terça-feira, 22 de agosto de 2017

Humanidade, uma espécie sem grande passado, sem grande presente e de futuro, previsivelmente mau, no curto prazo – II

 (Continuação) - II

A exploração do homem pelo homem foi durante milénios através da escravatura. Na Europa, a escravatura foi a base do trabalho na
Grécia Antiga e no Império Romano, havia uma escravatura muito maioritariamente de homens e mulheres brancos.
Após a queda do Império Romano do Ocidente a escravatura na Europa foi sendo substituída pela servidão da gleba, o servo não podia sair do domínio senhorial e era vendido, juntamente com as terras do senhor. Este tipo de servidão da gleba ainda vigorou na Rússia no século XIX. O czar Alexandre II acabou com a servidão da gleba na Rússia, através da Reforma Emancipadora de 1861 ou Emancipação dos Servos.
A expansão europeia deu origem a uma escravatura racista, essencialmente de negros, mas também de índios das Américas.
Foi esta escravatura racista que perdurou até ao século XIX.
Nos Estados Unidos só terminou na segunda metade do século XIX com a guerra-civil de 1861-1865, conhecida por Guerra da Secessão, porque os Estados esclavagistas do Sul tentaram separar-se dos Estados Unidos, formando uma Confederação de Estados esclavagistas.
O presidente Lincoln, do Partido Republicano, acabou com a escravatura nos EUA vencendo a Guerra da Secessão, mas foi assassinado por uma conspiração esclavagista, ainda antes do fim formal da guerra.
O Marquês de Pombal, durante o reinado de D. José I, aboliu a escravatura em Portugal continental e na Índia, em 1761. Porém, em todas as colónias portuguesas a escravatura só foi abolida em 1869, durante o reinado de D. Luís I.
Nos Estados Unidos e na África do Sul a escravatura foi substituída pelo regime de Apartheid, em que os negros tinham muito menos direitos que os brancos. O regime de Apartheid nos Estados Unidos terminou na década de 1960, em 1967, durante a presidência de Johnson do Partido Democrático, quando, depois de outros direitos, o Congresso sancionou o direito de voto para os negros.
Na África do Sul o Apartheid terminou em 1994 com a eleição de Nelson Mandela para a presidência da República.

O capitalismo e a Democracia deram-se muito bem com a escravatura e com o Apartheid, especialmente nos EUA e na África do Sul.

Humanidade, uma espécie sem grande passado, sem grande presente e de futuro, previsivelmente mau, no curto prazo - I


HumanidadeEtimologia latim, humanitas, atis, condição e natureza do ser humano. (In «DICIONÁRIO Houaiss DA LÍNGUA PORTUGUESA», Ed. Temas e Debates, Lisboa, 2003)

O livro do cientista inglês Charles Darwin, «A Origem das Espécies», editado em 1859, arrasou todas as teorias religiosas sobre a origem da Humanidade.



Pandora e Eva afinal nunca existiram, a não ser na imaginação humana.
A Origem das Espécies é um livro contra os deuses.
Os racionalistas não acreditam em deuses nem em deusas.
O livro de Friedrich Nietzsche «Para Além do Bem e do Mal» publicado em 1886 mostra o carácter selvático da espécie humana, explica que os conceitos Bem e Mal são relativos.
Este livro foi utilizado pelos nazis alemães para justificarem a sua barbárie, mas serve perfeitamente para explicar toda a barbárie humana, nomeadamente a barbárie em nome do Estado e a barbárie em nome da Democracia.
O cientista australiano Gordon Childe procurou explicar em livro que «O Homem Faz-se a Si Próprio» (1936).
O historiador romano Suetónio descreveu no livro «Os Doze Césares» (De vitis Caesarum), publicado em 121, os conceitos riqueza, poder e liberdade.
Para mim, estes quatro livros são essenciais para explicarmos o que é a espécie humana.
A selvajaria tem sido uma característica fulcral da espécie humana.
A espécie humana foi sendo caracterizada pelos homens bons e pelos homens maus e também pelas mulheres boas e boazonas e ainda pelas mulheres malvadas.
No Império Romano, muito antes do cristianismo, o casamento era monogâmico. Quem não fosse escravo podia ir para as piscinas municipais. As mulheres também podiam ir para as piscinas.
A civilização europeia actual resulta da destruição do Império Romano do Ocidente pelos bárbaros. O que ficou do império romano com mais aceitação no futuro foi o cristianismo; objectivamente, o cristianismo é um legado do Império Romano.
Na Europa a inteligência humana desenvolveu-se muito para o Bem e para o Mal.
A expansão europeia, por mar, iniciada por Portugal, levou o cristianismo para as colónias portuguesas, espanholas, inglesas, francesas e holandesas. Esta colonização europeia está associada a genocídios de grande magnitude, especialmente os realizados pelos espanhóis e pelos ingleses no continente americano. Depois da independência, os Estados Unidos prosseguiram com o genocídio dos índios, iniciado pelos ingleses.
A escravatura dos negros, em grande escala, foi iniciada pelos portugueses e continuada pelos espanhóis, pelos holandeses, pelos ingleses e pelos franceses.
Foi contra o cristianismo que se desenvolveu, no século XVIII, na Europa, o iluminismo-racionalismo, que está na base das ciências actuais.
O capitalismo começa por ser essencialmente comercial, mas com o desenvolvimento da Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra nos finais do século XVIII, as fábricas passaram a dominar o capitalismo.
O capitalismo conviveu bem com a escravatura, nomeadamente nos Estados Unidos.
Darwin e os seus seguidores explicaram que o homem e o macaco têm um antepassado comum.
Com a chamada Revolução Neolítica teorizada por Gordon Childe, o homem tornou-se sedentário, cultivou a terra, domesticou animais, construiu as suas casas e lançou as bases da exploração do homem pelo homem, que é o fulcro do capitalismo.

A evolução tecnológica fazia prever que essa evolução fosse acompanhada pelo triunfo dos bons na espécie humana. O nazismo alemão veio provar o contrário, o Mal Absoluto dominou a civilização alemã, quando era a mais avançada do Planeta Terra, no domínio tecnológico.

Cidadãos e cidadãs burlados e roubados pelo Capital com o colaboracionismo do regime político vigente – um caso concreto contado por uma jornalista ou as vigarices dos franceses da Altice-Meo


«[...]A questão é, pois, de lealdade e transparência na relação comercial. E esta não pode depender da boa ou má formação do comerciante: é imposta por lei. Mais precisamente uma lei de 2008, com a epígrafe "práticas comerciais desleais", que pune as ditas práticas com coimas de 250 a 3740,98 euros (pessoa singular) e de 3000 a 44 891,81 (coletiva). E o que é uma prática comercial desleal? O preâmbulo explica: "O carácter leal ou desleal da prática comercial é aferido utilizando-se como referência o consumidor médio. O presente decreto-lei classifica as práticas enganosas como ações enganosas e omissões enganosas". E, no artigo 7.º, especifica-se, sob a epígrafe "Ações enganosas": "É enganosa a prática comercial que contenha informações falsas ou que, mesmo sendo factualmente corretas, por qualquer razão, nomeadamente a sua apresentação geral, induza ou seja suscetível de induzir em erro o consumidor em relação a um ou mais dos elementos a seguir enumerados e que, em ambos os casos, conduz ou é suscetível de conduzir o consumidor a tomar uma decisão de transação que este não teria tomado de outro modo." Entre os elementos enumerados, encontramos "o preço, a forma de cálculo do preço ou a existência de uma vantagem específica relativamente ao preço". E, no artigo 9.º, "Omissões enganosas", lê-se: "É enganosa, e portanto conduz ou é suscetível de conduzir o consumidor a tomar uma decisão de transação que não teria tomado de outro modo, a prática comercial (...) que omite uma informação com requisitos substanciais para uma decisão negocial esclarecida do consumidor."

No Observador, Luís Aguiar-Conraria pergunta como é possível que a ASAE persiga criminalmente - pelo crime de especulação - quem vende bilhetes de futebol a preços inflacionados e nada possa fazer quanto ao restaurante. O exemplo é tanto mais interessante quando o crime de especulação não tem nada a ver com direitos do consumidor: visa proteger "interesses do mercado", seja lá isso o que for. Aliás, como frisa o economista, ninguém pode alegar que a compra de um bilhete a preço superior ao que nele consta não é uma decisão informada. As autoridades intervêm porque a lei obriga a isso? OK. Mas também há uma lei que obriga a proteger os direitos do consumidor. Que é das suas consequências?


Como se constata, não há. E não havendo as empresas sentem-se licenciadas para o assalto à mão armada. Veja-se o caso dos operadores de comunicações, no top das reclamações em Portugal. Neste mês, a Deco denunciou o facto de a Meo ter enviado uma SMS a "oferecer" "2Gb adicionais de internet grátis até 31/8", passando após esse dia o grátis a pago e obrigando os clientes a ligar para evitar que tal suceda. É uma "prática comercial agressiva", portanto proibida, mas a Meo arrisca. Porquê? Porque a história lhe diz que pode. Por exemplo em janeiro de 2014 baixou o preço de um serviço, o do pacote TVCine, de 15,48 euros para 10. Mas continuou a cobrar o valor anterior aos clientes que não deram pela alteração. Se reclamam, recusa reembolsá-los, alegando que lhes deu em troca "crédito no videoclube". Ação e omissão enganosas, sem qualquer dúvida. Que fez a Anacom? Zero. Mais: em novembro a mesma Meo aumentou, sem aviso, o preço do serviço a clientes em período de fidelização. Em julho, a Anacom obrigou-a a aceitar rescisões desses contratos, sem ónus, se efetuadas até 25 de agosto. Não bastando o incrível da data escolhida, em pleno período de férias, a Meo tudo faz para obstaculizar rescisões: a linha para o efeito tem esperas de horas - nunca informando ser possível descarregar um formulário de rescisão no site e submetê-lo no mesmo, opção de resto muito difícil de encontrar se não se souber da sua existência; mais escandaloso ainda, nas lojas insistem em que "não se pode rescindir ao balcão" (sucedeu comigo neste sábado). Incrível? Não, Portugal. E com leis claras e reguladores "dedicados". Imagine-se se era a selva.»

[Fernanda Câncio in «DN» pt, texto «O restaurante carteirista e outras fábulas da demissão do Estado» ]

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O meu primeiro post num blog foi este, publicado em 1 de Julho de 2003

terça-feira, julho 01, 2003

  • UNIÃO EUROPEIA



    Blair enganou os deputados britânicos, dizendo que o exército do Iraque tinha capacidade para usar armas de destruição maciça em 45 minutos.
    Afinal o poderosíssimo e organizadíssimo exército do Iraque podia atacar Londres e Washington em 45 segundos, com armas atómicas, químicas e biológicas ao mesmo tempo, isto é entre a decisão de atacar e o impacto nos alvos passavam apenas 45 segundos.

    Das selvajarias do fundamentalismo islâmico às selvajarias do fundamentalismo católico


    Agora que se fala da barbárie em nome do Islão, convém lembrar a barbárie em nome do Catolicismo.
    A Inquisição Católica do século XXI anda numa nova caça às bruxas. Persegue as mulheres e não as condena à fogueira, mas a longas penas de prisão. E a Inquisição Católica é contra o uso do preservativo e contra o uso da pílula ou de outros métodos anticoncepcionais. E depois mete na cadeia as mulheres, que engravidam por engano e praticam aborto, nos países onde a mafiosa Inquisição Católica se apoderou de parte do poder legislativo e do poder judicial. A América Latina está debaixo da poderosa Inquisição Católica do século XXI.
    O fundamentalismo protestante não é tão desumano como o fundamentalismo católico, porque os protestantes não são contra o uso do preservativo,  nem contra o uso da pílula e de outros anticoncepcionais.

    «Uma desgraça em quase toda a América Latina




     (...)
    (...)
    ler aqui»


    [In blog «O TEMPO DAS CEREJAS 2»]

    domingo, 20 de agosto de 2017

    Guerras imperiais contra países relativamente pequenos

    Leo Strauss, o filóloso das Direitas Ocidentais e da barbárie em nome da Democracia, teorizou o caos ou inferno criados pelas Democracias, a chamada selvajaria democrática, construída na rede Guantánamo e Sucurdais e nas guerras imperiais dos países da NATO, defendidas por muitos eutopeístas, na prática leostraussianos.



    «Divergências no seio do campo anti-imperialista

    Quando o seu país foi atacado pelos jiadistas, em 2011, o Presidente Bachar al-Assad reagiu a contra-corrente: em vez de reforçar os poderes dos serviços de segurança, ele diminuiu-os. Seis anos mais tarde, o seu país está em vias de sair vencedor da mais importante guerra desde a do Vietname. O mesmo tipo de ataque está em vias de se produzir na América Latina, onde suscita uma resposta muito mais dentro do habitual. Thierry Meyssan expõe aqui a diferença de análise e estratégia dos Presidentes Assad por um lado, Maduro e Morales pelo outro. Não se trata de colocar esses líderes em compita, mas de apelar a cada um deles para extrair lições políticas e tomar em boa conta a experiência das últimas guerras.

    | Damasco (Síria)
    +





    Em Maio de 2017, Thierry Meyssan explicava na Russia Today em que é que as elites sul-americanas se enganam quanto ao imperialismo dos EUA. Ele insistia acerca da mudança de paradigma dos conflitos armados actuais e a necessidade de repensar, radicalmente, a maneira de defender a pátria.
    A operação de desestabilização da Venezuela prossegue. Numa primeira fase, grupúsculos violentos, manifestando-se contra o governo, mataram transeuntes, ou seja cidadãos que se tinham juntado a eles. Num segundo tempo, os grandes distribuidores de géneros alimentares montaram uma rotura de abastecimentos nos supermercados. Depois, alguns membros das forças da ordem atacaram dois ministérios, apelaram à rebelião e entraram na clandestinidade.
    A imprensa internacional não cessa de atribuir ao «regime» os mortos das manifestações enquanto que numerosos vídeos atestam que eles foram deliberadamente assassinados pelos próprios manifestantes. Com base nestas falsas informações, ela qualifica o Presidente Nicolas Maduro de «ditador» como já o havia feito, seis anos atrás, vis-à-vis a Mouamar Kadhaffi e a Bachar al-Assad.
    Os Estados Unidos utilizaram a Organização dos Estados Americanos (OEA) contra o Presidente Maduro da mesma maneira como usaram anteriormente a Liga Árabe contra o Presidente al-Assad. Caracas, sem esperar ser excluída da Organização denunciou tal método e abandonou-a ela própria.
    No entretanto o governo Maduro apresenta duas falhas no seu activo:
    - uma grande parte dos seus eleitores não se deslocou às urnas aquando das eleições legislativas de Dezembro de 2015, deixando a oposição arrecadar a maioria no Parlamento.
    - deixou-se surpreender pela crise dos géneros alimentícios, quando, no passado, este tipo de manobra já tinha sido montado no Chile contra Allende e na Venezuela contra Chávez. Precisou de várias semanas para montar novos circuitos de aprovisionamento.
    Com toda a probabilidade, o conflito que começa na Venezuela não irá parar nas suas fronteiras. Ele abrasará todo o Noroeste do continente sul-americano e as Caraíbas.
    Um passo suplementar foi franqueado com preparativos militares contra a Venezuela, a Bolívia e o Equador, a partir do México, da Colômbia e da Guiana Inglesa. Esta coordenação é operada pela equipe do antigo Gabinete Estratégico para a Democracia Global (Office of Global Democracy Strategy); uma unidade criada pelo Presidente Bill Clinton, depois prosseguida pelo Vice-presidente Dick Cheney e pela sua filha Liz. A existência deste foi confirmada por Mike Pompeo, o actual director da CIA. O que levou, portanto, à menção na imprensa pelo presidente Trump da existência de uma opção militar dos Estados Unidos.
    Para salvar o seu país, a equipe do Presidente Maduro recusou seguir o exemplo do Presidente al-Assad. Segunda ela, as situações são completamente diferentes. Os Estados Unidos, principal potência capitalista, atacariam a Venezuela a fim de lhe roubar o seu petróleo, de acordo com um esquema muitas vezes repetido no passado, em três continentes. Este ponto de vista acaba de ser apoiado por um discurso recente do Presidente boliviano, Evo Morales.
    Lembre-mo-nos que em 2003 e 2011, o Presidente Saddam Hussein, o Guia Muammar Kadhafi e muitos conselheiros do Presidente Assad mantinham a mesma análise. Segundo eles, os Estados Unidos implicaram-se sucessivamente no Afeganistão e no Iraque, depois na Tunísia, no Egipto, na Líbia e na Síria unicamente para fazer cair os regimes que resistiam ao seu imperialismo e controlar os recursos de hidrocarbonetos do Médio-Oriente Alargado. Inúmeros autores anti-imperialistas seguem esta análise, na actualidade, por exemplo tentando explicar a guerra contra a Síria pela interrupção do projecto do gasoduto catariano.
    Ora, esta análise mostrou-se errada. Os Estados Unidos não buscavam nem derrubar os governos progressistas (Líbia e Síria), nem roubar o petróleo e gás da região, mas, sim destruir os Estados, para reenviar as populações à pré-história, para a época em que «o homem era o lobo do homem».
    Os derrubes de Saddam Hussein e de Muammar Gaddafi não restabelecerem a paz. As guerras continuaram apesar da instalação de um governo de ocupação no Iraque, depois governos na região incluindo colaboradores do imperialismo opostos à independência nacional. Elas continuam ainda atestando que Washington e Londres não queriam derrubar regimes, nem defender democracias, mas antes esmagar os povos. É uma constatação fundamental que altera a nossa compreensão quanto ao imperialismo contemporâneo.
    Esta estratégia, radicalmente nova, foi ensinada por Thomas PM Barnett desde o 11- de-Setembro de 2001. Ela foi publicamente revelada e exposta em Março de 2003 —quer dizer precisamente antes da guerra contra o Iraque— num artigo na Esquire, depois no livro homónimo do Pentágono The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono»- ndT), mas ela parece tão cruel que ninguém imaginou que pudesse vir a ser posta em acção.
    Trata-se para o imperialismo de dividir o mundo em dois : de um lado uma zona estável que beneficia do sistema, do outro um caos espantoso onde ninguém pense sequer em resistir, mas unicamente em sobreviver; uma zona na qual as multinacionais possam extrair as matérias primas, das quais precisam, sem terem que dar satisfações a ninguém.
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    Segundo este mapa, extraído de um Powerpoint de Thomas P. M. Barnett durante uma conferência no Pentágono em 2003, todos os Estados da zona rosada devem ser destruídos. Este projecto nada tem a ver nem com a luta de classes, no plano nacional, nem com a exploração dos recursos naturais. Depois do Médio-Oriente Alargado, os estrategas dos EU preparam-se para reduzir a ruínas o Noroeste da América Latina.
    Desde o século XVII e a guerra civil britânica, o Ocidente desenvolveu-se entre o medo do caos. Thomas Hobbes ensinou-nos a suportar a “Razão de Estado”, em vez de arriscar reviver esse tormento. A noção de caos só nos voltou a ser trazida com Leo Strauss, após a Segunda Guerra Mundial. Este filósofo, que formou pessoalmente numerosas personalidades do Pentágono, entendia construir uma nova forma de Poder mergulhando uma parte do mundo no inferno.
    A experiência do jiadismo no Médio-Oriente Alargado mostrou-nos o que é o caos.
    Tendo reagido como se esperava dele aos acontecimentos de Daraa (março-abril de 2011), enviando o exército para reprimir os jiadistas da mesquita al-Omari, o Presidente al-Assad foi o primeiro a compreender aquilo que se passava. Longe de aumentar os poderes das forças de segurança para reprimir a agressão externa, ele deu ao povo os meios para defender o país.
    Primeiro, levantou o estado de emergência, dissolveu os tribunais de excepção, libertou as comunicações de Internet, e proibiu às forças armadas de fazer uso das suas armas quando isso pudesse colocar em risco inocentes.
    Estas decisões contra-a-corrente implicavam pesadas consequências. Por exemplo, aquando do ataque a um comboio militar em Banias, os soldados abstiveram-se de usar as suas armas em legítima defesa. Arriscaram ser mutilados pelas bombas dos atacantes, e até morrer, mais do que atirar, pelo risco de ferir os habitantes que os viam ser massacrados sem intervir.
    Como muitos, à época, eu pensei que se tratava de um Presidente fraco e de soldados demasiado leais, que a Síria ia ser esmagada. No entanto, seis anos mais tarde, Bashar al-Assad e os exércitos sírios ganharam a sua aposta. Se a princípio, os soldados lutaram sozinhos contra a agressão estrangeira, pouco a pouco, cada um dos cidadãos foi-se envolvendo, cada um em seu posto, afim de defender o país. Os que não puderam ou não quiseram resistir exilaram-se. Claro, os Sírios têm sofrido muito, mas a Síria é o único Estado no mundo, após a guerra do Vietname (Vietnã-br), a ter resistido até que o imperialismo se cansa e desiste.
    Em segundo lugar, face à invasão de uma multidão de jiadistas originários de todas as comunidades muçulmanas, desde Marrocos até à China, o Presidente Assad decidiu abandonar uma parte do território para conseguir salvar o seu Povo.
    O Exército Árabe Sírio recuou para a zona da “Síria útil”, quer dizer para as cidades, abandonando as zonas rurais e os desertos aos agressores. Enquanto Damasco velava, sem nenhuma falha, pelo aprovisionamento de alimentos a todas as regiões que controlava. Contrariamente a uma ideia feita no Ocidente, apenas houve fome nas áreas controladas pelos jiadistas e em algumas cidades sitiadas por eles; os «rebeldes estrangeiros» (perdoem o “oxímoro”), aprovisionados pelas associações «humanitárias» ocidentais, utilizaram a distribuição de pacotes de alimentos para controlar as populações que eles próprios submetiam à fome.
    O povo sírio constatou por si próprio que apenas a República, e não, os Irmãos Muçulmanos e seus jiadistas, o alimentava e o protegia.
    Em terceiro lugar, o Presidente Assad traçou, aquando de um discurso pronunciado a 12 de Dezembro de 2012, a maneira como ele pensava refazer a unidade política do país.
    Ele indicou, nomeadamente, a necessidade de redigir uma nova constituição e de submetê-la à adopção por uma maioria qualificada do Povo, depois proceder à eleição democrática da totalidade dos responsáveis institucionais, neles incluído o Presidente, é claro.
    À época, os Ocidentais fizeram troça da pretensão do Presidente Assad em convocar eleições em pleno período de guerra. Hoje em dia, todos os diplomatas envolvidos na resolução do conflito, incluindo os das Nações Unidas, apoiam o plano Assad.
    Enquanto os comandos jiadistas circulavam por todo o país, nomeadamente em Damasco, e assassinavam políticos em suas casas com suas famílias, o Presidente Assad encorajava os seus opositores internos a pronunciarem-se. Ele garantiu a segurança do liberal Hassan al-Nouri e do marxista Maher al-Hajjar afim de que assumissem, também, o risco de se apresentarem à eleição presidencial de Junho de 2014. Apesar do apelo ao boicote pelos Irmãos Muçulmanos e pelos governos Ocidentais, apesar do terror jiadista, apesar da presença no exílio, no exterior, de milhões de cidadãos, 73,42% dos eleitores responderam presente.
    Identicamente, desde o início da guerra, ele criou um Ministério da Reconciliação Nacional, o que jamais se vira num país em guerra. Ele confiou-o ao presidente de um partido aliado, o SSNP, de Ali Haidar. Este negociou e concluiu mais de um milhar de acordos promovendo a amnistia(anistia-br) de cidadãos que havia pegado em armas contra a República e a sua integração no seio do Exército Árabe Sírio.
    Durante esta guerra, o Presidente Assad jamais usou a força contra o seu próprio Povo, por muito mal que digam aqueles que o acusam gratuitamente de torturas generalizadas. Assim, por exemplo, ele nunca estabeleceu a conscrição em massa, o recrutamento obrigatório. É sempre possível a um jovem escapar ao serviço militar. Procedimentos administrativos permitem a qualquer cidadão do sexo masculino escapar ao serviço nacional se ele não quiser defender o seu país de armas na mão. Apenas os exilados, que não tiveram a oportunidade de proceder a estas “démarches” podem estar em contravenção das leis.
    Durante seis anos, o Presidente Assad não parou de, por um lado, apelar ao seu povo, de lhe conferir responsabilidades e, por outro, de tentar alimentá-lo e protegê-lo tanto quanto podia. Ele assumiu sempre o risco de dar antes de receber. É por isso que, hoje em dia, ele ganhou a confiança do seu Povo e pode contar com o apoio activo.
    As elites sul-americanas enganam-se quando continuam a luta das décadas precedentes por uma mais justa distribuição das riquezas. A luta principal não é mais entre a maioria do povo e uma pequena classe de privilegiados. A escolha que se colocou aos povos do Médio-Oriente Alargado e à qual os Sul-americanos terão que responder, por sua vez, é a de defender a Pátria ou morrer.
    Os factos provam-no: o imperialismo contemporâneo não visa mais, em especial, meter a mão nos recursos naturais. Ele domina o mundo e pilha sem escrúpulos. Agora, o que ele pretende, também, é esmagar os Povos e destruir as sociedades das regiões nas quais explora já os recursos.
    Nesta era de destruição, apenas a estratégia de Assad permite ficar de pé e livre.
    Tradução
    Alva»

    [In «Red Voltairte» versão em português]