesar da gabarolice que nos é reconhecida. Às vezes é só isso mesmo, gabarolice. E que nos faz pensar, eis o momento de nos exibir como grandes e poderosos, já que os outros estão com a corda ao pescoço. Não é um pensamento nobre e felizmente são raras essas pessoas. Mas existem e é triste.
Portugal precisa de vender o seu vinho e aí os interesses coincidem, nós gostamos de beber. Como esta, haverá muitas outras maneiras de nos ajudarmos uns aos outros. É necessário inventar os mil e um esquemas de dar a volta. Nesse aspecto, talvez esteja a faltar alguma imaginação.
Mas essencialmente o que quero dizer, neste momento em que as cabeças apontam certamente muitos caminhos diferentes, contraditórios, para a saída da crise, uns propondo A e outros B, Keynes contra Adam Smith ou Marx, em posições irredutíveis e irascíveis, talvez seja bom reflectir nos exemplos da História. Aqui usamos uma expressão que já tem mais de trinta anos. Quando alguém se queixa, ou a situação está mesmo empírica (entender: complicadíssima), dizemos: deixa para lá, em 1961 estávamos pior e resistimos. Portugal já passou por muitas crises, tremores de terra e invasões, ambições e traições. E resistiu. Quase por milagre, às vezes. Também vai sair desta. A receita parece ser sempre a mesma, mas os historiadores que me corrijam se digo asneira: a dado momento o povo se une, cerra os dentes, pára de se queixar, faz força, e o carro avança.
O problema, dirão, é como unir o povo, onde está o homem ou a ideia capaz de o levar à união? Normalmente as elites são muito ciosas do seu ego, tornam difícil pontos de encontro. Não sei, nem tenho de saber. Os portugueses descobrirão. Se eu fosse de rezas, diria: com a ajuda de Nossa Senhora. Como não sou, prefiro achar que nestas situações muito complicadas, até se pode levantar os olhos para o céu, como reflexo inconsciente, mas o importante é mesmo mover os olhos e com eles a cabeça, e com ela o corpo e com o corpo o destino.
Vão conseguir.
Estamos juntos.
*Escritor angolano, Prémio Camões em 1997. Licenciado em Sociologia, docente na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Foi vice-ministro da Educação, após a independência de Angola. Tem 71 anos» (In «DN» net)

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