quinta-feira, 27 de abril de 2017

O 25 de Abril e a Troika

O 25 DE ABRIL PARA OS JOVENS ACTUAIS


Para os jovens actuais o 25 de Abril é desemprego, trabalho muito mal pago, precariedade, fome e miséria.
O 25 de Abril só é importante para quem já tinha idade para pensar em 1974.

Para quem nasceu depois de 25 de Abril de 1974 comemorar o 25 de Abril é comemorar a transformação de Portugal numa colónia da Alemanha, que já ordenou que com o «Tratado Orçamental» assinado pelo actual regime (PSD + PS + CDS) Portugal está condenado a empobrecer cada vez mais, com mais desemprego, com piores salários, com mais fome, com mais miséria.
O «Tratado Orçamental» empurra a maioria dos portugueses ou para a emigração ou para a pobreza «eterna».
A greve demográfica diz o que os jovens actuais pensam do 25 de Abril, que foi uma revolução que criou um regime onde não vale a pena viver.

Se antes era pior era muito mau, mas agora  a situação também é muito má.

Sob o jugo de Passos Coelho, Paulo Portas, Cavaco, Vítor Gaspar, Maria Luís Albuquerque e do Conselho de Finanças Públicas, Portugal era governado por cipaios às ordens da selvajaria alemã, que tem por objectivo destruir a sociedade portuguesa.

O governo de António Costa, apoiado pelo Bloco de Esquerda, pelo PCP e pelos Verdes é um governo de resistência à selvajaria alemã, dentro de pouco tempo apoiada por Macron. A selvajaria alemã não tem limites, Auschwitz demonstou-o.

domingo, 23 de abril de 2017

Macron - o Frankenstein que é uma mistutura de Sarkozy + Hollande + Pétain

 O que têm em comum Sarkozy, Hollande e Pétain – a submissão ao imperialismo alemão.
Macron é o candidato de Berlim nas presidenciais francesas, da Troika, da austeridade, do desprezo pelo factor trabalho e da subserviência à alta burguesia.

"No Público.es, este texto sublinha bem alguns aspectos «interessantes» da ascenção de Macron. 
«La comisión Attali permitió a Macron codearse con grandes empresarios, como el propietario de la compañía de seguros Axa, Claude Bébéar; el presidente de Nestlé, Peter Brabeck; o el gestor de fondos de inversiones Serge Weinberg. De hecho, este último lo promocionó como gerente asociado del Banco Rothschild en Francia.
Tanto como inspector de finanzas o banquero, “Macron siempre supo destacar por encima de sus compañeros y esto le ha permitido rellenar su agenda de contactos”, afirma Endeweld. Unos vínculos con las élites económicas que se estrecharon durante su paso por el Ministerio de Economía.
Por este motivo, no sorprende la simpatía que despierta la candidatura de Macron entre buena parte de los dirigentes del Cac40 (la bolsa de París). (…) Dirigentes de multinacionales francesas componen, asimismo, el equipo de campaña de Macron.


 Los responsables de En Marche! han reunido una parte significativa de sus fondos a través de fiestas privadas muy chic en las que piden donaciones a los invitados. (…) A través de un préstamo bancario de 8 millones de euros más las donaciones privadas, el líder centrista “ha prácticamente alcanzado los 21 millones, el presupuesto máximo de un candidato a las presidenciales”. Gracias a sus contactos con las élites políticas y económicas, el joven Macron ha puesto en marcha toda una máquina electoral.»"

[Cit in blog «Entre as brumas da memória»]

Recordar a escravatura

«Escravatura e terror colonial

O Presidente da República falou recentemente sobre as responsabilidades do Estado português na abolição da escravatura em partes do seu território. Será que o abolicionismo “lava mais branco(s)”?

Quando penso na escravatura e no terror colonial, que causaram a mutilação e a morte de vários milhões de “indígenas” da chamada “África negra”, tenho presentes dois livros essenciais: “O Coração das Trevas”, extraordinária novela de Joseph Conrad publicada pela primeira vez em 1902; e “O Fantasma do Rei Leopoldo – O terror colonial no Estado do Congo 1884-1908”, impressionante ensaio histórico do jornalista norte-americano Adam Hochschild publicado pela primeira vez em 1998.
Mas convirá acrescentar a esta curta bibliografia pelo menos mais estes dois textos: “O Solilóquio do Rei Leopoldo”, panfleto escrito em 1905 por Mark Twain para caricaturar o monarca belga assassino; e “O Crime do Congo”, escrito em 1909 por Sir Arthur Conan Doyle, criador do genial Sherlock Holmes. Para Sir Arthur, os terríveis crimes cometidos no Congo superavam todas as atrocidades anteriores, nesta e noutras paragens africanas dominadas pelas potências coloniais europeias: “Houve expropriações como a de Inglaterra pelos normandos, ou a da Irlanda pelos ingleses. Houve chacinas em aldeias como as dos sul-americanos pelos espanhóis ou as das nações submetidas pelos turcos. Mas nunca antes tinha havido semelhante mistura de expropriações e carnificinas absolutas realizadas sob o odioso disfarce da filantropia e tendo por motivo o mais vil dos interesses comerciais.”
Claro que há outros testemunhos imprescindíveis, como o do Relatório Casement, escrito em 1903 pelo diplomata irlandês Roger Casement, que anotou com meticulosidade burocrática as trapaças e atrocidades tremendas de que teve conhecimento como, por exemplo, as cestas cheias de mãos cortadas tanto a adultos como a crianças. Roger Casement era anti-imperialista e acabou por ser executado.
Também vale a pena contar um episódio passado com o explorador Henry M. Stanley (esse mesmo, o do “Doctor Livingstone, I presume”), contratado pelo rei Leopoldo para “espetar” as lanças deste em África: “Tinha comprado em Londres várias baterias eléctricas, as quais, ao fixá-las no braço por baixo da casaca, comunicavam com uma fita que passava pela palma da mão do irmão branco, e quando este dava ao irmão negro um cordial aperto de mão, o irmão negro ficava muito espantado perante a tão grande força do irmão branco, porque o deixava a cambalear só com esse fraterno aperto de mão. Quando o nativo lhe perguntava sobre a tão grande disparidade de forças entre o seu irmão branco e ele, dizia-lhe que o irmão branco até era capaz de arrancar árvores.” E assim Stanley conseguiu convencer vários chefes africanos a entregar as suas terras ao rei Leopoldo da Bélgica, por via de tratados por eles firmados.
Vem isto a propósito de recentes afirmações do Presidente da República acerca da escravatura e das responsabilidades históricas do Estado português na sua abolição em partes do seu território. Num artigo notável dado à estampa no “Público” (a 18 de Abril), o historiador Miguel Bandeira Jerónimo (ICS de Lisboa) e o investigador José Pedro Monteiro (CES de Coimbra) dizem que as afirmações do Presidente “revelam-se particularmente desfasadas das realidades histórica e historiográfica”, lembrando que “a tolerância com o tráfico de escravos e a escravatura imperou durante todo o século xix” e que a sua “abolição de jure não acarretou uma emancipação de facto nem tinha tal objectivo” (supostamente, o da adesão de Portugal “a um ideal humanista e virado para o futuro”). E denunciam que “a insistência na higienização do passado e no obscurecimento das partes espinhosas da história nacional é constante”.
Noutro artigo, quanto a mim lamentável, publicado no mesmo dia e no mesmo jornal, o “historiador e romancista” João Pedro Marques afirma que as declarações do PR, que ele exalta, “incomodaram aqueles que ainda gostam de pensar a escravatura à maneira iluminista, como uma culpa ocidental, e que, em conformidade, ainda exigem uma expiação, mesmo que apenas em forma verbal, na velha tradição marxista-leninista da autocrítica”. Ora, é precisamente este o meu caso. Embora nunca tenha sido nem marxista nem leninista, e considere que a autocrítica não é um exclusivo dos seguidores de Marx e de Lenine. Mas é óbvio que não sou adepto de “expiações” rituais, tal como não acredito em “milagres”.
Todavia, o distinto “historiador e romancista” não se ficou por ali. Escreveu também isto: “Os que gostam de acentuar o papel dos países ocidentais nas muitas injustiças inerentes à escravatura esquecem-se geralmente de dizer que foram esses mesmos países que puseram fim a tais injustiças.” O que é, no mínimo, uma afirmação extraordinária! Séculos de escravatura e terror colonial, com milhões de mutilados e chacinados, são pura e simplesmente “branqueados” pelo supremo e corajoso “sacrifício” que consistiu na abolição da escravatura. Será que o abolicionismo lava mais “branco(s)”? Haja Deus…»
[Alfredo Barroso in jornal «i» net]

sábado, 22 de abril de 2017

Democracia e Direitos Humanos


Foram os gregos que inventaram a Democracia. Na cidade-estado de Atenas foi onde a Democracia mais se desenvolveu, na Grécia Antiga. Considerando a época (século V a.C.) foi um grande avanço para a Humanidade. No entanto, a Democracia grega era incompatível com o conceito Direitos Humanos, era uma Democracia esclavagista.
O pensamento iluminista europeu do século XVIII é muito diversificado, estando grande parte dele disperso por artigos da «Enciclopédia», pelo que recorro muito ao «Contrato Social» (1762) de Jean-Jacques Rousseau (1712 -1778), que sintetiza os principais aspectos políticos do iluminismo e do conceito Direitos Humanos. Jean-Jacques Rousseau defendeu a República contra a Monarquia, a soberania popular, através do voto livre universal (masculino) num ambiente de liberdade de expressão de pensamento, e definiu alguns aspectos fundamentais do conceito Direitos Humanos, ao condenar total e absolutamente a escravatura, isto em pleno século XVIII, quando a escravatura só acabou nos finais do século XIX.
Jean-Jacques Rousseau foi um entre muitos iluministas que tinham as ideias que ele expôs no «Contrato Social», mas por ser um livro denso e de síntese foi considerado «a Bíblia da Revolução Francesa de 1789», ou por outras palavras a síntese do pensamento político iluminista europeu do século XVIII mais avançado, que foi a ideologia da Revolução Francesa de 1789, que foi fundadora da Democracia Contemporânea em oposição à Democracia grega esclavagista e ao Parlamentarismo da Inglaterra também esclavagista e ainda em oposição ao iluminismo deturpado da fundação dos Estados Unidos, deturpado numa questão fulcral, porque o iluminismo norte-americano, importado da Europa, também era esclavagista.
E também não podemos esquecer o livro do iluminista mais antigo Montesquieu (1689-1755) «O Espírito das Leis» (1ª ed. 1748) que ao defender a separação dos três poderes do Estado legislativo, executivo e judicial, e a supremacia do poder legislativo, foi também decisivo na Revolução Francesa de 1789. Esta ideia em 2017 é quase universal.
Durante a Revolução Francesa de 1789-1799 Jean-Jacques Rousseau foi considerado um herói nacional da França e em 11 de Outubro de 1794, pela Convenção, foi realizada uma cerimónia grandiosa de trasladação dos seus restos mortais para o Panteão da França, em Paris.
Ora, J-J Rousseau foi um dos fundadores da Democracia Contemporânea não esclavagista, em oposição à Democracia Grega esclavagista, ao Parlamentarismo da Inglaterra esclavagista e à Democracia dos Estados Unidos também esclavagista. É também um dos criadores do conceito Direitos Humanos.
A escravatura foi proibida pela I República da França (também conhecida por Convenção na 1ª fase), em 4 de Fevereiro de 1794, em França, e também em todas as colónias francesas.
Os três conceitos síntese da Revolução Francesa de 1789 Liberdade, Igualdade, Fraternidade, falharam todos no curto prazo, porque esta foi uma revolução fracassada no curto prazo.
Montesquieu, Jean-Jacques Rousseau e outros filósofos iluministas, nomeadamente em artigos na «Enciclopédia» (1750 – 1772), como atrás foi referido, dirigida por d'Alembert e Diderot lançaram as bases teóricas da Democracia Contemporânea. O pensamento iluminista, aqui referenciado,o mais avançado, foi de tal maneira inovador, que deu origem à Revolução Francesa de 1789 – 1799.
A Revolução Francesa de 1789 – 1799 foi uma revolução falhada. Acabou com um golpe de Estado dirigido por Napoleão Bonaparte, que viria a criar um novo tipo de monarquia, em que ele foi o imperador. Napoleão Bonaparte é dos personagens mais extraordinários da História da Europa e do Mundo. Foi a Revolução Francesa de 1789 – 1799, que criou condições para a ascensão de Napoleão Bonaparte. Depois de implantada a I República na França, em 1792, e da execução na guilhotina do rei Luís XVI e da rainha Maria Antonieta, em 21 de Janeiro de 1793, praticamente toda a Europa entrou em guerra com a França, nomeadamente a Inglaterra parlamentarista-monárquica. Neste ambiente de guerra, os chefes militares competentes eram essenciais. Em 1793 Napoleão Bonaparte venceu os ingleses em Toulon, mostrando capacidades de chefia militar invulgares, que lhe permitiram uma ascensão rápida no exército da França revolucionária.
O conceito liberalismo é utilizado para definir a Revolução Francesa de 1789 – 1799. Liberalismo é o «conjunto de ideias e doutrinas que defendem a liberdade de consciência e procuram garantir as liberdades individuais, no campo da política, da moral, da religião, da economia…» (segundo o «Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea» da Academia das Ciências de Lisboa», Ed. Verbo, Lisboa, 2001). É muito usual dizer a Revolução Liberal Francesa de 1789 – 1799.
O escocês Adam Smith (1723 – 1790) foi o principal teórico do liberalismo económico, com a sua obra «Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações» (1776). Afirmava Adam Smith que «a mão invisível do mercado» regulamentaria correctamente os preços e os salários.
No século XVIII o conceito liberalismo era um conceito revolucionário, que se opunha ao absolutismo monárquico e à economia bloqueada por privilégios feudais, que beneficiavam o clero e a nobreza, assim como nas primeiras décadas do século XIX. O liberalismo foi apresentado como correspondendo às aspirações da burguesia e das chamadas classes populares. A sua prática, porém, veio a demonstrar que beneficiava, preferencialmente, a burguesia.
Os historiadores europeus mais consagrados consideram que o acontecimento mais importante de 1789 a 2017 na História da Humanidade foi a Revolução Liberal Francesa de 1789, pelo que inaugurou uma nova Idade ou Era na qual ainda estamos que é a Idade Contemporânea.
A Revolução Liberal Francesa de 1789 foi uma revolução falhada na perspectiva dos interesses globais das classes populares e na questão dos Direitos Humanos, porque a proibição da escravatura (1794) foi episódica, porque foi restaurada nas colónias da França, em 1802, por Napoleão Bonaparte, mas foi bem-sucedida na liquidação dos privilégios feudais do clero e da nobreza, na criação de um Sistema Público de Ensino [articulado em Primário, Liceal (ou Secundário) e Universitário] e na criação do Código Civil, que considerava todos os cidadãos iguais perante a lei.
A Revolução Liberal Francesa e o desenvolvimento da Revolução Industrial acabaram por dar origem a um tipo de capitalismo que beneficiava, abertamente, a burguesia, o liberalismo evoluiu e tornou-se um meio de opressão da burguesia sobre as classes assalariadas. A tal «mão invisível do mercado», tão elogiada pelo escocês Adam Smith, acabou por segurar um chicote, que chicoteava o proletariado.
Em 1848 a Europa Ocidental e Central foi abalada por um conjunto de revoluções transnacionais, que começaram em França.
Nesta altura estavam em actividade os filósofos alemães Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895) que viriam a marcar, profundamente, o século XX. Exactamente em 1848 Marx e Engels publicaram a obra conjunta «Manifesto do Partido Comunista».
Lenine dizia que a Revolução Liberal Francesa de 1789, a que ele chamou «a Grande Revolução» tinha dois objectivos fulcrais que eram a Liberdade e a Igualdade, oficialmente eram três: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.
Ora, para Lenine a Revolução Liberal Francesa de 1789 falhou totalmente no objectivo Igualdade.
Para Marx e para Lenine a Igualdade era mais importante que a Liberdade, e a Fraternidade só era possível depois da Igualdade.
(Karl Marx fez a melhor crítica de sempre às desigualdades do sistema capitalista, mas a alternativa que propôs, foi aplicada na Rússia Soviética e não resistiu ao teste da prática).
Pessoalmente, acho que a Liberdade é tão importante como a Igualdade.
A ideia de Democracia desenvolveu-se no sistema capitalista. É certo que não foi por decisão filantrópica da burguesia, mas fruto das lutas dos trabalhadores assalariados, organizados em sindicatos, que forçaram a burguesia a fazer cedências. Os direitos políticos das mulheres foram ignorados pelos iluministas mais avançados, mas estes iluministas ao defenderem a Liberdade criaram o ambiente teórico em que as mulheres, usando a Liberdade, reivindicaram com sucesso os seus direitos políticos.
A implantação do marxismo-leninismo na Rússia e noutros Estados da Europa Oriental, que proclamava uma sociedade sem classes, foi um factor de pressão para que a burguesia nos países capitalistas da Europa, aceitasse a diminuição das desigualdades sociais.
 O modelo de Democracia que poderemos considerar mais desenvolvido concretizou-se na Europa Ocidental, na segunda metade do século XX, nomeadamente na Suécia e na Noruega. Ao lado da liberdade de expressão de pensamento e da soberania popular expressa através do voto em eleições livres, desenvolveu-se o chamado Estado Social, com um Serviço Nacional de Saúde universal e gratuito, um Sistema Público de Ensino universal e gratuito, e com um serviço social de apoio aos desempregados e com direitos laborais significativos para os assalariados.

Em 2017, parece-me que o objectivo da Esquerda não deve ser ressuscitar a ideia de «ditadura do proletariado», mas inventar um novo conceito de democracia, que ao lado da liberdade de expressão de pensamento e do respeito pelos Direitos Humanos, exija uma grande redução das desigualdades sociais. Parece-me necessária uma democracia política, baseada no conceito de Jean-Jacques Rousseau de soberania popular, expressa através do voto em eleições livres, num contexto de liberdade de expressão de pensamento, associada a uma democracia económica e a uma democracia social.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Capriles quer uma guerra civil a que chama paz



Se Capriles chegar ao poder irá fazer na Venezuela o que Pinochet fez no Chile. Pinochet foi apoiado pelos Estados Unidos e pela CEE.

A Guerra Fria no domínio da cultura

«Documento confidencial dos serviços secretos norte-americanos revela as manobras destes para aumentar as divergências nos pensadores de esquerda. Sem perceberem que bastava normalmente deixá-los em paz para isso


Num relatório confidencial escrito em 1985, e que acabou de ser tornado público, segundo noticia o site Mediaparte, confirma-se que a CIA seguiu de perto a vida intelectual francesa e as suas questiúnculas internas. Vigiava Sartre, apreciava os "Novos Filósofos", analisava Foucault e Derrida. Agentes secretos foram obrigados a estudar aplicadamente o estruturalismo francês.Objectivos: ajudar a aumentar as divergências da esquerda intelectual francesa e aumentar a divisão em termos mundiais.
Este documento redigido em 1985 foi recentemente desclassificado e colocado no acesso público ao abrigo do Freedom of Information Act, nele a CIA revela que estudou afincadamente os pensadores da “French Theory”, seguindo com particular atenção nomes como Michel Foucault, Jacques Lacan, Roland Barthes, Jean Paul Sartre.
O documento intitulado “France: Defection of the Leftist Intellectuals” (França: Deserção dos Intelectuais de Esquerda) examina as várias correntes de pensamento francesas, e estuda as possibilidades de manipulação dos intelectuais de modo a garantir a sua divisão e a prevalência de correntes de opinião anti-comunistas e anti-soviética.
O documento analisa a história dos intelectuais em França, argumentando que normalmente existia um certo equilíbrio entre as esquerda e a direita nos pensadores franceses, mas que esse equilíbrio foi rompido no pós-Segunda Guerra Mundial, devido à associação de grande parte da intelectualidade de direita, com o colaboracionismo com a ocupação da Alemanha nazi. Os agentes autores do relatório, que não são públicos, congratulam-se com o retorno do pensamento de direita.
O documento coloca a importância da revelação dos “crimes do Estalinismo” no abandono de posições de esquerda por parte dos intelectuais franceses, e que esses crimes e gulags permitiam aos EUA aparecer como democracia, mesmo quando apoiavam ditaduras,torturas, assassínios e golpes de Estado na América Latina.
O relatório apontava Sartre como um grande problema, devido às suas posições “anti-imperialistas”. O que entusiasmava mais os agentes norte-americanos era o aparecimento de correntes como “os Novos Filósofos”, com Bernard-Henry Levy e André Glucksmann, com estes a merecer um apêndice, em forma de bibliografia, no relatório dos espiões de Washington. O documento apontava que se devia apoiar estes contra a “última clique de sábios comunistas”, que englobaria Sartre, Barthes, Lacan e Althusser.
Neste combate contra o pensamento de esquerda e para enfraquecer “o comunismo”, o relatório sublinhava a importância do papel de “marxistas reformados”, como Michael Foucault e Lévi-Strauss, que, segundo os espiões, estavam a “demolir a influência marxista nas ciências sociais”, porque, “[este tipo de pensador vindo do marxismo] era ainda mais eficazes para minar o marxismo, eram intelectuais que eram conhecidos por ser uns fervorosos aplicadores do marxismo nas ciências sociais, mas que tinham acabado por a repensar e rejeitar o conjunto dessa tradição”.    
Esta preocupação da espionagem norte-americana com os estruturalistas franceses não era uma atividade desenquadrada: a “agência”, como é conhecida pelos seus, investia muito na “guerra cultural”. Thomas W. Braden, antigo supervisor das atividades culturais da CIA, confessava o seu orgulho nesse trabalho: “eu recordo-me da minha imensa alegria quando a Orquestra Sinfónica de Boston [sustentada financeiramente pela CIA] conseguiu mais aplausos para os EUA, em Paris, que Jonh Foster Dulles [antigo secretário de Estado dos EUA] e Dwight D. Eisenhower [presidente dos EUA de 1953 a 1961] poderiam conseguir fazendo centenas de discursos”. Uma das frentes mais importantes da Guerra Fria decorria no terreno cultural, com a Congress for Cultural Freedom a distribuir muitos milhões de dólares a agentes culturais que apoiassem os EUA e combatessem o comunismo. Este poderoso “Mecenas” da cultura, tinha representações em mais de 35 países, contavam com muitas e prestigiadas revistas e oferecia uma grande quantidade de bolsas.»
[In jornal «i» net]  

A corrida armamentista dos EUA para uma guerra nuclear e a subserviência das suas colónias europeias


«Escalada nuclear en Europa: Estados Unidos ensaya la bomba B61-12

Estados Unidos acaba de realizar un ensayo de los componentes no nucleares de la súper bomba atómica B61-12, artefacto que ahora comenzará a fabricar en serie. En territorio de la Unión Europea, que se dice defensora de la paz, la nueva bomba atómica estadounidense será incluida en el equipamiento de la fuerza aérea italiana, lo cual viola simultáneamente el Tratado de No Proliferación Nuclear y la Constitución de Italia.

| Roma (Italia)
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Las luces de la escena político-mediática se concentran en este momento en la escalada nuclear en desarrollo en la península de Corea, dejando mientras tanto en la penumbra la que se prepara en la península italiana.
El Air Force Nuclear Weapons Center anunció el 13 de abril de 2017 que, en el polígono de Nellis, en Nevada (Estados Unidos), «un F-16 de la US Air Force largó una bomba nuclear B61-12 inerte [o sea, sin explosivo] demostrando la capacidad del avión para utilizar esa arma y sometiendo a prueba el funcionamiento de los componentes no nucleares de la bomba, incluidos el reglaje y activación del sistema de control, el radar altimétrico, los motores de los cohetes de rotación y el ordenador de control».
Eso quiere decir que la B61-12, la nueva bomba atómica estadounidense destinada a reemplazar la B61 almacenada en Italia y en otros países europeos, entra en la fase de ingenierización que prepara su producción en serie. Los numerosos componentes de la B61-12 se proyectan y se someten a ensayos en los laboratorios nacionales [estadounidenses] de Los Alamos y Alburquerque, en Nuevo México; y de Livermore, California; y se fabrican en una serie de instalaciones situadas en los Estados de Missouri, Texas, Carolina del Sur y Tennessee. A esos componentes se agregan la sección de cola de la bomba, que garantiza la guía de precisión, fabricada por Boeing.
La nueva bomba atómica estadounidense B61-12 no es una simple versión actualizada de la anterior. Es un arma nueva: tiene una cabeza nuclear que permite seleccionar entre 4 opciones de potencia diferentes, en función del objetivo atacado; un sistema de guía que permite que el avión que la utiliza no tenga que posicionarse verticalmente sobre el objetivo sino a distancia de este; y también puede penetrar en el suelo para garantizar la destrucción de los búnkeres de los centros de mando en un primer ataque nuclear.
El ensayo del 13 de abril confirma que la nueva bomba atómica estadounidense puede ser utilizada desde los F-16 C/D de la 31st Fighter Wing, la escuadrilla de cazabombarderos que Estados Unidos mantiene estacionados en la base de Aviano (Italia), actualmente lista para iniciar un ataque nuclear con 50 bombas B61 –esa cifra proviene del estimado publicado por la FAS, la Federación de Científicos Estadounidenses.
La B61-12, según especifica el comunicado, también puede ser utilizada desde los cazabombarderos Tornado PA-200 del 6º Escuadrón de la fuerza aérea de Italia, con base en Ghedi, actualmente listos para iniciar un ataque nuclear con 20 bombas B61 [estadounidenses], en espera de que la fuerza aérea italiana reciba también los F-35 en los que –según anuncia la US Air Force– «se integrará la B61-12».
Pilotos italianos se entrenan actualmente para realizar ataques nucleares bajo el mando de Estados Unidos, señala la FAS [1], precisando que eso está demostrado por la presencia en la base aérea de Ghedi del 704th Munitions Support Squadron, una de las 4 unidades que la fuerza aérea de Estados Unidos mantiene desplegadas en las bases europeas –además de las que existen en Alemania, Bélgica y Holanda– «donde las armas nucleares estadounidenses están destinadas a ser lanzadas desde aviones del país que las alberga». Así que los pilotos de esos 4 países europeos –más Turquía– están entrenados para utilizar la bomba B61 y se entrenan para utilizar las B61-12 participando en Steadfast Noon, el ejercicio de guerra atómica que la OTAN realiza cada año. En 2013 ese ejercicio se realizó en Aviano y en 2014 se hizo en Ghedi.
Según el programa trazado, las B61-12, cuyo costo está previsto entre 8 000 y 10 000 millones de dólares para la producción de 480 bombas, comenzarán a fabricarse en serie en 2020 y a partir de entonces reemplazarán las B61 en Italia y en los demás países de Europa.
En las fotos satelitales publicadas por la FAS pueden comprobarse las modificaciones ya realizadas en las bases de Aviano y Ghedi –en Italia– y en otras bases situadas en Europa y Turquía para recibir las nuevas bombas atómicas estadounidenses. No se sabe cuántas están destinadas a Italia, pero es posible que, dado el contexto de creciente tensión con Rusia, su número sea mayor que la cantidad de B61 actualmente desplegadas. También es posible que, además de Aviano y Ghedi, se desplieguen también en otras bases en suelo italiano, como Camp Darby, donde se almacenan las bombas de la US Air Force de este lado del Atlántico.
La participación, por primera vez, de pilotos polacos con cazabombarderos F-16 C/D en el ejercicio de guerra nuclear de la OTAN realizado en Ghedi en 2014 indica además que, según todas las probabilidades, las nuevas bombas atómicas estadounidenses B61-12 serán desplegadas también en Polonia y en otros países del este de Europa. Varios F-16 y otros aviones de guerra de la OTAN capaces de llevar armamento convencional tanto como armamento nuclear ya se despliegan de forma rotativa en las repúblicas bálticas, fronterizas con Rusia.
Cuando se inicie, en 2020 –aunque no se puede excluir la posibilidad de que comience antes–, el despliegue en Europa de las nuevas bombas nucleares estadounidenses B61-12, que el Pentágono define como «elemento fundamental de la tríada nuclear estadounidense» –o sea, todo el armamento nuclear utilizable por las fuerzas terrestres, la fuerza aérea y la marina de guerra–, Italia, país oficialmente no nuclear, se verá en la primera línea de un enfrentamiento cada vez más peligroso entre la entidad Estados Unidos/OTAN y Rusia.
Hasta el propio general James Cartwright, ex jefe del Mando Estratégico de Estados Unidos, advierte que «armas nucleares como las bombas B61-12, de potencia más reducida (entre 0,3 y 50 kilotones) y más precisas, aumentan la tentación de utilizarlas como primer recurso y no como represalia».
En ese caso, es seguro que Italia sería el primer blanco de la inevitable represalia nuclear.
Traducido al español por la Red Voltaire a partir de la versión al francés de Marie-Ange Patrizio.
[1] “Status of World Nuclear Forces”, Hans M. Kristensen Y Robert S. Norris, Federation of American Scientists

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Mélenchon representa a nova Esquerda em França, que não se submete ao imperialismo alemão

Contra o imperialismo alemão erguem-se na França Mélenchon e Marine Le Pen. 
Marine Le Pen apresenta um caderno de encargos do tempo da Inquisição, mais ou menos dissimulado. Se Marine Le Pen abondonasse os aspectos do tempo da Inquisição ganharia as eleições.
Mas, a defesa dos interesses nacionais não é exclusiva da extrema-direita. Mélenchon mostra que a Esquerda não é só constituída por traidores ao serviço do imperialismo alemão.

«Hoje, Mélenchon tem um plano A e um plano B para a Europa. A primeira escolha será “uma saída concertada dos tratados europeus, através do abandono das regras existentes por todos os países que o desejem, e a negociação de outras regras”. As regras que quer abolir são o Pacto de Estabilidade e Crescimento, o limite dos 3% do défice, o Acordo Comercial da UE com o Canadá ou a directiva da livre circulação de trabalhadores.
O plano B, se não houver países-membros suficientes interessados em abrir esta discussão que propõe, se chegar à presidência, seria “a saída unilateral da França dos tratados europeus, para propor outras formas de cooperação”. Propõe então “requisitar o Banco de França para transformar o euro em moeda comum e já não única”, segundo diz o seu programa, e instaurar “o controlo de capitais e de mercadorias nas fronteiras nacionais.”» [In jornal «Público» net]

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Em Portugal não é obrigatório vacinar as crianças, os pais têm o direito a matarem os filhos negando-lhes o direito à prevenção de doenças graves evitáveis com vacinas

«Os direitos das crianças são DAS crianças


O surto de sarampo recentemente verificado em Portugal representa um facto gravíssimo do ponto de vista da saúde pública e um aviso que não deve ser ignorado. Fazê-lo seria ficar à espera que a memória da importância da vacinação seja reavivada através do regresso de doenças que tinham sido varridas do mapa, com as consequências que as acompanharam.

Não vale a pena fazer de conta que existe uma controvérsia científica sobre este assunto. Há, e ainda bem, controvérsia científica sobre a introdução (ou não) de novas vacinas e seus custos e benefícios. Não há debate científico sobre as vacinas que contribuíram para erradicar várias doenças que, no passado e nos presentes de outras paragens, mataram (e matam) milhões de bébés e crianças. É o caso da vacina do Sarampo e outras. Há um consenso científico total em torno da ideia de que as vantagens destas vacinas são esmagadoramente superiores aos raríssimos problemas verificados. Este debate decorre entre uma comunidade científica unida como em poucos assuntos e um pequeno exército de charlatões, maluquinhos “new-age” e teóricos da conspiração.

Entre a esmagadora maioria das pessoas que, por conhecimento ou simples memória, reconhecem o papel crucial da vacinação, decorre um outro debate que é o debate sobre a obrigatoriedade da vacinação. E aqui o conflito é de natureza política. Deve o Estado intrometer-se na esfera familiar para assegurar a vacinação ou não?

A minha posição é que, obviamente, deve. O direito à saúde e à vida é um direito individual consagrado na Constituição. Individual. Isso significa que o titular do direito à vida de uma criança é a própria criança. É por esta razão que o Estado já se intromete, e bem, na vida de inúmeras famílias em nome do interesse da criança: maus tratos, abuso sexual, abandono escolar negligente, etc. As razões que levam os pais a não vacinar uma criança são irrelevantes para o caso. O Estado tem de proteger quem não se pode proteger a sí próprio. Defendo que um adulto deve poder fazer o que quiser à sua saúde e à sua vida. Não pode fazer o que quer à saúde e à vida de um terceiro, mesmo que seja seu filho.

A questão é então a de como concretizar essa protecção. E aqui, lamento, informação e pedagogia são importantes, e esse é um trabalho que deve prosseguir, mas não são suficientes. A não ser que o objectivo seja pôr  o Estado a dizer a pais que perderam um filho “pois, olhe, nós bem avisámos”. Temo bem que quem demonstra uma tamanha arrogância perante mais de dois séculos de conhecimento científico e história da saúde, incluindo a nossa, não seja particularmente permeável a publicidade institucional.

Também não simpatizo com duas das propostas que ouvi para impor a vacinação: a negação do acesso à escola por crianças não-vacinadas e a punição dos pais que não vacinem as crianças. Por duas razões: nenhuma destas propostas protege as crianças em causa, embora a primeira possa proteger outras crianças. Ambas, sobretudo a primeira, acrescentam à privação do direito à vacinação uma penalização sobre a criança, directa (no acesso à escola) ou indirecta (através da penalização dos pais).

É por isso que defendo que o Estado deve proceder da mesma forma como procede em relação à escolaridade obrigatória, quando vai buscar crianças às suas casas para as levar para a escola, mesmo contra a vontade dos seus pais. A vacinação deve ser obrigatória e o Estado, perante situações de desobediência parental, deve assegurar a vacinação da criança, mesmo que contra a vontade dos pais.

O facto de esta proposta chocar muita gente que considera que as vacinas são essenciais à protecção da vida e saúde das crianças choca-me a mim. Porque, aparentemente, quem assim pensa acha que a custódia legal de uma criança é um valor maior do que a vida dessa criança e, portanto, numa situação de conflito, deve prevalecer a vontade dos pais com risco para a vida dos seus filhos. O mais espantoso é que já hoje não é assim. Já hoje o Estado interfere na vida familiar para assegurar direitos fundamentais das crianças. E faz muitíssimo bem. E se a moda da irresponsabilidade continuar a pegar, o Estado terá de fazer aquilo que está obrigado pela Constituição: proteger o direito de todas as crianças à vida e à saúde. Se não o fizer será um cumplice irresponsável e criminoso, com a agravante de ser informado.»
[In blog «Ladrões de Bicicletas»]

Alice no país das maravilhas macabras


Alice vive no país das maravilhas – vive na França, que faz parte da União Europeia e da Zona Euro e prometem-lhe o empobrecimento progressivo, assim quanto mais pobre melhor, quanto mais pobre mais feliz, porque fazer parte da Zona Euro é uma felicidade feliz com o empobrecimento, com o viver mal, para viver ainda pior.
Alice já fez 18 anos e já vai votar contra os donos do empobrecimento, representados por Macron, Fillon e Hamon. Ou vai votar na Marine Le Pen ou no Mélenchon. No estabishment é que não vota.
Dizem que os donos do empobrecimento vão ganhar. Parece que são necessários mais cinco anos de empobrecimento e depois logo se vê.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Donald Trump o pistoleiro sem lei - análise


«Trump, o senhor da guerra
Estamos apenas no início de quatro anos de presidência Trump, e já vamos aqui. O que pretende ele?

O homem mais poderoso do mundo também se impressiona com o sofrimento. Que a imprensa cite Eric Trump garantindo ter sido a irmã Ivanka a ficar "indignada" com as imagens das crianças sírias mortas no ataque químico a Khan Shaykhun, inspirando assim a decisão do pai de atacar uma base aérea síria, faz-nos retroceder às histórias que se centram num rei todo-poderoso (Trump), cujos repentes podem produzir guerras de consequências incalculáveis, pelo que é necessário apoiar os conselheiros bons (a filha, o genro, os generais) que procuram compensar a ação dos conselheiros maus (a extrema-direita supremacista branca). O curioso da história é que, pelos vistos, terão sido os bons a convencer o rei a lançar-se em guerra, contra a vontade dos maus.
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Se falamos de vítimas civis na Síria e no Médio Oriente, Trump, Presidente há menos de três meses, é já responsável por umas boas centenas. No curto espaço de uma semana, aviões norte-americanos mataram 49 civis numa mesquita em Al-Jinah, na Síria (16 de março), a somar aos 220 civis, pelo menos, que, desde 2014, durante a presidência Obama, Washington assume terem morrido em ataques aéreos da sua responsabilidade sobre território sírio (Guardian, 17.03.2017). No dia seguinte, 230 civis morreram num ataque levado a cabo contra Mossul, no Iraque (Independent, 23.03.2017). Cinco dias depois, aviões americanos bombardearam uma escola em Mansoura, na Síria, debaixo de cujos escombros ficaram os cadáveres de 30 civis (NYT, 22.03.2017). Numa guerra sem fim como a da Síria, e depois das declarações ocidentais de horror e indignação perante as vítimas dos bombardeamentos russos e sírios sobre Alepo, é repugnante ter de ouvir agora The Donald "enojado" com as imagens de crianças sírias mortas — ele, o mesmo racista que, aplicando a política de fronteiras que tem reiterado, não admitiria uma única dessas crianças nos EUA justamente porque cidadãs sírias!
A (in)consistência (e o perigo) de Trump revela-se, antes de mais, nos 59 mísseis lançados contra uma base síria. É que na campanha eleitoral foi ele que disse que os planos de Hillary Clinton para intervir na Síria conduziriam o mundo à "III Guerra Mundial" (Guardian, 25.10.2016). O mesmo homem que, na campanha eleitoral, dizia dispor de uma "arma secreta" para destruir o Estado Islâmico, revelou-a agora, mandando lançar uma GBU-43, a "mãe de todas as bombas", no Leste do Afeganistão, subindo até ao último degrau da guerra não nuclear. Cem mortos só no momento da explosão (Guardian, 14.04.2017). Ao mesmo tempo, enviou uma esquadra para o Mar da Coreia, subindo a parada com a Coreia do Norte. Em todos os casos, os aliados na NATO apressaram-se a aplaudir o que acham ser uma viragem intervencionista de Trump. Que a ONU seja tudo menos tida e havida nestes processos é o menos original; com os EUA, sempre foi assim desde o Vietname. Mas que Trump nem perca tempo a consultar a NATO diz bem de como os aliados europeus não valem nada em Washington.
Estamos apenas no início de quatro anos de presidência Trump, e já vamos aqui. O que pretende ele? Uma nova ordem mundial? Ou acrescentar provocação, bravata e puro belicismo à desordem permanente desta era de guerras que, como as descreveu Guterres, começam e nunca mais acabam? Está tudo dito quando na Foreign Policy, a mais mainstream das revistas norte-americanas de política internacional, se escreve que "a doutrina Trump parece ser: os EUA reservam-se o direito de usar a força sempre que o Presidente se impressionar com qualquer coisa que veja na televisão" (Max Boot, 10.04.2017). Não é novidade que os EUA atuem como senhores da guerra que julgam que o mundo não tem lei. Outros o fazem e o fizeram; mas ninguém com a força dos americanos. A novidade é que o façam sob um governo oligárquico, feito de veteranos da Goldman Sachs que se ocupam da política económica e de militarões que podem espraiar toda a sua megalomania bélica, dirigido por um dos ricos-mais-ricos, rodeado de familiares que aconselham e manipulam, como nas velhas cortes aristocráticas do séc. XVII ou XVIII.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico»
[Manuel Loff, in jornal «Público» net]