sábado, 25 de agosto de 2012

QUEM INSPECCIONA AS 200 BOMBAS ATÓMICAS DE ISRAEL?


«O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou nesta sexta-feira a um membro do Congresso americano em visita a Israel que o Irã acelera a sua busca pela arma nuclear, ignorando as sanções internacionais.
"Ainda ontem, nós recebemos novas provas sobre o fato de que o Irã continua a acelerar seus esforços para obter a arma nuclear, ignorando totalmente os apelos da comunidade internacional", disse Netanyahu, de acordo com um comunicado de imprensa de seu gabinete, que cita o premiê em conversas com o representante republicano Mike Rogers.» (In «Terra Brasil» net)
Os jornalistas do «Terra Brasil net» ‘esqueceram-se’ de informar os seus leitores de que o Estado de Israel tem duzentas bombas atómicas e que ninguém fala em inspeccionar Israel.
A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) teve um super-apagão de memória e esqueceu-se de falar em inspeccionar as duzentas bombas atómicas de Israel.
Quase ninguém fala nas duzentas bombas atómicas de Israel. É um esquecimento muito conveniente e muito oportuno.


«O que há a dizer
Porque guardo silêncio, há demasiado tempo,

sobre o que é manifesto 

e se utilizava em jogos de guerra 

em que no fim, nós sobreviventes,

acabamos como meras notas de rodapé.

É o suposto direito a um ataque preventivo,

que poderá exterminar o povo iraniano,

conduzido ao júbilo 

e organizado por um fanfarrão,

porque na sua jurisdição se suspeita

do fabrico de uma bomba atómica.

Mas por que me proibiram de falar

sobre esse outro país [Israel] onde há anos

- ainda que mantido em segredo – 

se dispõe de um crescente potencial nuclear, 

que não está sujeito a qualquer controlo, 

já que é inacessível a qualquer inspecção?

O silêncio geral sobre esse facto,

a que se sujeitou o meu próprio silêncio, 

sinto-o como uma gravosa mentira

e coacção que ameaça castigar

quando não é respeitada: 

“anti-semitismo” se chama a condenação.

Agora, contudo, porque o meu país,

acusado uma e outra vez, rotineiramente,

de crimes muito próprios, 

sem quaisquer precedentes,

vai entregar a Israel outro submarino

cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras

para onde não ficou provada 

a existência de uma única bomba, 

se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que há a dizer.

Por que me calei até agora?

Porque acreditava que a minha origem, 

marcada por um estigma inapagável, 

me impedia de atribuir esse facto, como evidente,

ao país de Israel, ao qual estou unido

e quero continuar a estar.

Por que motivo só agora digo,

já velho e com a minha última tinta,

que Israel, potência nuclear, coloca em perigo 

uma paz mundial já de si frágil?

Porque há que dizer 

o que amanhã poderá ser demasiado tarde, 

e porque – já suficientemente incriminados como alemães – 

poderíamos ser cúmplices de um crime

que é previsível,

pelo que a nossa quota-parte de culpa

não poderia extinguir-se

com nenhuma das desculpas habituais.

Admito-o: não vou continuar a calar-me

porque estou farto

da hipocrisia do Ocidente;

é de esperar, além disso,

que muitos se libertem do silêncio,

exijam ao causante desse perigo visível 

que renuncie ao uso da força

e insistam também para que os governos

de ambos os países permitam

o controlo permanente e sem entraves,

por parte de uma instância internacional,

do potencial nuclear israelita

e das instalações nucleares iranianas.

Só assim poderemos ajudar todos,

israelitas e palestinianos, 

mas também todos os seres humanos

que nessa região ocupada pela demência

vivem em conflito lado a lado,

odiando-se mutuamente,

e decididamente ajudar-nos também.»

(Günter Grass, Prémio Nobel da Literatura em 1999)

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